Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 6 — O Jogo Começa
Jonathan Rhodes O choque nos olhos de Alice Carson foi a visão mais satisfatória que tive em toda a minha vida. Ali, encurralada contra a madeira maciça da porta da minha sala, a noiva fujona parecia ter visto um fantasma. O terno azul-marinho que ela vestia tentava transmitir uma imagem de seriedade e força, mas o tremor leve nos seus dedos a entregavam completamente. Eu me recostei na cadeira de couro, saboreando cada segundo daquele silêncio ensurdecedor. O ego ferido é um motor poderoso. Nunca, em toda a minha existência, alguém tinha ousado me rejeitar. Muito menos publicamente. No dia do casamento, quando a notícia de que a filha de Arnold Carson havia sumido sem deixar rastros chegou até o altar, a fúria que me dominou quase me fez quebrar aquele maldito salão. O escândalo teria sido devastador se o Grupo Rhodes não tivesse o poder de calar a mídia com um estalar de dedos. Mas o dano interno estava feito. Mason Rhodes, meu pai, foi claro como água após o fiasco. “Encontre outra, Jonathan. Não me importa quem. Sem um casamento estável para limpar a sua imagem com o conselho, você não encosta um dedo na presidência do Grupo Rhodes”, ele havia rosnado. Para o meu pai, a reputação da família e o valor das ações eram as únicas coisas que importavam. Casamento era só um maldito negócio. Mas eu não queria outra noiva. Eu queria a minha vingança. E queria provar a ele que eu jogava sob as minhas próprias regras. No mercado financeiro, eu era conhecido como o “ CEO implacável” por um motivo: eu nunca perdia uma negociação. E não perderia essa. Vê-la ali na minha frente, me fuzilando com os olhos e com as bochechas coradas de fúria, apenas alimentou o meu divertimento. — Gostou do meu nome completo, querida? — debochei, sustentando o olhar faiscante dela enquanto o canto da minha boca se erguia em um sorriso torto. — Devo admitir que ver a surpresa estampada na sua cara foi um espetáculo fascinante. — Como...? — A voz de Alice finalmente saiu, um sussurro frágil que ela tentou rapidamente engolir, endireitando a postura e começando a girar o anel no próprio dedo com uma intensidade frenética.. — Por que você está aqui? O que é isso? Soltei uma risada anasalada, um som desprovido de qualquer humor. Tamborilei os dedos sobre o vidro da mesa, sustentando o seu olhar. — O que foi, Alice? Esperava encontrar um diretor de recursos humanos entediado? — Falei, a voz destilando um cinismo gélido. — Você armou isso — ela acusou, dando um passo à frente, a indignação começando a superar o choque inicial. — A R&H... a entrevista... — Claro que armei. Você achou mesmo que o seu currículo medíocre de recém-formada tinha chamado a atenção da minha empresa por puro mérito? — Inclinei-me para a frente, apoiando os cotovelos no vidro. A R&H era a minha maior conquista. Eu a fundei do zero, sem um único centavo do meu pai, transformando-a em uma das consultorias mais agressivas e respeitadas de Boston apenas para esfregar na cara de Mason Rhodes e de todo o conselho do grupo que eu não dependia do sobrenome da família para ser um titã no mercado financeiro. Mas para trazer a minha noiva fujona até o meu território, usei a minha estrutura como a ratoeira perfeita. — A vaga nunca existiu — continuei. — Foi criada especificamente para você. Ela piscou, a mente trabalhando rápido enquanto assimilava o golpe. — Como me encontrou? Ninguém sabia onde eu estava. — Você subestima o meu poder, senhorita Carson. Na noite em que nos conhecemos naquele bar, confesso que você foi uma distração fascinante. Uma mulher misteriosa, atrevida, disposta a se entregar sem perguntas. Eu não fazia ideia de quem você era, e nem fiz questão de saber, pois pouco estava me importando com essa droga de casamento arranjado. Mas quando a minha noiva desapareceu no dia seguinte e os meus investigadores colocaram a pasta com a sua foto na minha mesa, foi uma surpresa deliciosa. Você é audaciosa, admito. Mas foi burra o suficiente para achar que sumiria de mim. Fiz uma pausa, vendo a cor sumir do rosto dela à medida que a crueldade do meu jogo se revelava. — Deixe-me te contar um segredo: — continuei, exibindo um sorriso maldoso — cada