Capítulo 5

Marcos

Não me conformo, não consigo entender como este assassino em série ainda está à solta.

Dez anos.

Dez anos desde a primeira vítima. Dez anos de pistas frias, corpos deixados como mensagens, investigações que nunca chegam a lugar nenhum.

E ele ainda está solto.

Como diabos esse desgraçado ainda não foi pego?

Jogo meu terno sobre o sofá assim que entro em casa. Um suspiro pesado escapa dos meus pulmões enquanto caminho direto para a cozinha, ignorando o cansaço nos ombros. Ligo a televisão no canal de notícias e deixo a voz da repórter ecoar pela sala enquanto monto um sanduíche, o jantar de campeões dos ex-detetives frustrados.

Claro, o noticiário está dominado por uma única pauta.

"A cidade está em alerta. A polícia confirmou hoje a terceira vítima só neste semestre, aparentemente morta pelo mesmo serial killer que assombra o país há uma década..."

Fecho os olhos. Trinco a mandíbula. E, antes que a raiva me engula, uma lembrança atravessa minha mente sem pedir licença.

Clara.

Clara e a Duda sempre foram minhas sombras. Duas meninas grudadas em mim, me chamando de “irmão mais velho”, inventando travessuras que me deixavam maluco. Elas riam, debochavam, me desafiavam e eu fingia reclamar, mas no fundo adorava. Era como se tivesse nascido para cuidar delas.

Quando tudo desmoronou, Clara estava comigo. A dor dela era a minha, mas, mesmo assim, foi ela quem conseguiu me manter de pé.

Anos depois, precisei me afastar por causa do meu pai. E esse afastamento me matou um pouco a cada dia.

Quando soube que ela ficaria na cidade para cursar a faculdade, foi como respirar de novo depois de anos debaixo d’água. Dei a ela aquele emprego de caso pensado precisava de uma desculpa para tê-la por perto, para cuidar dela sem que parecesse óbvio.

Foi aí que percebi: o café que sempre pedia para ela trazer não era pelo café. Era só para vê-la entrando na sala, o cabelo preso às pressas, a expressão séria que logo se desfazia em um sorriso quando me flagrava olhando.

E eu comecei a entender, devagar, que não a via mais como irmã. Não sei quando isso mudou. Talvez tenha sido no jeito que ela franzia o nariz quando se concentrava, ou quando ria até perder o fôlego, ou quando me defendia com uma ferocidade que ninguém mais teria. Só sei que, de repente, tudo nela passou a me afetar mais do que eu queria admitir.

Tentei seguir em frente, tentei ter outras mulheres. Saí, me envolvi, até pensei que poderia preencher o vazio. Mas nenhuma delas era Clara. Com todas, faltava algo. Com todas, eu me sentia incompleto.

E foi aí que começou o meu inferno particular.

Como admitir que estava apaixonado por alguém que cresceu ao meu lado? Como desejar o que deveria ser proibido? Eu tinha medo de dizer, medo de perder o pouco que ainda tinha dela.

Então me calei. Preferi sufocar tudo dentro de mim a correr o risco de vê-la me rejeitar.

Mas a verdade é que, em silêncio, sempre foi ela. Sempre Clara.

A voz da repórter me arranca desse pensamento. Olho para a TV, e lá está Denis, rodeado de jornalistas.

Meu ex-parceiro. Meu irmão de vida.

Pego o telefone e ligo. Ele atende na segunda chamada, com aquele humor seco de sempre.

— Fala, Marcos.

— Adivinha quem acabei de ver sendo assediado pela imprensa?

— Aposto que era um detetive atraente.

— Errou feio. Era só um detetive molenga que ainda não conseguiu capturar um psicopata que mata mulheres inocentes.

Ele ri, sem humor, mas eu reconheço o peso atrás da piada. Denis sempre carregou o caso como se fosse pessoal. Talvez porque, de certa forma, era.

— Talvez se o melhor detetive do Brasil ainda estivesse na ativa, esse caso já teria sido encerrado.

— O melhor detetive? Achei que você era o melhor.

— Eu sou o segundo. O primeiro desistiu da função para virar executivo de publicidade obediente ao papai.

Fecho os olhos.

— Denis, de novo isso?

