4 — A Fuga

Capítulo 4 — A Fuga

Alice Carson

O trânsito da manhã parecia ignorar o nó que apertava minha garganta. Quando estacionei o carro na garagem da mansão, meu celular vibrou pela vigésima vez no console. Todas as ligações eram do meu pai. Respirei fundo, segurando o volante por alguns segundos até que o tremor nos meus dedos sumisse, e saí do veículo.

Assim que empurrei as portas duplas da entrada, o caos me atingiu. Funcionários corriam de um lado para o outro carregando cabides com ternos, caixas de ornamentos e arranjos florais. No centro da sala, minha mãe andava em círculos, enquanto falava ao telefone com a voz alterada. Faltavam poucas horas para o casamento.

— Onde você estava? — A voz do meu pai ecoou do topo da escadaria.

Ele desceu os degraus a passos pesados e com o rosto vermelho de fúria. Minha mãe desligou o celular no mesmo instante, levando a mão ao peito ao me ver.

— Suba agora, Alice. A equipe de maquiagem chegou agora pouco e já está esperando no seu quarto — ordenou, parando na minha frente. — Você sumiu, não dormiu em casa, não atendeu a porcaria do telefone, e seu noivo já deixou bem claro que preza por pontualidade.

— Eu não vou subir — falei, mantendo a voz perigosamente baixa. Cruzei os braços, sustentando o olhar dele. — E eu não vou me casar.

Minha mãe soltou um suspiro horrorizado. Meu pai deu um passo à frente, os olhos fixos nos meus, exalando uma autoridade que já não surtia efeito.

— Você vai subir, vai vestir aquele vestido e vai entrar naquela igreja. Não gastei trinta anos construindo o nome desta família para ser destruído pelo capricho de uma garota mimada. Se você não subir por bem, eu a coloco naquele altar à força.

Olhei para ele, depois para a passividade nos olhos da minha mãe. A humilhação da traição de Ethan e a frieza do contrato do meu pai se transformaram em um escudo de puro gelo dentro do meu peito. Um sorriso amargo e sem humor surgiu nos meus lábios.

— Mesmo que eu quisesse... já é tarde demais. — Soltei as palavras devagar, saboreando o peso de cada uma.

O silêncio que se instalou na sala foi absoluto. Minha mãe deu dois passos para trás, a boca aberta, sendo a primeira a entender o que aquela frase significava.

— O que você quer dizer com isso? — Ele semicerrou os olhos, a voz falhando pela primeira vez.

— Eu não sou mais virgem — revelei friamente.

Meu pai deu um passo à frente, estreitando a distância entre nós, e o tapa acertou em cheio o lado esquerdo do meu rosto. Mantive os olhos cravados nele, sem piscar e sem dar a ele uma única lágrima.

— Arnold, não! — Minha mãe gritou, correndo para segurar o braço dele antes que ele avançasse novamente.

— Você é uma vagabunda! — ele rugiu, apontando o dedo na minha cara, o corpo inteiro tremendo de ódio. — Uma garota egoísta que arruinou a única chance de salvação desta família por causa de uma noite de libertinagem! Você tem noção do escândalo público que isso vai causar? O que vou dizer aos investidores? O que vou dizer a Mason Rhodes?

— O senhor vai dizer que não terá casamento, simples  — rebati com ironia,  mascarando o tremor na minha voz. — Vocês me venderam como se eu fosse um ativo de luxo. Me trataram como um objeto descartável para pagar suas dívidas. Mas o produto veio com defeito, pai. O playboy não vai ter a pureza que comprou.

Ele se soltou do aperto da minha mãe, a expressão endurecendo em uma frieza assustadora.

— Não me importa o que você fez ou com quem fez. Você vai subir, vai se arrumar e vai fingir que nada aconteceu. Se aquele homem descobrir no altar ou na noite de núpcias, o problema é seu. Mas você vai assinar a porcaria do contrato hoje. Se você se recusar a entrar naquela igreja, saia desta casa agora e esqueça que tem família. Não vou bancar uma filha desnaturada que prefere ver os pais na sarjeta.

Olhei para os dois pela última vez. O orgulho que herdei do próprio Arnold Carson me impediu de implorar. Dei as costas sem dizer mais uma palavra e subi as escadas sob os gritos abafados do meu pai e o choro contido da minha mãe.

