Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu vivia uma vida tripla, um equilíbrio precário entre três mundos que jamais deveriam se cruzar, sob o risco de uma explosão que não deixaria pedra sobre pedra.
Para o mundo exterior, para as câmeras e para o mercado financeiro, sou o CEO da TechGlobal. Comando uma das maiores potências de tecnologia do planeta. Meus softwares não são apenas códigos; eles são a espinha dorsal que roda em metade dos bancos da Europa e do mundo. Meu rosto, com aquela máscara de frieza calculada, estampa capas de revistas de negócios como o exemplo de sucesso moderno. Gero um lucro líquido pessoal de cinco milhões de dólares por mês. É um dinheiro limpo, respeitável e, para ser sincero, terrivelmente entediante.
Para Ângela e Geovana, sou o pai falho. O general de terno que tenta comandar um exército de duas soldadas rebeldes de nove anos e falha miseravelmente em dar a elas o carinho que, no fundo, eu sei que precisam. Sou o provedor ausente, o homem que compra brinquedos caros para tentar preencher os buracos que o silêncio daquela mansão deixa na alma delas.
Mas é quando a noite cai, e a cidade de São Paulo se torna um emaranhado de luzes distantes, que a minha verdadeira face finalmente respira.
Eu era o dono do Ambrosia Club.
Na mitologia grega, a ambrosia era o alimento dos deuses, muitas vezes descrito como algo com gosto de mel e capaz de conceder a imortalidade a quem a provasse. O nome do meu clube não era uma coincidência pretensiosa. O Ambrosia era um santuário subterrâneo, um segredo guardado a sete chaves, protegido por camadas de criptografia e silêncio absoluto. Era frequentado apenas pela elite da elite: juízes, senadores, magnatas e políticos que pagavam fortunas absurdas apenas para garantir que o mundo jamais soubesse onde eles estiveram e o que fizeram.
Mantínhamos a fachada gastronômica até o fim, com uma perfeição irritante. Nosso lema era direto: "Onde os Deuses vêm se alimentar." Oficialmente, éramos uma Importadora de Vinhos Raros & Gastronomia Exótica. Mas no subterrâneo, no verdadeiro coração do Ambrosia, não vendemos apenas sexo. Vendemos experiências gastronômicas sensoriais, psicológicas e físicas para paladares muito específicos e perigosos. Cada cliente que atravessa nossa porta de aço se encaixa em um tipo de paladar, e tudo no clube segue essa mesma lógica impecável.
Começa no salão principal, onde oferecemos o Couvert Artístico.
É a nossa degustação estética por excelência. No palco central, acontecem performances de dança, pole dance técnico e shibari suspenso, onde corpos são amarrados com a precisão de uma obra de arte. Aqui, a regra é clara: ninguém toca em ninguém. Os clientes observam do escuro, admiram a “fruta”, avaliam a textura da pele sob as luzes, a cor do desejo, a provocação no olhar… mas a colheita não acontece ali. É apenas a apresentação do prato, o aroma inebriante que vem antes do primeiro gosto. É onde poderosos vão para relaxar as tensões do dia e tratar de negócios duvidosos enquanto o desejo começa a borbulhar no sangue. O clube é o único lugar onde essas pessoas podem, finalmente, deixar as máscaras sociais caírem e mostrar suas verdadeiras faces.
Alguns clientes — os que chamamos de Veganos — pagam fortunas justamente para ficar nesse território seguro e torturante do olhar. Eles não consomem a carne. Buscam o voyeurismo puro, o toque superficial, os detalhes sensoriais sem a necessidade de penetração. Ver uma mulher se tocar com luxúria diante deles vale mais que ouro. Para esses homens, o prazer supremo reside no proibido, no "quase", na tensão que nunca se resolve.
