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O Sol de Madrid e o Alvo no Peito

O sol finalmente deu as caras em Madrid depois de dias de chuva cinzenta, transformando o asfalto úmido em um espelho brilhante. Eu e a Bia estávamos sentadas no topo da arquibancada, aproveitando os poucos minutos de calor antes de eu ter que correr para o meu turno exaustivo no fast-food.

​— Luna, sério, se eu fosse você, já teria mandado um currículo para a mansão ao lado. Só para ser a 'testadora oficial de lençóis' — a Bia disse, rindo enquanto fechava os olhos para o sol, totalmente despreocupada.

​— Para com isso, Bia. Eles são os Castillo. Eu sou só... a vizinha que ele provavelmente quer usar para irritar alguma garota rica do círculo dele. Alguém como a Luna não entra no radar deles por nada além de diversão barata.

​— Ah, claro. Porque um cara como o Noah Castillo gasta o tempo dele pulando janelas e olhando através de vidros só por 'birra'. Acorda, amiga! Você é a garota mais linda dessa escola, o problema é que você se esconde atrás desses fones de ouvido.

​O som agudo e autoritário de um apito cortou nossa conversa. No campo, o treino de Lacrosse estava pegando fogo. Noah era uma força da natureza; ele tinha acabado de derrubar um colega de time com um impacto seco que deu para ouvir lá do topo da arquibancada. O treinador sinalizou o fim daquela sequência e ele parou no centro do gramado, ofegante, o peito subindo e descendo sob a armadura de proteção.

​Toda a arquibancada pareceu segurar o fôlego quando ele levou as mãos ao capacete. Quando o puxou, o suor brilhava na sua pele como diamantes sob o sol de Madrid. Ele jogou o cabelo para trás with uma mão, exausto e absurdamente magnético. As meninas ao nosso redor começaram a cochichar freneticamente, mas o Noah nem piscou para elas. Ele varreu as arquibancadas com o olhar, ignorando cada torcida entusiasmada, até que... ele parou em mim.

​O mundo ao redor emudeceu. Ele levantou o taco de Lacrosse, apontou diretamente na minha direção — como se eu fosse o seu único alvo — e deu aquela piscadinha lenta, com um sorriso de quem tinha acabado de marcar o ponto mais importante do jogo.

​— Meu Deus... — a Bia sussurrou, me dando uma cotovelada que quase me derrubou do banco. — Ele não fez isso. Ele fez? Ele acabou de te marcar na frente de todo mundo!

​Antes que eu pudesse processar o choque, duas garotas do segundo ano subiram os degraus e pararam na nossa frente, bloqueando o sol.

​— Oi... Luna, né? — a mais alta perguntou, com uma curiosidade ácida. — A gente viu o que aconteceu agora. E no corredor ontem. Vocês estão, tipo... saindo? É sério que os Castillo e os vizinhos 'comuns' agora se misturam?

​— A gente não está saindo — eu respondi, tentando manter a voz firme.

​— É — a Bia cortou, com aquele tom de deboche. — Eles não estão saindo. Ele está apenas obcecado por ela. Tem uma diferença enorme entre um encontro e uma perseguição, sabe?

​As meninas saíram cochichando e eu me levantei rápido, pegando minha mochila com as mãos ainda trêmulas.

​— Eu preciso ir, Bia. Vou me atrasar pro trabalho.

​— Vai lá, 'Julieta da classe média' — a Bia soltou, revirando os olhos com um sorriso malicioso. — Mas se prepara, viu? Porque amanhã esse colégio vai estar um puro caos. Você acaba de virar o assunto principal do grupo de fofoca, amiga. Aceita que dói menos!

​— Ah, cala a boca, Bia! — respondi, jogando o cabelo para trás e tentando esconder o sorriso nervoso enquanto ajeitava a mochila. — Menos drama, por favor, amiga. O Noah Castillo só é um idiota que gosta de plateia. Amanhã ele já achou outro alvo e todo mundo esquece que eu existo, você vai ver.

​— Aham, nem você acredita nisso — ela debochou, mandando um beijo no ar enquanto eu já descia os degraus da arquibancada apressada.

​O turno no Bull Burger foi um borrão de gordura e caos. Eu estava atrás do balcão, tentando processar os pedidos, mas minha mente insistia em voltar para o campo do Saint George.

​— Luna! O 42 era sem picles! Você está no mundo da lua ou o quê? — O grito do Sr. Gutierrez, meu gerente, cortou o barulho das fritadeiras. Ele bateu com a mão no balcão de metal, me fazendo pular.

​— Desculpe, senhor. Eu vou trocar agora mesmo — respondi, sentindo o rosto queimar.

​— Trocar não enche o caixa, menina! Presta atenção ou vou ter que descontar do seu turno — ele resmungou, voltando para os fundos.

​— Ei, moça! O meu refrigerante é pra hoje ou você está esperando o gelo derreter? — um cliente gritou da ponta da fila.

​Enquanto eu corria para encher o copo, senti um toque suave no meu ombro. Era o Tico, o rapaz que cuidava das fritadeiras. Ele estava com o rosto brilhando de suor e o avental manchado, mas seus olhos sempre tinham uma gentileza que me acalmava.

​— Ei, Luna... respira — ele sussurrou, aproveitando que o gerente tinha saído de perto. — Você está branca como um papel. Aconteceu alguma coisa? Você está bem mesmo?

​— Só estou cansada, Tico. Muita coisa na cabeça — tentei disfarçar, mas minhas mãos ainda não paravam de tremer enquanto eu colocava a tampa no copo.

​— Se o Gutierrez apertar demais, me avisa. Eu cubro o balcão enquanto você bebe uma água — ele insistiu, preocupado. — Você não é de cometer esses erros bobos. Quem quer que tenha roubado seus pensamentos hoje, deve ser alguém bem complicado.

​Forcei um sorriso para ele e agradeci, mas o comentário dele me atingiu. Ele tinha razão. Noah Castillo era o "alguém complicado" que estava transformando meu dia em um desastre de picles trocados e mãos trêmulas.

​Minhas pernas latejavam dentro das sapatilhas baratas e o cheiro de fritura parecia ter grudado na minha alma. Ali, eu era apenas a "garota do balcão", mas no fundo da minha mente, a imagem do Noah me dava uma sensação estranha de que as coisas estavam prestes a mudar.

​Quando cheguei em casa, o rubor no meu rosto ainda não tinha sumido. A Siena estava na cozinha e só precisou de um segundo para me analisar.

​— Que brilho é esse, Luna? Parece que o sol de Madrid resolveu morar nas suas bochechas hoje.

​— É só o cansaço, Siena. Hoje foi um dia longo no Bull Burger — menti, fugindo do olhar dela.

— Sei... o cansaço — ela brincou. — Mas olha, se esse 'cansaço' tiver o sobrenome de alguém da mansão ao lado, eu sugiro você preparar o coração. Gente daquele nível não j**a para perder. Eu só quero o seu bem, sabe disso, né?

​Eu parei no primeiro degrau da escada e olhei para ela, tentando suavizar a expressão.

​— Eu sei, Si. Prometo que tomo cuidado, tá? — respondi com um sorriso contido, dando um tchauzinho rápido antes de subir.

​Eu subi as escadas sem dizer mais nada, mas a verdade era que, ao entrar no meu quarto, a primeira coisa que fiz foi olhar para a janela. Eu queria saber qual seria o próximo passo do Noah.

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