— Você sabe que não faz sentido, Marcos. O que tá fazendo sentado numa mesa de reuniões quando poderia estar caçando um assassino?

— Você sabe o motivo. Meu pai ficou doente, a empresa estava afundando. Eu não podia simplesmente…

— Podia, sim. Mas ok, assunto encerrado. Você ligou por causa do caso?

— Sim. Tem alguma novidade?

— Na verdade, tem. A amiga da última vítima disse que a garota estava saindo com um cara... um sujeito que ela nunca viu pessoalmente, mas que parecia estranho.

— Estranho como?

— Segundo ela, o cara evitava encontros em locais públicos, não queria nenhum envolvimento sério e chegou a dizer pra vítima que nunca deveria dizer que o amava.

— Isso é... específico.

— E familiar.

Fico em silêncio por alguns segundos. Meu cérebro começa a correr, puxando memórias de depoimentos antigos, padrões.

— Você acha que é ele?

— Não tenho dúvidas. E tem mais: o laudo confirmou que a arma usada é a mesma em todos os casos.

— Uma Jagdkommando e essa faca não é qualquer coisa.

— É militar, feita na Áustria, lâmina tripla em espiral. Criada para perfurar e rasgar de dentro pra fora. Só alguém obcecado escolheria um troço desses.

— Sempre nos mesmos pontos.

— Sim, primeiro no abdômen, uma perfuração precisa para enfraquecer, causar dor e pânico. Depois no coração. É rápido, limpo…

— Um ritual.

— Exato. E a assinatura dele está em cada detalhe.

— Alguma semelhança entre os supostos namorados das vítimas?

— Só o tipo físico: alto, porte atlético. Mas nenhuma descrição detalhada. Ninguém nunca viu o rosto dele com clareza. Sempre nas sombras, sempre fora do alcance de câmeras.

— Parece um fantasma.

Respiro fundo, sentindo o velho instinto acordar dentro de mim. Aquele faro de investigador que nunca foi embora, mesmo depois de ter trocado o distintivo por um crachá executivo.

— E quanto ao apoio da AIS? Seu pai conseguiu convencer o chefe da Agência Internacional de Segurança a se envolver?

— Ainda não. Mas ele insiste que o “especialista” vai chegar. Parece mais preocupado com a reputação da polícia do que com o caso em si.

— Droga.

— Concordo. Estou fazendo o que posso, Marcos. Mas sozinho, vou bater numa parede.

Silêncio entre nós. O tipo de silêncio que diz tudo que não conseguimos dizer há anos.

— Se você quiser voltar a investigar, nem que seja extraoficialmente... — ele começa.

— Eu sei onde te encontrar.

— E sei que você já está investigando por conta própria — ele completa.

Sorrio de lado, mesmo sabendo que ele está certo.

— Me conhece bem demais.

— Melhor do que ninguém.

Ele fica em silêncio por alguns segundos, até mudar o tom.

— E Clara? — pergunta, direto. — Você ainda vai ficar se escondendo atrás dessa desculpa do seu pai? Porque se continuar nesse ritmo, quando finalmente decidir falar, talvez já seja tarde demais.

Minha garganta seca.

— Não começa, Denis.

— Só estou dizendo a verdade. — A voz dele sai firme, sem hesitar. — Você sabe que ela não é mais a garotinha que vocês tratavam como sombra. Ela cresceu. E se você demorar, alguém vai aparecer.

Fecho os olhos, pressionando a ponte do nariz. Ele não está errado. Ele nunca está.

— Avise se surgir qualquer coisa nova.

— Claro. Cuida de você, Marcos.

— Você também.

Desligo.

Deixo o prato sujo na pia, mas antes de subir, passo pela sala e encaro meu terno jogado. Pego a peça com calma, dobrando-a antes de colocar no cesto. Visto a calça de moletom e sigo até a sala de treino.

Só que, em vez de ligar o cronômetro, acendo a luz fraca da parede coberta de anotações, fotos e linhas vermelhas conectando vítimas, datas e locais. Um mosaico de dez anos de sangue e silêncio. Minha investigação secreta. Minha obsessão.

Enquanto começo a série de exercícios, sinto os olhos de Denis ainda pesando sobre mim, suas palavras ecoando mais forte que o estalo dos músculos:

"Se você continuar esperando, vai perdê-la."

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