Capítulo 4

Duda

Já era de se esperar a reação da Clara.

Ela sempre reage assim. Sempre no modo protetora maternal nível cem. Às vezes parece que, desde a morte dos pais dela, ela se obrigou a assumir um papel que nunca pediu, mãe, guia, bússola, tudo ao mesmo tempo. Não a culpo. Ela viu tudo. Ela e o Marcos estavam lá. Viram a vida desmoronar em segundos.

Eu não gosto de falar sobre isso. Não porque quero evitar o assunto, mas porque… não sei o que dizer. Que sinto muito? Eu sinto. Mas o que posso realmente entender de uma dor dessas?

Desde aquele dia, a Clara desenvolveu esse talento especial de me tratar como uma versão menor e mais desastrada dela mesma. E talvez, eu seja mesmo. Mas isso não quer dizer que não posso tomar minhas próprias decisões, inclusive quando se trata de caras potencialmente idiotas. E sim, o histórico comprova: eu tenho um talento especial para me apaixonar por desastre.

Troco de namorado como quem troca de roupa. Mas não porque sou volúvel. É porque eles são. Prometem o mundo e entregam o caos. Me conquistam com mensagens bonitinhas, playlists fofas e, quando percebo, estou sozinha tentando juntar os cacos de mais um final que não pedi.

Só que Johne… ele parece diferente.

Ele não me manda só mensagens fofinhas ou playlists baratas. Ele tem um jeito de olhar, de falar, que faz parecer que eu sou a única pessoa no mundo que importa naquele instante. Quando sorri… ah, aquele sorriso. É como se o caos que eu carrego dentro de mim finalmente se calasse por alguns segundos.

Clara não confia nele. Claro que não. Ela já não confia em ninguém que se aproxime de mim com intenções românticas. Mas, dessa vez, quero acreditar que ela está errada. Preciso acreditar. Porque, se não estiver… o que sobra de mim?

Pego o batom vermelho, meu amuleto de coragem, e passo com firmeza. Jeans de cintura alta, top de renda branca e maquiagem leve. Pronto. Versão melhorada de mim mesma. A versão que não vacila.

Antes de sair, passo no quarto da Clara. Ela dorme tranquila, os traços serenos, como se o peso do mundo finalmente tivesse lhe dado uma trégua. Entro devagar. Me inclino e beijo sua testa. Um gesto pequeno, mas cheio do que eu nunca consigo dizer em voz alta: sem você, eu já teria me perdido.

Fecho a porta devagar e corro para o táxi. Senhor Óscar, vulgo meu pai, confiscou meu carro por “uso indevido do cartão de crédito” e “atentado contra as leis de trânsito”. Exagerado, como sempre. Quem nunca gastou demais ou dirigiu como se o sinal vermelho fosse sugestão?

Talvez eu tenha um problema com autoridade. Rebelde, dramática, um pouco inconsequente. Ou talvez seja só meu jeito de gritar para o mundo que ainda estou viva.

Desço, entro no carro e peço para o motorista seguir para o um barzinho famoso. Minutos depois, o local aparece diante de mim com suas luzes âmbar e som abafado. É um daqueles lugares que parece elegante demais por fora, mas onde todos os casais do mundo parecem dar certo... pelo menos por uma noite.

No bar, Johne já me espera. Luz âmbar, música abafada, casais rindo, copos tilintando. O cenário perfeito para acreditar que finais felizes existem. Ele se levanta quando me vê, camisa branca, jeans escuro, sorriso que faria qualquer terapeuta me dar alta só para não assistir ao desastre que eu estava prestes a causar.

— Você está linda.

— Obrigada! — sorrio, fingindo não derreter por dentro.

A noite é leve. Dançamos, rimos, bebemos, nos beijamos. Como se fôssemos personagens de uma história que não pode dar errado. Mas, por volta das três da manhã, quando ele se oferece para me levar pra casa, vem aquele fiozinho incômodo.

No carro, ele solta de repente, com uma naturalidade gelada:

— Relacionamento? — Ele ri baixo, sem humor. — Isso é só uma ilusão. Uma mentira inventada para que as pessoas não precisem encarar o vazio de estarem sozinhas.

Olha pra mim. Olha fundo. Como se quisesse medir minha reação, dissecar meus pensamentos.

— Eu vi de perto o que o “amor” faz. É manipulação, traição, mentira. Prometem eternidade, entregam abandono. Eu não quero isso. Nunca quis. — Um sorriso frio curva seus lábios. — Podemos ficar sem compromisso.

A frase pesa no ar. Como fumaça que entra pelos pulmões e sufoca.

Por um instante, minha mente grita: corre, Duda. Mas meu coração, meu tolo e faminto coração, só consegue pensar: ele está ferido. Talvez eu possa curá-lo. Talvez eu seja a exceção.

Talvez ele tenha se machucado no passado. Talvez ele precise de alguém que prove que nem todo amor termina em dor.

E talvez... esse alguém possa ser eu.

***

Chegamos em casa. O beijo que ele me dá é quente, quase possessivo, e por um segundo eu penso em convidá-lo a subir. Mas engulo o impulso. Sinto que, se ceder agora, não vou ter como voltar atrás.

Entro no prédio, tiro os sapatos, me esgueiro até meu quarto. O baby doll desliza pela pele cansada, mas minha mente não desacelera. Fico pensando nele. No sorriso, nas palavras, no abismo escondido atrás daquele olhar bonito.

E adormeço com uma certeza teimosa queimando dentro de mim:

Vou provar pra ele que amar não é destruição. Que amar pode ser seguro.

Mas, no fundo, algo em mim já sabe.

Algumas pessoas não amam… porque nunca aprenderam a parar de destruir.

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