Mundo ficciónIniciar sesiónPOV: CLARA MENEZES
POV: CLARA MENEZES
Antes que elas pudessem responder sobre impérios e pontes, a porta se abriu num estalo seco. Adelaide entrou com uma bandeja de prata, movendo-se com a precisão de um soldado de elite. Levantei-me num pulo, ajeitando a blusa que já estava começando a me sufocar novamente, sentindo o suor frio descer pelas minhas costas. Eu já esperava a minha demissão sumária ali mesmo.
Adelaide olhou as meninas na piscina de bolinhas, depois olhou para mim — descabelada, com o rosto vermelho e parecendo que tinha acabado de sobreviver a um furacão de plástico.
— Ninguém está chorando? — Ela arqueou uma sobrancelha, visivelmente chocada por não encontrar nenhuma babá em posição fetal num canto. — Humm. Hora do lanche.
Ela colocou a bandeja na escrivaninha. Ângela saiu da piscina de bolinha com uma moleza calculada, como se fosse a dona do mundo. Olhou para mim, para Adelaide e depois para mim de novo. Eu fechei os olhos por um segundo, me preparando para o pior.
— Ela não é tão estranha, Adelaide — disse Ângela, com um tom de voz que parecia o veredito de um juiz do Supremo Tribunal.
— E sabe separar as bolinhas azuis — Geovana completou, limpando a mão no vestido caro. — Ela pode ficar. Até a gente cansar dela.
Juro por tudo o que é mais sagrado que vi um micro sorriso escapar do canto da boca de Adelaide. Se ela tivesse um coração, ele teria batido agora.
— Muito bem, Srta. Menezes. Por enquanto, tudo certo.
— A gente pode ir para a piscina lá embaixo? — Ângela perguntou, já começando a pular de alegria.
— Você sabe nadar, Srta. Menezes? — Adelaide me encarou. Eu senti que ela acreditava que, além de pobre, eu era analfabeta em flutuação básica.
— Sim, eu sei. Eu sou do Pará, Adelaide. Lá a gente aprende a nadar antes de aprender a andar.
— Ótimo. Troque-as e as leve para a piscina. Não precisa entrar. Vá que essa roupa sua encolha ainda mais e você acabe explodindo dentro da minha casa.
— Claro — respondi, engolindo o seco.
— Se der tudo certo até o fim do dia, o serviço é seu. Começa amanhã. O Sr. Cavallieri exige pontualidade britânica. Onze da manhã em ponto. Nem um segundo a mais.
As meninas saltaram animadas assim que a porta abriu, correndo pelo corredor como se o mármore importado fosse um playground particular. Eu fui atrás, rezando para não torcer o tornozelo — meus saltos emprestados da Isa já tinham declarado guerra contra mim no minuto em que botei o pé dentro da mansão.
A cada passo, a sensação aumentava: aquela casa não era normal. Era rica demais. Silenciosa demais. Grande demais. Parecia aquelas mansões de filme de gente perigosa, tipo a mansão da Casa Hills. E tinha segurança por todos os lados. Dois deles estavam do lado de fora, perto das portas de vidro que davam para a área da piscina. Uniformes impecáveis. Postura rígida. Ar de “já matei alguém, mas também sei fazer um latte perfeito”.
Eu olhei para eles com aquele sorriso tímido de quem tenta parecer profissional, mas um deles devolveu com um olhar que me fez sentir um calor estranho. Por que todo mundo nessa casa é bonito? É algum tipo de requisito básico? Assinou contrato com o Adrian Cavallieri, ganha plano de saúde, bônus anual e uma beleza divina grátis?
Desci os degraus para a orla da piscina, ajeitando a blusa apertada demais. Os botões lutavam bravamente pela vida a cada respiração minha. Tentei ignorar o fato de que sou, oficialmente, a única pessoa feia, pobre e desajeitada num raio de três quilômetros.
As meninas nem notaram meu colapso social. Já estavam na água, jogando uma bola rosa que quicava na superfície e voltava para as mãos delas como se até a física obedecesse aos Cavallieri. Eu me sentei numa espreguiçadeira branca, tirando o blazer apertado que estava praticamente cozinhando meus ombros. Fico ali observando, finalmente respirando, enquanto penso sobre aquela casa que parecia um bunker de luxo.
A empresa dele… parecia ser de tecnologia. Foi o que eu ouvi. Ou talvez finanças. Ou talvez tráfico de órgãos, porque sinceramente, ninguém normal mora desse jeito. Mas tudo bem. Eu precisava do emprego, do dinheiro e da dignidade. Eu ainda tinha duas dessas coisas.
