Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som da melodia de What a Feeling começou a ecoar pelas paredes do meu quarto, trazendo aquela mistura de balé clássico com a energia intensa dos anos 80. A audição para a Academia Nacional era em dois meses, e cada músculo do meu corpo parecia gritar de exaustão. Mas eu não podia parar. Para a minha irmã, o esforço era nas contas; para mim, era na ponta dos pés.
Eu estava no meio de uma sequência complexa, tentando ajustar um giro que insistia em sair do eixo. O suor escorria pelas minhas têmporas, encharcando o collant. Parei, respirando fundo, e encarei meu reflexo no espelho. Meus pés, calejados e marcados pelo esforço, eram o preço que eu pagava pelo meu sonho. — De novo, Luna. Mais uma vez — murmurei para mim mesma, ajustando o coque bagunçado. A porta se abriu de leve e Siena apareceu, segurando um copo de água gelada. O brilho de preocupação nos olhos dela era evidente. — Você vai acabar tendo uma lesão antes mesmo de chegar ao palco, Luna. Descansa um pouco. — Eu não tenho o luxo de descansar, Siena. As outras candidatas tiveram aulas presenciais em Paris e Londres. Eu dependo das minhas aulas online com a professora e das horas extras que consigo roubar no tablado do Saint George antes das luzes se apagarem. — Você tem talento, o que é muito mais caro — ela deixou a água na mesa e me olhou com carinho. — Mas até as melhores máquinas precisam de óleo. Bebe isso e para por hoje. — Só mais dez minutos, eu prometo — respondi, pegando o copo e sentindo o gelo aliviar o calor da minha mão. Ela saiu balançando a cabeça, sabendo que eu era teimosa demais. Tomei um gole da água e, por um instinto que eu não conseguia controlar, olhei para a janela. A mansão dos Castillo estava mergulhada em uma luz azulada e fria. As janelas do quarto do Noah estavam fechadas, as cortinas pesadas de veludo bloqueando qualquer visão. "Ótimo", pensei. "Pelo menos hoje eu tenho privacidade." Soltei o cabelo, deixando que ele caísse livremente pelos ombros, deixei a batida da música subir e comecei a coreografia da audição. Era uma dança visceral, inspirada na força do filme Flashdance, cheia de saltos altos e movimentos de chão que exigiam tudo de mim. Eu me perdi no ritmo, sentindo cada nota vibrar nos meus ossos. No último movimento, caí de joelhos, ofegante, com o peito subindo e descendo freneticamente. Foi quando meu celular, jogado em cima da cama, vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido: "O segundo salto foi mais alto que o de ontem. Mas você está forçando demais o tornozelo direito. Tenta respirar no intervalo da batida." Um arrepio elétrico percorreu minha espinha. Olhei para a mansão novamente. As cortinas do quarto dele continuavam fechadas, mas uma fresta de luz agora escapava de uma das janelas do andar superior. Noah não precisava de cortinas abertas para me ver; ele tinha um jeito de estar presente mesmo nas sombras. Caminhei até a janela, o coração disparado. Em vez de fechar a cortina, apenas fiquei ali, visível. Peguei o celular e digitei de volta, tentando manter o sarcasmo como defesa: — Você é um stalker profissional ou isso é só um hobby dos Castillo? A resposta veio em segundos: — Considerando que você não fechou a cortina depois de saber que eu assisto... eu diria que isso é um espetáculo particular. E eu odeio chegar atrasado para o show. Senti meu rosto esquentar. Eu deveria estar furiosa — e uma parte de mim estava —, mas havia algo naquela atenção meticulosa dele que me dava um frio na barriga impossível de ignorar. Digitei rápido: — Se quer ver um show, paga o ingresso. O Saint George é caro, mas a minha paciência é mais. E para de olhar o meu tornozelo, eu sei o que estou fazendo. — Engraçado — ele rebateu quase instantaneamente. — Porque daqui de cima, parece que você está prestes a quebrar. Você é técnica, Luna. Mas é tensa. Dança como se estivesse fugindo de um incêndio, não como se fosse o fogo. Joguei o celular na cama, bufando. Quem ele pensava que era? Um crítico de arte? Mas, ao mesmo tempo, meu coração martelava de um jeito diferente. Ele estava me observando de verdade, notando nuances que nem a Siena percebia. Voltei para a tela: — Eu danço para sair daqui, Noah. Coisa que você nunca entenderia. Agora vai dormir e para de vigiar a vizinha "comum". — Minha vida é cheia de gente barulhenta e vazia, vizinha. Você é a única coisa que faz silêncio aqui perto. E sobre o "pagar o ingresso"... aceita um café amanhã antes da aula? Eu olhei para a fresta de luz na mansão. Um sorriso involuntário surgiu nos meus lábios, mas eu o apaguei no segundo seguinte. Eu não podia facilitar. — Nem morta, Castillo. Tenta a sorte com as meninas da arquibancada. Boa noite, stalker. Bloqueei a tela, mas fiquei ali parada, encarando a mansão. Eu dizia para mim mesma que o odiava, que ele era um idiota arrogante, mas o modo como ele me via — como se eu fosse a única pessoa real naquele bairro de aparências — estava começando a bagunçar tudo. Eu estava começando a dançar para ele, e o pior era que eu não queria mais parar.






