Mundo ficciónIniciar sesiónA porta do meu escritório se abriu com um estrondo, fazendo as paredes de vidro vibrarem e o som ecoar pelo mármore do corredor. Eu não precisei levantar os olhos dos relatórios financeiros para saber quem era. O cheiro de perfume doce e barato, misturado ao suor ácido do medo e da indignação, a denunciava antes mesmo que ela desse o primeiro passo para dentro da sala.
— Eu não aguento mais! — A voz de Emanuelle era estridente, arranhando meus ouvidos como giz num quadro negro. — Eu me demito! Agora mesmo!
Girei a cadeira devagar, com uma calma que geralmente apavorava as pessoas, encarando a mulher parada no meio da sala. Ela estava completamente descabelada, com o uniforme torto e uma mancha de tinta guache azul bem no meio da saia. Emanuelle tinha cabelos castanhos e longos, um corpo magro e a pele morena que reluzia sob a luz fria do escritório. Na época da contratação, o fato de ela usar fio-dental por baixo do uniforme no Ambrosia Club destacava uma bunda empinada que chamou minha atenção mais do que deveria.
“Talvez eu devesse ter me preocupado com coisas mais importantes”, pensei, enquanto observava o tremor nas mãos dela. “Como, por exemplo, descobrir se ela realmente levava jeito com crianças e não apenas com o que acontecia entre quatro paredes.”
— O que foi desta vez, Emanuelle? — perguntei com a voz baixa e pausada. Fui o mais contido que pude, embora o ódio por ser interrompido estivesse latejando na minha têmpora.
— Aquelas meninas... elas não são crianças. São monstrinhos! — Ela gritou, tremendo de raiva, e jogou um tufo de cabelo castanho em cima da minha mesa, bem sobre os gráficos de lucro trimestral. — Elas cortaram meu cabelo enquanto eu cochilava! Olha isso! Olhe o que elas fizeram comigo!
Olhei para o tufo de cabelo em cima dos meus papéis. Meus olhos se estreitaram em fendas perigosas. Eu não me importava com o cabelo dela, nem com a dignidade dela, muito menos com a demissão. Mas me importei com o tom que ela usou para se referir ao meu sangue.
— Repita — ordenei, levantando-me lentamente. O movimento foi fluido, predatório, como um animal que acaba de avistar uma brecha na defesa da presa.
Emanuelle recuou um passo, a bravata vacilando e o peito subindo e descendo com rapidez.
— O... o quê?
— Como você chamou as minhas filhas? — Minha voz agora era um sussurro perigoso.
Caminhei até ela, ignorando qualquer noção de espaço pessoal, encurralando-a contra a estante de livros pesados. Emanuelle trabalhava no meu clube nos fins de semana como garçonete extra, e sempre me entretinha perfeitamente. Eu sabia disso e ela também. Ela era uma das poucas que conheciam minha verdadeira posição como dono do lugar, mas eu também conhecia o tipo dela: uma submissa disfarçada de rebelde, alguém que fingia desafiar o fogo só para sentir o prazer masoquista de se queimar.
— Elas são monstrinhos — ela sussurrou, tentando sustentar o olhar, em um último esforço inútil de orgulho.
Num movimento rápido, minha mão disparou e se fechou na nuca dela, entrelaçando os dedos no cabelo que ela tanto insistia em reclamar. Puxei a cabeça dela para trás com uma violência controlada, forçando-a a olhar para o teto e expondo toda a curvatura da sua garganta vulnerável. Ela se engasgou. As mãos dela agarraram meu pulso, mas sem qualquer força real para me deter; era um gesto de desespero misturado com entrega.
— Nunca — rosnei bem perto do ouvido dela, sentindo o pulso dela acelerar loucamente sob meus dedos — ouse insultar as minhas filhas novamente. Você não é nada nesta casa, Emanuelle. Você é descartável.
— Sr. Cavallieri... — Ela gemeu, e o cheiro da excitação dela, despertado pela agressividade, se misturou ao pavor.