Enquanto observo as meninas brincarem, deixo minha mente entrar no automático. Eu nunca tinha sido babá, mas estava indo para o segundo semestre de Psicologia. Tinha visto aulas sobre comportamento o suficiente para saber que crianças carentes e inteligentes eram bombas-relógio emocionais com pernas finas.
E eu? Bom, eu não tinha experiência com nada relacionado a crianças. Inclusive sobre como fazer crianças. Eu era virgem. Sim, aparentemente Deus decidiu que eu não teria experiência em absolutamente nada na vida: nem com homens, nem com crianças, nem com sapatos que não me fizessem querer amputar os dedos.
— CLARAAAA! — Geovana gritou lá de dentro da água. — A bola!
A bolinha rosa rolou pelo deck e parou bem perto de mim. Eu me levantei, ajeitei a saia curta e caminhei até ela. Tentei pegar com elegância, como se estivesse acostumada a andar em saltos de bico fino. Ilusão. Perto da borda, pronta para devolver a bola, o mundo girou em câmera lenta. Senti o salto ceder, meu tornozelo virou e a gravidade, cruel e implacável, me puxou para baixo.
A água gelada me engoliu de uma vez.
O choque térmico foi um soco no estômago. Afundei como uma pedra. Lutei contra o tecido pesado da roupa, debatendo pernas e braços em pânico, até finalmente romper a superfície. Emergi arfando, cuspindo cloro e puxando o ar desesperada.
— Ahahaha! Olha a Clara! Ela parece um peixe! — As risadas das meninas ecoavam, abafadas pela água nos meus ouvidos.
Passei as mãos no rosto, afastando o cabelo encharcado que grudava na minha testa como algas marinhas. Eu tremia mais de humilhação do que de frio. Queria sentar no fundo daquela piscina e nunca mais sair. Mas decidi manter o mínimo de dignidade e sair dali antes que eu passasse mais vergonha.
Apoiei as mãos na borda de mármore branco e impulsionei o corpo para cima com força. Foi o meu erro fatal. Com o peso da água, o tecido barato da camisa branca da Isa cedeu à pressão extrema. Ouvi o estalo sutil, mas para mim soou como um tiro de canhão. O botão central, aquele que lutava bravamente na altura do meu peito, estourou e voou para o meio do jardim.
Congelei. Olhei para baixo e o ar fugiu dos meus pulmões. A camisa branca, agora encharcada, não era mais uma roupa. Era uma vitrine. O tecido tinha se tornado uma segunda pele translúcida, colada obscenamente em cada curva do meu corpo. E por baixo daquela transparência profana, brilhava, em alta definição, o meu sutiã.
Não era um sutiã bege de "babá responsável". Era um sutiã vermelho sangue. Renda barata, gritando atenção contra a minha pele pálida e molhada.
— Ai, meu Deus... — Soltei um gemido estrangulado, cruzando os braços sobre o peito num abraço desesperado.
Foi então que o riso das meninas parou. O silêncio caiu sobre a mansão como um manto de chumbo. Ergui o rosto devagar. Primeiro, vi os sapatos de couro italiano, tão polidos que eu podia ver minha vergonha neles. Subi o olhar pelas calças de alfaiataria preta, perfeitamente vincadas.
Adrian Cavallieri estava parado, a menos de um metro de mim.
Impecável. Seco. Intocável. Senti algo elétrico no ar. Ele não se moveu para ajudar. Não estendeu a mão. Não desviou o olhar por cavalheirismo ou educação. Ele apenas olhou. Com uma intensidade que fez a água da piscina parecer fervente. Aqueles olhos azuis insondáveis estavam cravados em mim, analisando minha roupa estourada, o sutiã vermelho e meu cabelo de alga.
— Sr... Sr. Cavallieri... — Minha voz falhou, saindo num sussurro patético.
Ele não disse nada. Nenhuma palavra de conforto ou bronca. Apenas aquele silêncio de predador que observa a presa se debatendo. O maxilar dele travou com tanta força que um músculo saltou em sua bochecha. Eu senti medo de ser demitida. E senti um medo novo, de ser devorada viva.
Eu estava ali, nua de vergonha. Ele, impassível como um juiz medieval pronto para dar o veredito. Eu tinha conseguido entrar no império. Agora, precisava descobrir se sobreviveria ao Imperador.







