Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 3 — O Desconhecido
Alice Carson — Onde você está? — A voz de Emily disparou no alto-falante antes mesmo que eu pudesse respirar. — Não consegui falar com você, então liguei para a sua mãe. Ela atendeu com uma voz de enterro e disse que você simplesmente sumiu. O que aconteceu? — Nada, Emily. Eu só... preciso ficar sozinha um pouco. — Tentei manter a voz firme, mas o tremor residual do confronto no escritório me traiu. — Não minta para mim, Carson. Eu conheço esse seu tom de voz de quem está prestes a cometer um crime ou a morrer por dentro. Onde você está? — Saindo da empresa. — Soltei um suspiro pesado, encostando a cabeça no vidro frio quando o elevador finalmente chegou ao térreo. — Eu peguei o Ethan transando com a Camila. O silêncio do outro lado da linha durou exatamente dois segundos antes de ser quebrado por um grito de puro horror. — Aquele desgraçado! Com a cobra da sua prima? Alice, não ouse ir para casa se trancar naquele quarto. Você não vai chorar por aquele escroto. Me encontra no L'Avenue em trinta minutos. — Amiga, eu não estou no clima... — Não foi um convite, foi uma convocação. Se você não aparecer, eu vou até a sua casa e arrasto você pelos cabelos. Trinta minutos, Alice. Vinte e cinco minutos depois, eu cruzava as portas de vidro do L'Avenue. A calmaria daquele lounge exclusivo do centro de Boston, com sua meia-luz e sofás de veludo escuro, contrastava violentamente com o caos dentro de mim. Emily já estava em uma das banquetas altas do balcão de mármore, acenando freneticamente enquanto apontava para o copo de vodca com cranberry que brilhava à minha espera. — Bebe. Você está com cara de quem acabou de testemunhar o apocalipse. — Ela me puxou pelo braço, me forçando a sentar. — E eu testemunhei. O apocalipse da minha dignidade. — Virei o copo de uma vez, sentindo o líquido queimar a minha garganta. — Meus pais me venderam em um contrato de casamento para um herdeiro idiota, e o homem que eu achava que me amava estava me traindo. Definitivamente hoje não é o meu dia. Emily arregalou os olhos, quase engasgando com o próprio drinque enquanto eu resumia os detalhes sórdidos. Ela tentou me confortar, xingando Ethan de todos os nomes possíveis, mas a minha mente estava flutuando. Pedi o segundo drinque. Depois o terceiro. A pressão invisível do dia de amanhã — o dia em que eu deveria caminhar até um altar — estava me sufocando. — Preciso urgente ir ao banheiro ou faço xixi aqui mesmo. — Emily resmungou, descendo da banqueta com passos apressados. Fiquei sozinha, tamborilando os dedos no mármore do balcão, encarando o fundo do meu copo vazio. — Uma mulher bonita assim não deveria estar sozinha olhando para um copo com tanto arrependimento. — Uma voz grave, aveludada e carregada de uma arrogância natural ecoou bem ao meu lado. Virei a cabeça devagar. O homem arrastou a banqueta vizinha para perto e se sentou sem esperar qualquer convite, quebrando totalmente a minha distância de segurança. Ele era absurdamente lindo. Cabelos pretos levemente desalinhados, uma camisa social escura com os primeiros botões abertos que revelavam um porte atlético grande demais para o ambiente e olhos verdes intensos que me fixavam com uma curiosidade predatória. Ele exalava uma aura perigosa de problema. — Antes só do que mal acompanhada. — Rebati de imediato, arqueando uma sobrancelha. — E não que seja da sua conta, mas eu estou acompanhada. Ela só foi ao banheiro. O desconhecido soltou um sorriso lento e provocador nos cantos dos lábios bem desenhados. Ele parecia genuinamente surpreso por eu não ter cedido a sua conversa fiada. Ele gesticulou para o barman, pedindo um uísque puro e apontando para o meu copo pedindo outro para mim. — E por acaso eu te mandei sentar? — Perguntei, sustentando o olhar dele. — Não, mas estou vendo que você precisa desesperadamente desabafar e eu sou um ótimo ouvinte. — Ele aceitou o copo do barman, deslizando o meu na minha direção. — É impressionante a facilidade da vida em te dar uma rasteira. — Dei um gole, rindo sem humor. — Um dia achamos que temos a vida perfeita, que as pessoas ao redor são confiáveis, e de repente tudo muda. Você descobre que estava cercada por interesseiros e que o seu futuro virou moeda de troca. O homem travou o copo no meio do caminho até a boca. Havia uma sombra de amargura que cruzou suas feições antes que ele engolisse o uísque, voltando a girar o gelo com uma lentidão calculada. — Deixe-me adivinhar: decepção amorosa ou problemas de família? — Os dois. No combo