Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV - Adrian
Eu vivia uma vida tripla.
Para o mundo, sou o CEO da TechGlobal. Uma das maiores empresas de tecnologia do planeta. Meus softwares rodam em metade dos bancos da Europa. Meu rosto estampa capas de revistas de negócios. Gero um lucro líquido pessoal de cinco milhões de dólares por mês. Limpo. Respeitável. Entediante.
Para Ângela e Geovana, sou o pai falho. O general que tenta comandar um exército de duas soldadas rebeldes e falha miseravelmente em dar a elas o carinho que precisam.
Mas é quando a noite cai que a minha verdadeira face respira.
Eu era o dono do Ambrosia Club.
Na mitologia grega, ambrosia era o alimento dos deuses, muitas vezes descrito com gosto de mel e capaz de conceder imortalidade. O nome não era coincidência. Meu clube era um santuário subterrâneo, um segredo guardado a sete chaves, frequentado pelas pessoas mais importantes do país: juízes, senadores, políticos que pagavam fortunas para garantir que ninguém jamais soubesse onde estiveram.
Mantínhamos a fachada gastronômica até o fim. Lema: "Onde os Deuses vêm se alimentar." Fachada oficial: Importadora de Vinhos Raros & Gastronomia Exótica.
Mas no subterrâneo, no verdadeiro Ambrosia, não vendemos só sexo. Vendemos experiências gastronômicas sensoriais, psicológicas, físicas para paladares muito específicos. Cada cliente que atravessa nossa porta se encaixa em um tipo de paladar, e tudo no clube segue essa mesma lógica.
Começa no salão principal, onde oferecemos o Couvert Artístico.
É a nossa degustação estética: dança, pole dance, shibari suspenso. Ninguém toca em ninguém. Os clientes observam, admiram a “fruta”, avaliam textura, cor, provocação… mas a colheita não acontece ali. É apenas a apresentação do prato, o cheiro antes do gosto. É onde poderosos vão relaxar e tratar de negócios, muitos deles duvidosos. O clube é um lugar onde as pessoas podiam mostrar suas verdadeiras faces e gostos secretos.
Alguns clientes — os Veganos — pagam fortunas justamente para ficar nesse território do olhar. Eles não consomem carne. Buscam voyeurismo, toque superficial, detalhes sensoriais sem penetração. Uma mulher se tocar diante deles vale mais que ouro. Para esses, o prazer está no proibido, no quase.
Já os Carnívoros vêm famintos. Procuram carne, suor, corpo. Querem saciedade imediata. São os que mais costumam escolher uma das mulheres que se apresentam no Couvert e levá-la, minutos depois, para o andar de cima. Para eles, oferecemos o Prato Principal: suítes privadas equipadas para servir o prazer no ponto exato. Aqui, o cliente escolhe o nível de cozimento da sua experiência:
O "Ao Ponto" é a escolha clássica, a mais pedida pelos homens casados e solitários. É a ilusão da intimidade, a famosa Girlfriend Experience. Para esse cliente, a "fruta" não oferece apenas o corpo; ela oferece o teatro do afeto. Há beijos na boca, carícias suaves, o toque pele na pele sem pressa e o sussurro no ouvido. É o sexo servido morno, confortável e tradicional. É o substituto da esposa que já não o deseja mais em casa. Eles pagam caro para sentir, por uma hora, que são amados.
Já o "Mal-passado" é para quem tem fome de violência controlada. É o prato bruto. Aqui, a etiqueta fica na porta. É para o cliente que busca o lado primitivo: puxões de cabelo, marcas de dedos na pele, palmadas estaladas e a fricção intensa de carne contra carne. É o sexo sujo, cru e instintivo. É onde o advogado respeitável vem para arrancar a gravata e agir como o predador que a sociedade o impede de ser. A mulher que serve esse prato precisa ser resistente, uma "carne" que aguenta o tranco e devolve a intensidade na mesma moeda.
E, por fim, temos o "Com Pimenta". É quente, rápido e específico. É para o homem que não tem tempo para o teatro do romance (Ao Ponto) e nem energia para a luta corporal (Mal-passado). Ele quer a explosão imediata. É o sexo sem preliminares longas, focado na fricção, na posição específica, na lingerie rasgada ou na foda rápida contra a parede. É uma injeção de adrenalina pura: arde na língua, satisfaz a urgência e acaba rápido, deixando apenas o gosto picante na boca e o corpo leve para voltar aos negócios.
Nós servimos todos os gostos. Desde que o cartão de crédito passe sem recusa.
Mas existe um terceiro paladar. O mais raro. O mais caro.
Os Sommeliers, apreciadores do BDSM refinado. Eles não estão aqui para devorar; estão para degustar. Para eles, criamos o Subsolo. Lá, servíamos o cardápio completo da depravação humana, sempre com etiqueta. Jogos sensoriais, psicológicos, controle absoluto. O orgasmo era apenas um detalhe.
Alguns escolhem a versão Com Calda, com finalização sexual; outros, como eu, preferem a Seca, puramente sensorial, psicológica. Ali, o orgasmo é irrelevante. Ali o que importa é o poder.
No Ambrosia, tudo é um cardápio metafórico. Tudo segue o ritual. E para funcionar, existem três regras inquebráveis:
O anonimato é sagrado — máscaras sempre com modulador de voz.
Codinomes obrigatórios — ninguém entra sendo quem realmente é.
O que acontece aqui, morre aqui — e só por isso meu império respira.
E é justamente assim que eu mantenho o equilíbrio do meu castelo de cartas. De dia, eu dirijo a TechGlobal, limpo, frio, inalcançável. À noite, eu desço às sombras, onde homens poderosos rastejam atrás de suas próprias fomes e eu decido quem come, o que come, e até onde pode se servir.







