O Interrogatório

Luna

Eu ainda conseguia sentir o calor das mãos do Noah na minha cintura enquanto caminhava pelo corredor do Saint George no dia seguinte. Tentei manter a expressão neutra, como se não tivesse passado a tarde anterior sendo prensada contra o peito do herdeiro dos Castillo, mas a Bia tinha um radar para segredos que beirava o sobrenatural.

Ela me puxou para dentro do banheiro feminino antes mesmo da primeira aula começar.

— Pode abrir o jogo, Luna. Agora. — Ela cruzou os braços, me encurralando contra a pia.

— Abrir o jogo sobre o quê, Bia? Eu tenho prova de biologia, me deixa passar.

— Não vem com essa, amiga! Eu esqueci meu casaco no ginásio ontem e voltei para buscar. E o que eu vi? Você e o Noah Castillo em uma cena que tinha tanta eletricidade que eu quase levei um choque da porta!

Senti meu rosto entrar em combustão instantânea.

— Fala baixo! Ficou louca? Alguém pode ouvir — sussurrei, mas não consegui segurar um sorriso cúmplice. — Não era o que parecia, tá? Ele... ele estava me ajudando com um salto. Só isso.

— "Só isso"? Luna, o cara estava segurando você como se você fosse o tesouro perdido da Espanha! O olhar dele daria para derreter as calotas polares. Ele te tocou com uma vontade, sua louca!

— Foi técnico, Bia! — falei, tentando manter a seriedade enquanto ajeitava o cabelo no espelho manchado. — Ele disse que eu estava sem eixo e resolveu fazer o papel de pilar. Foi quase um serviço comunitário dele, juro!

— Sei... o eixo dele deve estar bem focado em você agora. Luna, escuta: as meninas dessa escola matariam para ter o Noah Castillo encostando nelas por um segundo, e ele está invadindo o seu treino particular? Isso não é "ajuda técnica". Isso é marcação de território.

— Ele é arrogante, Bia. Ele acha que pode mandar em tudo, até no meu jeito de dançar.

— E você? Por que não deu um tapa na mão dele e mandou ele voltar para a "mansão de vidro"?

Eu hesitei. O silêncio no banheiro pareceu durar uma eternidade, quebrado apenas pelo som de uma torneira pingando.

— Porque, pela primeira vez... eu não caí — sussurrei, quase para mim mesma.

A Bia suavizou o olhar, mas o sorriso malicioso não sumiu.

— Amiga, você está jogando com fogo. E os Castillo não são conhecidos por apagar incêndios; eles são conhecidos por queimar tudo o que tocam.

— Eu sei me cuidar.

— Espero que sim. Porque olha agora.

Bia caminhou até a janela grande e pesada, empurrando o vidro para fora. O banheiro ficava no segundo andar, bem acima da área de convivência.

— Ele não tira o olho daqui — ela murmurou.

Eu me aproximei da moldura. Lá embaixo, no pátio, Noah estava cercado pelos amigos do time, mas olhava diretamente para cima. No momento em que nossos olhos se cruzaram, ele levou dois dedos à têmpora, fazendo um sinal de saudação, e deu aquele sorriso cínico que dizia que ele sabia exatamente que eu estava falando dele.

— É... — Bia suspirou. — Você está perdida. E eu vou precisar de muita pipoca para assistir ao resto desse estrago.

Noah

Eu vi quando elas entraram no banheiro. Vi a hesitação no passo da Luna e o jeito que ela evitava olhar para o pátio, como se estivesse tentando fugir de um fantasma. Eu sabia que ela estava falando de mim. Provavelmente tentando convencer a si mesma de que o que aconteceu no ginásio foi apenas "estudo de movimento".

Tola. E mais tolo eu.

Senti o peso do taco de lacrosse na minha mão, mas minha mente ainda estava ocupada pela sensação da pele dela sob meus dedos. A Luna é, sem dúvida, a garota mais linda dessa escola, e o que mais me irrita — ou me fascina — é que ela parece não ter a menor ideia disso. Enquanto as outras garotas tentam chamar minha atenção com camadas de maquiagem, ela só precisa prender o cabelo e me olhar com aquele desprezo que me incendeia.

Ela é o sonho proibido de metade dos caras deste pátio. Eu vejo como eles a seguem com o olhar, cobiçando os olhos verdes e as curvas que o collant de bailarina acentua de um jeito que beira o pecado. Mas ela faz todos eles se sentirem invisíveis. Ela caminha como se ninguém existisse, e eu sempre achei que seria o único a quebrar esse muro.

Mas quando ela pendeu a cabeça para trás ontem... quando aquele gemido baixo escapou dela, o jogo virou. Pela primeira vez em anos, eu não estava dando as cartas; eu estava tentando não ser queimado pelo baralho.

Eu nunca precisei me esforçar por nada. Garotas, notas, campeonatos... tudo vinha com a facilidade de quem nasceu no topo. Mas a minha bailarina? Ela é um quebra-cabeça que eu não consigo resolver apenas com dinheiro ou charme.

"Você está entrando em um território perigoso, Noah", a voz do meu pai alertou na minha mente, fria como o mármore da nossa casa.

Olhei para a janela do banheiro no exato momento em que o vidro se abriu. Lá estava ela. Pálida, linda e claramente furiosa por ter sido notada. Eu sorri e fiz a saudação, mantendo a máscara de arrogância que o mundo esperava de mim. Mas, por dentro, o impacto era real. Eu não queria apenas observá-la. Eu queria ser o único motivo pelo qual ela perde o fôlego.

Eu achei que tinha colocado um alvo no peito dela, mas agora, sentindo meu coração martelar contra as costelas, comecei a suspeitar que o alvo, o tempo todo, esteve no meu.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App