rejeição que você recebeu nos últimos dias, cada e-mail dizendo que o seu perfil "não se encaixava", cada porta fechada na sua cara... fui eu. Um único telefonema meu foi o suficiente para garantir que nenhuma empresa nesta cidade ousasse te contratar. Eu a encurralei, Alice. E você veio andando direto para os meus braços. O rosto dela se contorceu em uma expressão de puro nojo. A raiva flamejante fez seus olhos brilharem. — Você é um doente de merda — ela cuspiu as palavras, avançando mais um passo. — Que tipo de homem machista, arcaico e escroto é você para exigir uma cláusula ridícula de virgindade em pleno século XXI? Você achou mesmo que eu ia me submeter a ser exposta como um pedaço de carne inspecionado para um playboy mimado? Soltei uma gargalhada alta e genuína, jogando a cabeça para trás. Quando voltei a encará-la, meus olhos estavam semicerrados, frios como o inverno de Boston. — Você é mesmo uma idiota, não é? — Falei, a voz caindo para um tom cortante. — Acha que eu dou a mínima para a porcaria da sua virgindade? Ela travou, confusa. — A cláusula foi minha, sim. Mas foi uma tentativa deliberada de sabotar o acordo do meu pai — revelei, vendo a compreensão começar a atingir os olhos dela. — Ele me impôs esse casamento para limpar a minha imagem pública perante os investidores antes de me entregar a presidência do Grupo Rhodes. Eu precisava parecer um homem de família. Como eu não queria essa coleira, exigi uma noiva virgem. Achei que seria impossível existir alguém que atendesse a essa exigência, e que o contrato cairia por terra. Mas eu me enganei. Além do seu pai estar desesperado o suficiente para vender a própria filha sem hesitar, ele ainda me entregou a puritana perfeita no papel. A ironia da situação quase me fez sorrir novamente. Mas o jogo tinha mudado. E eu exigia reparação por toda humilhação. — E agora, estamos aqui — comentei, apontando com o queixo para o documento impresso que estava sobre a mesa. — E as regras mudaram. Alice olhou para o papel, mas parecia querer rasgá-lo. Notei que ela mordia discretamente a parte interna da bochecha, tentando conter a tempestade que a dominava. — O que significa isso? — Um novo contrato — ditei, recostando-me na cadeira com a postura de um predador que acabou de encurralar a presa. — Você vai assinar, vai se casar comigo e vai desempenhar o papel de esposa perfeita diante da sociedade e do conselho do Grupo Rhodes até que eu assuma a presidência definitiva e estabilize as ações. — Eu prefiro morrer na sarjeta a assinar qualquer coisa que venha de você, seu tirano egocêntrico — ela rebateu imediatamente, o queixo erguido em um orgulho insolente, sem vacilar a voz ou piscar sob a minha pressão. Ela não tinha medo de mim. Diretores bilionários gaguejavam na minha presença, mas aquela garota sustentava o meu olhar como se estivéssemos em condições de igualdade. Aquilo me irritou profundamente. Senti o controle escorregar por um segundo. Soltei um suspiro pesado pelo nariz, passei a mão espalhada pela testa e baguncei meus cabelos com força, destruindo o alinhamento impecável dos fios. — Ah, você acha que tem escolha, querida? — ironizei, cruzando os braços e tentando retomar as rédeas do meu próprio roteiro. — Deixe-me ser bem claro sobre o que acontece se você passar por aquela porta sem assinar. Primeiro: eu executo a dívida multimilionária do seu pai hoje mesmo. Ele estará atrás das grades antes do pôr do sol por fraude financeira, e a sua querida mãe vai ser despejada daquela mansão sem um centavo no bolso. Alice engoliu em seco, o peito arfando. — Segundo — continuei, desfrutando do controle absoluto da situação — eu garanto que você não vai conseguir emprego nem como faxineira em toda a Costa Leste deste país. Vou destruir o seu nome de uma forma que o seu diploma de finanças não vai servir nem para limpar o chão do hostel barato onde você está escondida. Apontei uma caneta tinteiro prateada na direção dela. — Ou você assina o contrato ou cruza aquela porta e assume as consequências. A escolha é sua. Mas decida agora; o meu tempo é caro demais para ser desperdiçado com o seu orgulho. Fixei meus olhos nos dela, esperando o momento exato em que a realidade esmagaria a sua rebeldia.