Já os Carnívoros vêm famintos. Eles não têm paciência para o quase. Procuram carne, suor, contato físico real. Querem saciedade imediata e bruta. São os que mais costumam escolher uma das mulheres que se apresentam no Couvert e levá-la, minutos depois, para o andar de cima. Para eles, oferecemos o Prato Principal: suítes privadas de luxo, equipadas com tudo o que é necessário para servir o prazer no ponto exato que o cliente deseja. Aqui, o cliente escolhe o nível de cozimento da sua experiência:
O "Ao Ponto" é a escolha clássica, a mais pedida pelos homens casados, bem-sucedidos e profundamente solitários. É a ilusão da intimidade, a famosa Girlfriend Experience. Para esse cliente, a "fruta" escolhida não oferece apenas o corpo; ela oferece o teatro do afeto. Há beijos demorados na boca, carícias suaves nos cabelos, o toque pele na pele sem pressa e o sussurro constante no ouvido. É o sexo servido morno, confortável e tradicional. É o substituto caro para a esposa que já não o deseja mais ou que ele já não suporta tocar. Eles pagam para sentir, por uma hora, que são amados de verdade.
Já o "Mal-passado" é para quem tem fome de uma violência controlada e consensual. É o prato bruto. Aqui, a etiqueta e a civilidade ficam do lado de fora da porta. É para o cliente que busca o lado primitivo: puxões de cabelo, marcas de dedos que ficam gravadas na pele, palmadas que estalam no silêncio da suíte e a fricção intensa de carne contra carne. É o sexo sujo, cru e instintivo. É onde o advogado respeitável vem para arrancar a gravata e agir como o predador que a sociedade o impede de ser. A mulher que serve esse prato precisa ser resistente, uma "carne" que aguenta o tranco e devolve a intensidade na mesma moeda.
E, por fim, temos o "Com Pimenta". É quente, rápido e cirúrgico. É para o homem que não tem tempo para o teatro do romance e nem energia para a luta corporal do mal-passado. Ele quer a explosão imediata, o alívio da tensão acumulada. É o sexo sem preliminares longas, focado na fricção pura, na posição específica, na lingerie rasgada com pressa ou na foda rápida e intensa contra a parede fria. É uma injeção de adrenalina: arde na língua, satisfaz a urgência e acaba rápido, deixando apenas o gosto picante na boca e o corpo leve o suficiente para voltar aos negócios bilionários no dia seguinte.
Nós servimos todos os gostos. Desde que o cartão de crédito passe sem recusa e os termos de confidencialidade sejam assinados com sangue.
Mas existe um terceiro paladar. O mais raro. O mais caro e perigoso de todos.
Os Sommeliers. São os apreciadores do BDSM refinado e de alto nível. Eles não estão aqui para devorar ou apenas se saciar; eles estão aqui para degustar cada nuance da dor e do controle. Para eles, criamos o Subsolo. Lá, servíamos o cardápio completo da depravação humana, mas sempre com a etiqueta de um jantar de gala. Jogos sensoriais, psicológicos, privação de sentidos e controle absoluto de cada respiração da submissa. O orgasmo, naquele ambiente, era apenas um detalhe menor.
Alguns escolhem a versão Com Calda, que inclui a finalização sexual clássica ao final da sessão. Outros, como eu, preferem a versão Seca. É puramente sensorial, psicológica. No Subsolo Seco, o orgasmo físico é irrelevante. O que importa é o poder. É sentir a vontade do outro se dobrar à sua, é o controle total sobre a mente e o corpo alheio. É onde eu me sinto mais vivo.
No Ambrosia, tudo é um cardápio metafórico. Tudo segue um ritual quase religioso. E para que esse mecanismo funcione sem falhas, existem três regras inquebráveis, cujo descumprimento resulta em expulsão imediata ou algo muito pior:
O anonimato é sagrado: Máscaras de alta tecnologia são obrigatórias, sempre equipadas com um modulador de voz que distorce qualquer timbre reconhecível.
Codinomes obrigatórios: Ninguém entra no Ambrosia sendo quem realmente é no mundo lá fora. Suas identidades ficam trancadas no cofre da entrada.
O que acontece aqui, morre aqui: O silêncio é a nossa moeda de troca mais valiosa. E é só por causa desse silêncio absoluto que o meu império continua respirando.
E é justamente assim que eu mantenho o equilíbrio do meu castelo de cartas. De dia, eu dirijo a TechGlobal: limpo, frio, inalcançável e lógico. À noite, eu desço às sombras do Ambrosia, onde homens poderosos rastejam atrás de suas próprias fomes e eu sou o mestre de cerimônias. Eu decido quem come, o que come, e até onde cada um pode se servir no banquete dos deuses.