No meu quarto, o silêncio era sufocante enquanto a equipe terminava o meu cabelo e maquiagem. Foi então que a porta se abriu e minha mãe entrou, parando estática ao me ver com o vestido de noiva. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela se aproximou com passos hesitantes, tocando meu ombro.

​— Você está a noiva mais linda que eu já vi, filha... — Sua voz falhou, um misto de orgulho e culpa brilhando no olhar. — Por favor, tente entender o seu pai. É pelo bem de todos nós. 

​Não respondi. Apenas sustentei seu olhar pelo espelho, fria, até que ela desviasse e saísse do quarto para terminar de se arrumar.

​O tempo passou arrastado até que o relógio avisou que faltava menos de uma hora para a cerimônia. Pela janela do quarto, vi o carro principal parado na entrada. Meu pai estava lá dentro me esperando. A mansão mergulhou em um silêncio absoluto; os funcionários da organização já tinham ido para o local do evento e os empregados da casa haviam sido dispensados. Era a minha única oportunidade.

Com o coração disparado, arranquei o véu da cabeça. Não havia tempo para trocar de roupa. Peguei uma mochila no armário, joguei o notebook, meus documentos e algumas roupas. Abri a porta do quarto com cuidado e desci as escadas de serviço nos fundos da mansão, correndo em direção à rua lateral. Chamei um táxi pelo aplicativo e, no segundo em que o carro parou na esquina, eu entrei. 

​Só ali, enquanto o carro ganhava velocidade, o peso do mundo desabou. Encostei a testa no vidro frio da janela e as lágrimas que segurei por horas finalmente desceram, silenciosas e dolorosas. Meu celular vibrou na bolsa com mensagens desesperadas de Emily, mas ignorei. Eu não podia pedir ajuda a ela. O pai dela era um dos melhores amigos do meu pai; se eu me escondesse na casa dela, ele me acharia em questão de minutos e eu acabaria arrastando minha melhor amiga para o meio daquela confusão. 

​O táxi parou trinta minutos depois em Dorchester, um bairro humilde do centro de Boston. Desci segurando a barra do vestido branco, sob o olhar curioso dos pedestres, e entrei no hostel simples que havia encontrado no caminho. O quarto que aluguei era minúsculo, com uma cama de solteiro de colchão gasto e paredes descascadas que cheiravam a desinfetante barato.

​Fechei a porta de madeira barulhenta atrás de mim, deixei a mochila cair e encostei a cabeça na parede. Pela primeira vez na vida, eu estava completamente sozinha.

Uma semana se passou como um borrão. Dividi meus dias entre o notebook e as ruas de Boston, batendo de porta em porta em busca de qualquer vaga no setor financeiro. Mas a realidade do mercado era cruel. Ninguém queria contratar uma recém-formada sem experiência formal, e o sobrenome Carson, antes sinônimo de prestígio, agora não valia nada. O dinheiro que eu tinha na carteira estava sumindo rápido, meus cartões obviamente foram bloqueados e a reserva do hostel não duraria mais do que alguns dias.

Era uma tarde de quinta-feira, enquanto eu encarava o teto manchado do quarto tentando calcular quantas refeições ainda conseguiria pagar, meu celular vibrou.

Olhei para a tela, vendo um número fixo desconhecido. Atendi sem qualquer expectativa, a voz automática pelo cansaço.

— Alô?

​— Boa tarde, falo com Alice Carson? — Uma voz feminina questionou do outro lado. — Meu nome é Sarah, do recursos humanos da R&H Financial Consulting. Gostaríamos de agendar uma entrevista para amanhã, às nove da manhã. É possível?

​O ar voltou para os meus pulmões. A R&H era uma das consultorias mais renomadas da cidade. Eu mal lembrava de ter enviado meu currículo para lá no meio do desespero.

​— Sim, com certeza. Amanhã às nove horas estarei aí — respondi, mantendo o tom profissional.

A mulher ditou o endereço, agradeceu e desligou.

Soltei o aparelho contra o colchão duro e respirei fundo, sentindo um vislumbre de alívio pela primeira vez em dias. Olhei para o teto do quarto escuro e fechei os olhos com um leve sorriso nos lábios.

Talvez as coisas estejam finalmente começando a mudar.

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