Jogo do Lado de Fora

A manhã seguinte ao confronto no meu quarto parecia mais pesada. Eu sentia os olhos dele em todo lugar, um peso invisível na minha nuca, mesmo quando ele não estava por perto. O ar de Madrid parecia carregado de uma eletricidade que só eu conseguia sentir. Tentei focar na Bia e nas suas teorias loucas sobre o novo professor de história, rindo alto e forçando uma normalidade que eu já não possuía. Mas, por dentro, eu era um caos. Meu mundo tinha virado de cabeça para baixo e o culpado tinha olhos azuis e um sorriso perigoso.

Foi quando o corredor pareceu encolher.

Noah vinha em nossa direção com o time de Lacrosse, o famoso "bonde dos intocáveis". Eles caminhavam com uma arrogância possessiva, como se o ar daquela escola pertencesse a eles por direito de herança. Eu tentei desviar o olhar, fixando a vista em qualquer ponto que não fosse o peito largo de Noah sob a jaqueta do time, mas o meu nervosismo me deu uma rasteira. Minhas mãos tremeram e, num segundo, meus livros e meu café foram direto para o chão, criando um rastro de desastre bem no caminho dele. O som do copo de papel atingindo o piso ecoou como um tiro.

Eu esperava que ele passasse por cima, ou que risse com o resto do time enquanto eu passava vergonha. Mas... Noah parou. O time todo parou com ele, como se ele tivesse dado um comando silencioso apenas com o movimento dos ombros. Ele se agachou devagar, pegando um dos meus cadernos com uma elegância irritante. Seus olhos não estavam nas folhas; eles estavam em mim, me percorrendo de cima a baixo com uma lentidão que me deixou zonza.

— Você tem ritmo até para causar desastres, vizinha — ele disse, a voz num tom grave que vibrou no meu peito, abafando o barulho dos outros alunos ao redor.

Eu congelei. O mundo parou. A Bia me olhou como se eu tivesse acabado de confessar um crime federal.

— Você não tem um pingo de vergonha, Castillo! — sussurrei, tentando manter a voz firme apesar do pânico que subia pela minha garganta como ácido. — Depois de invadir meu quarto ontem à noite, você ainda acha que tem o direito de falar comigo assim na frente de todo mundo?

Em vez de se afastar, Noah deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal até que o calor do corpo dele me envolvesse por completo. Ele não apenas se aproximou; ele segurou meu braço com uma firmeza possessiva e me girou levemente, me puxando para mais perto do que o necessário, me obrigando a encarar a imensidão azul do seu olhar. Senti o peito dele roçar no meu ombro enquanto ele inclinava o rosto, o hálito quente — com cheiro de menta e perigo — batendo na curva do meu pescoço antes de chegar ao meu ouvido.

— Digamos que a vista do meu quarto melhorou muito ultimamente — ele sussurrou, e eu senti os lábios dele encostarem de leve no meu lóbulo, um contato elétrico que me fez perder o fôlego e esquecer como se usa as pernas. — E as suas cortinas finas... elas são minhas melhores amigas agora. Eu vi tudo, Luna. Cada detalhe.

Meu sangue gelou. Cada detalhe? O que ele tinha visto? Eu dançando de lingerie? Eu saindo do banho? A dúvida queimava mais que o café derramado no chão.

Ele se afastou apenas o suficiente para me olhar nos olhos, me dando aquela piscadinha clássica de quem sabe que acabou de incendiar meus pensamentos e destruir minha sanidade. Ele soltou meu braço, mas deixou a mão deslizar pelo meu pulso, num carinho lento até a ponta dos mesmos dedos, antes de seguir o caminho com os amigos, rindo de algo que eu já não conseguia ouvir.

Eu fiquei lá, parada no meio do corredor, com o rosto queimando e as pernas bambas, sentindo um arrepio que não tinha nada a ver com o café frio no chão.

— Eu te odeio, Noah Castillo! — soltei, com a voz embargada de raiva e de algo que eu não queria admitir que era puro prazer.

Ele nem olhou para trás, apenas levantou a mão num aceno cínico, como se estivesse se despedindo de uma súdita.

— Luna? O que foi isso? — A Bia me cutucou, os olhos quase saltando para fora. — O Noah Castillo acabou de te marcar território no meio do corredor? Desde quando vocês são "vizinhos" desse jeito?

— Ele é um idiota, Bia. Um idiota abusado que não sabe o que é privacidade — respondi, tentando inutilmente limpar o café dos meus sapatos.

Bia me deu um empurrão de leve, soltando uma risadinha maliciosa que me irritou ainda mais:

— Ele pode ser um idiota, mas é o idiota mais gato desse colégio e olhou para você como se você fosse o troféu de ouro do campeonato de Lacrosse. Se eu fosse você, amiga, ou trocava essa cortina fina por uma de chumbo, ou abria logo a porta de uma vez e resolvia esse problema!

Eu não respondi. Eu só conseguia pensar que, pela primeira vez, eu não era a única assistindo ao espetáculo da minha própria vida. O problema é que, no palco do Noah, as regras eram ditadas pelo corpo dele. E eu estava começando a entender que o meu corpo queria aprender aquela dança proibida no Saint George.

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