mais ridículo possível. — Apoiei o queixo na mão, encarando-o de volta. — Amanhã eu deveria me casar com um playboy idiota que deve se achar dono do mundo. Os olhos dele se estreitaram por um breve segundo, e uma tensão palpável flutuou entre nós, mas logo a expressão dele se transformou em puro divertimento. Ele soltou uma risada abafada, balançando a cabeça. — Um playboy idiota, é? — Ele repetiu as palavras devagar. — Ele e tão ruim assim? — Ele deve ser um babaca. E eu odeio tipos como ele. — Falei com os dentes trincados, aproximando-me um centímetro a mais, tragada pela eletricidade pura que subiu entre nós. Era o magnetismo de dois corpos que sabiam exatamente o que queriam, um jogo velado de olhares demorados que desciam pelos lábios e voltavam para os olhos. Ele se inclinou na minha direção, o perfume amadeirado e marcante invadindo os meus sentidos. — Se você o odeia tanto, então por que não quebra as regras e faz o que tem vontade? — Ele sussurrou, a voz tão baixa que foi apenas um sopro contra a minha orelha, arrepiando minha pele. — Vamos sair daqui para um lugar mais reservado, e garanto que te faço esquecer todos os problemas. Minha mente deu um estalo. Se eu passasse a noite com aquele desconhecido, o acordo estaria arruinado. Olhei bem no fundo daqueles olhos avassaladores e tomei a decisão mais imprudente da minha vida. — Me espera lá fora. Vou só falar com a minha amiga. — Falei, firme. Ele assentiu com um brilho vitorioso no olhar, deixou algumas notas no balcão e se levantou. No mesmo minuto, Emily apareceu saindo do corredor do banheiro, piscando os olhos ao ver o homem de costas se afastando em direção à saída. — Puta merda, amiga! Quem era aquele monumento? — Ela segurou meu ombro. — Emily, me desculpa, mas eu vou embora. — Peguei minha bolsa. — Vou com ele. — O quê? Você enlouqueceu? — Ela arregalou os olhos, mas depois olhou para a porta e deu um sorriso de cumplicidade. — Sabe de uma coisa? Vai. Aquele embuste do Ethan não merece uma lágrima sua. Vá se divertir. Depois você me conta tudo. — Conto sim. Obrigada. — Dei um beijo rápido no rosto dela e saí. O restante da noite foi um borrão de urgência. Fui guiada por ele até a cobertura de um hotel de luxo ali perto. No quarto, não houve espaço para gentilezas lentas. No segundo em que a porta se fechou, ele me prensou contra a madeira, e o choque do meu corpo com a superfície rígida foi sufocado pelo peso do seu peito contra o meu. Foi uma guerra de possessividade e desejo acumulado. As mãos dele eram firmes, grandes e quentes na minha cintura, apertando a minha pele com uma força que me arrancava suspiros sôfregos enquanto ele descia os beijos famintos e devastadores pelo meu pescoço, trilhando um caminho que fazia meu sangue ferver. Quando ele puxou o tecido do meu vestido, expondo meu corpo ao ar condicionado frio do quarto, o contraste com o calor da boca dele me fez arquear as costas, completamente entregue àquela eletricidade. Ele me levou até a cama sem romper o contato visual, aqueles olhos verdes escurecidos pela luxúria, devorando cada centímetro meu. Não havia espaço para romance; era a urgência cega de duas pessoas que precisavam daquele escape. Quando ele me possuiu, a dor inicial e o estalo da perda da minha virgindade me fizeram cravar as unhas nos ombros largos e musculosos dele. Ele travou por um segundo, os músculos das costas tensos sob os meus dedos, mas logo o desconforto sumiu sob a onda de prazer avassaladora e o ritmo firme, ritmado e intenso que ele impôs. A cada toque profundo, a pressão invisível do casamento forçado e a traição de Ethan sumiam da minha mente, substituídos apenas pelo prazer pecaminoso daquele momento. Assim que o primeiro raio de sol cruzou a janela, meus olhos se abriram. O quarto estava mergulhado no silêncio. Virei a cabeça devagar e olhei para o homem deitado ao meu lado, dormindo de bruços com o lençol cobrindo apenas metade de suas costas largas. Não sabíamos os nomes um do outro. Não trocamos explicações. E era melhor assim. Levantei-me sem fazer barulho, sentindo o corpo dolorido. Juntei minhas roupas espalhadas pelo chão, me vesti rapidamente e saí sem olhar para trás. Caminhei pela calçada deserta, o ar frio da manhã batendo no meu rosto. Eu não sentia culpa. Sentia algo diferente, uma mistura de libertação com um frio na espinha que eu não conseguia nomear direito. Parei na esquina, cruzando os braços contra o vento enquanto a ficha começava a cair. Tudo tinha saído completamente do controle. Afinal, hoje deveria ser o dia do meu casamento.