Patético. Ela queria aquilo. No fundo, implorava por controle, por alguém que colocasse um freio na sua mediocridade.
— Você gosta de brincar com o perigo, não é? É por isso que está falando desse jeito? — Apertei mais a nuca dela, observando as pupilas dela dilatarem até quase esconderem o castanho dos olhos. Desci minha mão livre pelo corpo dela, explorando as curvas com um desdém nítido, e só parei quando ouvi o gemido baixo escapar. — Você quer que eu te castigue aqui mesmo? Porque, se eu começar a te ensinar o que é respeito, só vou parar quando você ficar incapaz de andar por uma semana. É isso que você quer?
Ela estremeceu da cabeça aos pés. O corpo dela amoleceu contra o meu, esperando, desejando a punição que ela via no meu olhar. Isso me deu um nojo profundo. Mulheres eram fracas, previsíveis. O prazer delas era barato, vendiam-se por migalhas de atenção ríspida de um homem poderoso.
Soltei-a com um empurrão brusco, jogando-a contra a porta de madeira maciça. Peguei o lenço de seda no meu bolso e limpei a mão com cuidado, como se tivesse tocado em algo contaminado.
— Saia. — Voltei para minha mesa sem olhar para trás e apertei a campainha de prata. — Fale com a Adelaide. Ela vai acertar sua rescisão e o adicional de silêncio. Se eu ouvir uma palavra sobre o que acontece dentro desta mansão lá fora, você vai descobrir que o desemprego é o menor dos seus problemas.
Ela se levantou, ajeitando a roupa com o rosto vermelho, uma mistura de vergonha e desejo frustrado.
— Eu... eu vou te ver no clube hoje, Sr. Cavallieri? — arriscou, a voz trêmula de uma esperança patética.
— Suma da minha frente, Emanuelle. — Nem levantei os olhos do papel. — Quando eu estiver entediado e sem nada melhor para fazer, quem sabe. Agora, fora.
Ela saiu quase correndo, tropeçando nos próprios pés. No mesmo instante em que a porta se fechou atrás dela, Adelaide entrou, impecável como sempre.
Suspirei, massageando as têmporas. Outra babá perdida. A sexta em apenas dois meses. O caos doméstico estava começando a afetar minha produtividade.
— Adelaide.
— Pois não, Senhor Cavallieri?
— A babá se demitiu. Pague o que ela quiser, dê cinquenta por cento a mais se for preciso para garantir que ela mantenha a boca fechada sobre as meninas. E me consiga outra. Urgente. Não me importa o custo, Adelaide. Só quero alguém que não seja uma imbecil completa, que tenha um pingo de inteligência e que dure mais de uma semana sem chorar.
— Sim, senhor. Vou providenciar imediatamente.
Ela se retirou em silêncio, e eu caminhei até a janela panorâmica. O jardim estava impecável, banhado pelo sol, mas terrivelmente vazio. Eu precisava ter aquela conversa de novo.
Encontrei Ângela e Geovana na sala de jantar. As duas estavam sentadas à mesa enorme, balançando as pernas curtas, com sorrisos inocentes demais para quem tinha acabado de cometer um ato de terrorismo capilar. Parei na cabeceira da mesa, a autoridade emanando de cada fibra do meu ser.
— Emanuelle foi embora.
— Ela era chata — Geovana disse, com a boca suja de purê, sem demonstrar um pingo de remorso.
— E o cabelo dela era feio — Ângela completou, com uma frieza que me orgulhava e me assustava ao mesmo tempo. — A gente só ajudou ela a mudar o visual.
Olhei para as duas. Rostos angelicais escondendo mentes calculistas e cruéis. Elas não queriam babás. Elas queriam afastar qualquer mulher que tentasse ocupar espaço naquela casa, protegendo o território como pequenas leoas.
— Vocês sabem as regras — falei, friamente, deixando o tom de comando pairar no ar. — Não me importo com o que fazem com os brinquedos, mas os funcionários são caros para substituir e meu tempo é precioso demais para ser gasto em entrevistas.
