CAP. 2- Amizade à Prova de Caos

POV: CLARA MENEZES

Parei na esquina e me escorei debaixo do toldo de uma loja. Tirei o celular da mala e disquei o único número que importava ali.

— E aí, caloura? Já posso estourar o champanhe? — A voz de Isadora era animada, com aquele fundo de música eletrônica abafada. Provavelmente estavam testando o som do lugar onde ela trabalhava.

— Guarda o champanhe, Isa — suspirei, encostando a cabeça na parede fria. — Deu tudo errado.

— Como assim, errado?

— Faltou um documento. A bolsa integral já era. Consegui chorar uma de 50%, mas... Isa, você tem noção? Uma mensalidade de Psicologia custa quase três mil reais. Metade disso ainda é uma fortuna para quem nem tem o dinheiro da passagem de volta. Eu preciso de um emprego urgente.

Ouvi o barulho de um isqueiro do outro lado da linha. Isadora fumava quando ficava preocupada.

— Clara, escuta... Eu te falei. Tem vaga aqui no clube.

Meu estômago embrulhou instantaneamente.

— Isa, eu já disse. Eu não vou virar garota de programa.

— Ai, que saco, para de ser roceira! — Ela riu, sem maldade. — Eu já te expliquei mil vezes. O clube não é prostíbulo de beira de estrada. É uma casa de performance. Ninguém te toca se você não quiser. Eu mesma levei dois anos para ter coragem de pegar meu primeiro cliente VIP. Antes disso, eu só dançava, fazia umas chamadas e trabalhei na limpeza.

— Limpeza?

— É. Camareira, faxina, servir bebida. Dá para tirar um dinheiro bom com as gorjetas. O ambiente é seguro, Clara. Melhor do que muita lanchonete por aí, onde o patrão fica passando a mão na gente.

Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ela não podia ver.

— Não sei, Isa. Eu quero ser psicóloga, quero fazer meu intercâmbio para o Canadá... Não sei se esse mundo é para mim.

— Tá, tá, senhorita certinha. E qual é o plano então? Vai voltar para o Pará, para o seu pai? Ele já deve ter percebido seu sumiço e deve estar descontrolado te procurando. Lá, ele seria capaz de te vender por uma garrafa de 51.

— Eu sei. Ele estava até cogitando um casamento com um dono de boteco que deve ter uns 50 anos, mais que o dobro da minha idade. Nem morta eu volto para lá — respondi, ajeitando a alça da mala que cortava meu ombro.

— A gente vai dar um jeito. Você limpa o clube, eu faço mais programas, websexo... Nós vamos nos virar.

Meus olhos arderam de novo. Dessa vez, as lágrimas escorreram pesadas.

— Obrigada, amiga! — disse, sentindo o gosto salgado. — A secretária da faculdade me deu uma dica. Disse que tem uma vaga de babá pagando super bem. É num bairro chique aqui.

— Babá? — Isa soltou uma gargalhada alta. — Você? Que não tem paciência nem para cuidar de um cacto? Na casa de quem?

— Um tal de Cavallieri.

A risada da Isadora cortou na hora. O silêncio do outro lado foi absoluto por dois segundos.

— Cavallieri? Adrian Cavallieri, o dono da TechGlobal?

— Eu não sei... Você o conhece?

— Clara! Todo mundo conhece. Ele é tipo o imperador de Porto Alegre. Rico, gostoso num nível obsceno e, segundo as más línguas, um carrasco. — Ela baixou o tom. — Dizem que ele troca de funcionário igual troca de camisa. Boa sorte, amiga. Você vai precisar. Mas, sendo sincera? Eu daria minha vida para trabalhar naquela mansão.

Senti um arrepio. Ótimo. Além de falida, eu ia trabalhar para o diabo.

— Será que ele é tão ruim assim? A mulher disse que eles estão desesperados.

— Desesperados ou não, ele vai exigir postura. Mas deve pagar super bem. Vai dar para cobrir sua faculdade e, se não der, eu te arrumo uns bicos de limpeza no clube.

— O que pode dar errado, né? Se cobrir minhas despesas, eu aguento.

— E... amiga, sem querer ofender, mas você está com voz de quem foi atropelada.

— Eu estou completamente exaurida. Isa, eu estou fedendo. Sabe aquele cheiro de poltrona de ônibus misturado com salgadinho barato? Sou eu. Meu cabelo está puro sebo.

— Tá, aborta a missão de ir lá hoje — Isa foi prática. — Se você aparecer na mansão desse jeito, o segurança te chuta antes de você tocar a campainha. Você precisa de um banho de gente rica e de comida.

— Eu não tenho dinheiro nem para o Uber até sua casa.

— Estou te mandando um Pix de cinquenta reais agora. Pega um carro e vem para cá. A chave está embaixo do tapete, naquele esquema de sempre. Eu só chego de madrugada.

— Obrigada, Isa. De verdade! Eu só preciso de um banho e...

— E o quê?

— E de um X-Bacon. Daqueles bem gordurosos. E dormir por doze horas para esquecer que eu cruzei o país para levar um "não" na cara.

— Esse é o espírito. Compra dois. Amanhã a gente pensa no carrasco do Cavallieri. E Clara?

— Oi?

— Bem-vinda a Porto Alegre. Aqui a gente apanha, mas b**e de volta.

Desliguei o telefone, olhando para a notificação do Pix que acabou de cair. Respirei fundo. Eu não tinha o corpo das modelos de revista nem a conta bancária das meninas que estudariam comigo, mas eu tinha fome. De comida e de vencer.

Chamei o carro pelo aplicativo. O X-Bacon foi a minha pequena comemoração de "boas-vindas" ao caos.

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