Capítulo 3 (parte 2)

Eu já estava arrumada para ir para a faculdade, pois já eram 6h30min hora que minha aula começaria. Já havia terminado de fazer tudo na minha sala, só faltava desligar o computador para enfim poder ir. Sem que eu percebesse, Marcos parou na porta e ficou ali parado, me observando e quando me virei dei de cara com ele.

— Nossa você me assustou!

— Desculpa não foi minha intenção. Só vim perguntar se você quer carona pra faculdade hoje — disse, de repente. — Não quero você mancando pelas ruas com uma queimadura escondida.

— É só um café, Marcos. Não fui atropelada por um ônibus. Ainda.

— Mesmo assim. Eu insisto.

E foi assim que, dez minutos depois, eu estava sentada no banco de couro perfumado do carro dele, um sedan importado que parecia ter saído direto de um filme. O ar-condicionado tinha cheiro de menta com poder aquisitivo.

— Isso aqui dá pra pagar seis meses de aluguel meu — murmurei, passando a mão pelo painel.

— Só se você morar em Paris.

— Ou em Pinheiros.

Ele riu. E naquele momento, parecia só um cara normal, bonito, rico e totalmente fora do meu alcance, mas ainda assim normal.

O rádio estava ligado em volume baixo, e uma voz grave anunciou:

“Foi encontrado hoje o corpo de uma mulher, a terceira vítima confirmada do serial killer que vem aterrorizando a cidade. A polícia ainda não tem pistas…”

O silêncio caiu dentro do carro. Instável. Frio.

— Isso é assustador — murmurei.

— E previsível — Marcos respondeu, com um tom estranho.

Olhei pra ele. Estava com o maxilar travado, os olhos fixos na estrada como se estivesse em outro lugar.

— O que quer dizer com isso?

Ele hesitou por um segundo.

— Eu estudei pra ser detetive criminal. Era meu sonho. Investiguei casos parecidos durante o estágio. Esse tipo de padrão... eu conheço.

Minha boca se abriu devagar.

— Você? Detetive?

— Era o plano. Mas meu pai ficou doente. Câncer no pâncreas. Precisava de alguém pra cuidar da agência. — ele deu de ombros. — Então vesti o terno.

— E você... se arrepende?

Ele respirou fundo. Um suspiro que parecia carregar mil decisões não tomadas.

— Todo dia.

Meus olhos buscaram os dele, mas ele manteve o olhar fixo no semáforo. Os segundos caíam devagar.

— Você seria um ótimo detetive — arrisquei.

Ele olhou pra mim, dessa vez. E algo naquele olhar me fez esquecer que Dante existia. Que o mundo existia.

— E você seria uma péssima vítima. Tem energia demais pra morrer fácil.

Soltei uma risada nervosa, mas o coração estava em pedaços.

Ele me deixou na porta da faculdade. Antes de sair, hesitei.

— Obrigada pela carona.

— Sempre que precisar.

— Até amanhã?

— Clara…

— Sim?

Ele sorriu, mas parecia cansado.

— Tenha cuidado.

— Pode deixar, detetive.

Bati a porta e caminhei até a entrada sem olhar pra trás. Se olhasse, talvez voltasse correndo.

Na entrada da faculdade, não demora muito para dar de cara com a Duda encostada na parede me aguardando, parecia estar impaciente de tanto me esperar. Ela estava com o semblante triste. Deveria estar assim devido a pequena discussão de mais cedo.

Resolvo me aproximar, e puxar assunto:

— Oi!

— Oi! — diz meio seca.

— Ainda está brava comigo? — lhe pergunto.

— Não.

— Estive pensando, talvez eu tenha errado em tentar controlar sua vida.

— Ai amiga! — ela então abre um sorriso e me abraça. — Entendo que você não faz por mal, tenho certeza que só estava pensando no meu bem.

— Sim, eu só quero o seu bem. Não gosto de te ver chorar por causa desses babacas que não sabem ver a pessoa maravilhosa que você é.

— Clara, você é a melhor amiga que alguém poderia querer.

— Sei disso. — digo me achando.

— Ai meu Deus, por que fui dar asa a cobra? — não aguentamos e caímos na risada, afinal somos duas bobas mesmo.

Depois de fazer as pazes seguimos juntas para sala de aula. As aulas transcorreram tão bem que nem percebi a hora passar. Só me dei conta quando já era hora de ir embora, porque Duda me tirou dos meus devaneios me chamando para ir para casa.

Ela estava eufórica com o encontro dela, foi me contando todos os seus planos para o tal encontro. Ao chegar ao nosso apartamento percebo o quanto estou cansada, vou direto para o banheiro, tomo um banho quente, o que me deixa relaxada e resolvo ir dormir sem comer nada. Diferente de Duda que mal chegou e já correu para o quarto para se arrumar para o tal encontro, só espero que dessa vez dê certo, sei que às vezes sou meio protetora, mas a única família que me restou foi a Duda e seus pais, tia Kiara e o tio Óscar.

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