— A gente não precisa de babá, papai. A gente tem você e a tia Ade — Ângela largou o garfo, os olhos marejando com aquela raiva infantil que beirava o dramático, mas que eu sabia ser real.
— O papai precisa trabalhar. Preciso expandir os negócios, pagar as contas, garantir que vocês tenham o melhor deste mundo. Tudo o que eu faço é para que vocês tenham o que quiserem, na hora que quiserem.
— Mas pai... elas sempre tentam... tentam roubar o lugar da mamãe.
Senti meu estômago revirar violentamente. O gosto ácido da bile subiu pela garganta. Mamãe. A palavra era uma maldição proibida dentro daquelas paredes.
Lembrei-me de Sara. Lembrei de como ela ria com escárnio quando as meninas choravam no berço. “Eu não nasci para trocar fraldas, Adrian. Eu sou uma Dominadora. Nasci para ser adorada, para causar dor e prazer, não para limpar vômito e ouvir choro. Você é muito tosco por achar que eu mudaria... muito tosco.”
E então ela simplesmente desapareceu com o primeiro sujeito que prometeu uma vida de festas e zero responsabilidade. Abandonou as próprias filhas quando elas tinham apenas três anos, como se fossem bonecas velhas e quebradas. Mas o que eu poderia esperar? Eu sabia exatamente quem ela era quando me casei. Tive a arrogância de achar que o meu poder poderia mudá-la. Eu estava errado. Ela só se importava com o próprio umbigo e com quantos orgasmos teria na noite.
Olhei para minhas filhas, o único legado que restou daquele desastre. Ajoelhei-me diante delas, ficando na altura dos olhos, mas sem as abraçar. Abraços deixavam as pessoas moles, dependentes. Eu precisava que elas fossem fortes como o aço das minhas empresas.
— Escutem bem. — Segurei o queixo de Ângela com uma delicadeza firme, obrigando-a a sustentar meu olhar. — Ninguém vai substituir a mãe de vocês. Sabe por quê? Porque ninguém é bom o suficiente para entrar nesta família. As pessoas vão embora, Ângela. As mulheres mentem por natureza. O amor... o amor é uma fraqueza que as pessoas usam para te manipular e te destruir por dentro. A única coisa real e fiel neste mundo é o dinheiro, e o papai tem o bastante para comprar qualquer coisa e qualquer pessoa.
— Mas você ama a gente? — Geovana perguntou baixinho, enroscando o braço pequeno no meu terno caro.
— Eu amo vocês mais que tudo no mundo, e minha vida é proteger vocês — corrigi, engolindo o nó amargo na garganta. — E vou construir um império tão grande que ninguém jamais poderá tocar em vocês.
Beijei a testa de cada uma, um gesto rápido de afeto controlado.
— Mas eu e a Adelaide precisamos de ajuda para manter as coisas funcionando. Está bem? Então facilitem a vida da próxima, e eu levo vocês à Disney no ano que vem. Pode ser?
— Jura de mindinho?
Enrolei meu dedo mindinho nos delas, selando o acordo de negócios. Levantei-me, ajustando o paletó, voltando a ser o General que o mundo conhecia.
— Dinheiro, meninas. O dinheiro é a única coisa que nunca acorda de manhã e decide te abandonar. O dinheiro é leal. O poder é fiel. É nisso que vocês devem confiar. Entenderam?
Elas assentiram, absorvendo a lição como se fosse a única verdade universal. Era tóxico? Provavelmente. Mas eu preferia prepará-las para a guerra da vida do que vê-las quebradas e abandonadas como eu estive um dia.
— A Adelaide vai trazer uma nova babá amanhã — avisei, já caminhando para a porta. — Tentem não a matar na primeira hora. Pelo menos esperem o café da tarde.
Subi para meu quarto, o silêncio da mansão pesando sobre meus ombros. Troquei de roupa, joguei o terno de lado e me preparei para as próximas horas de contabilidade. O império não parava, e a solidão era apenas o preço que eu pagava por ele.







