Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois do episódio no Bull Burger, o único lugar onde eu achava que teria paz seria o ginásio do Saint George. Era o meu santuário improvisado, longe do cheiro de gordura e dos olhares curiosos. Até aquela tarde.
Eu estava no meio de um alongamento, com o corpo dobrado, quando o som das portas duplas batendo contra a parede me fez pular. Noah entrou carregando sua bolsa de Lacrosse como se fosse dono do prédio inteiro. O impacto das portas ecoou como um tiro no espaço vazio. — O que você está fazendo aqui? — perguntei, endireitando a postura, irritada pela invasão. — O campo está sendo dedetizado. O ginásio foi a única opção — ele respondeu, jogando a bolsa no banco sem a menor cerimônia. Então, ele olhou em volta e franziu a testa, os olhos fixos em mim. — E você? O que faz aqui no cimento? Por que não está no seu precioso tablado? Pensei que bailarinas precisassem de espelhos para sobreviver. — O clube de teatro ocupou a sala de espelhos hoje — respondi seca, cruzando os braços. — E o ginásio era o único lugar onde eu achei que não encontraria ninguém insuportável. Pelo visto, errei. Ele deu um sorriso de lado, aquele sorriso arrogante que fazia meu sangue ferver, e começou a amarrar o cadarço do tênis. Foi o gatilho que eu precisava. — Espera aí. Antes que você se acomode... — Caminhei até minha mochila no canto da quadra e tirei as notas amassadas que pesavam no meu bolso. Marchei até ele e estendi a mão. — Toma. Os seus noventa euros. Noah olhou para o dinheiro na minha mão e depois para o meu rosto, sem fazer menção de pegar. — Eu não quero isso de volta, Luna. — Eu não preciso da sua esmola, Noah. Eu trabalho pelo meu dinheiro, não preciso que o "príncipe do Alcázar" deixe gorjetas absurdas só para se sentir benevolente. Pega. Ele suspirou, uma expressão de tédio misturada com diversão cruzando o rosto dele. Em vez de pegar o dinheiro da minha mão, ele deu dois passos rápidos na minha direção, invadindo meu espaço. Antes que eu pudesse reagir, ele pegou as notas, passou por mim e as enfiou com força no bolso lateral da minha mochila aberta. — Não foi esmola. E você é insuportavelmente orgulhosa, sabia? — Ele se virou para mim, os olhos faiscando. — Por que você é tão marrenta, vizinha? Aceitar uma gentileza não vai matar você. — Vindo de você, não é gentileza. É jogo — retruquei. Decidi que não ia dar a ele o gosto de ver que me afetou. Dei as costas para ele, liguei minha música e voltei ao treino, tentando ignorá-lo. Mas era impossível. De um lado, minha coreografia; do outro, o impacto violento da bola dele contra a parede. Eu estava tentando o salto que ele criticou na janela. Uma, duas, três vezes... e eu sempre desequilibrava na aterrissagem. — M****a... — sussurrei entre dentes, sentindo o suor escorrer pelo pescoço. — O problema não é o seu tornozelo, Luna. É a sua resistência em se deixar levar — a voz dele surgiu logo atrás de mim, tão perto que senti o calor do corpo dele nas minhas costas. Noah tinha abandonado o treino. Ele estava parado a centímetros de mim, exalando um cheiro de suor e adrenalina que começou a nublar meus sentidos. — Eu não pedi sua análise, Castillo. — Mas você precisa dela. Você está travada, com medo de se quebrar. Antes que eu pudesse protestar, Noah deu um passo à frente, colando o peito largo nas minhas costas. Senti as mãos dele envolverem minha cintura com uma possessividade que me roubou o fôlego. O calor das palmas dele atravessou o tecido fino e úmido de suor do meu collant, enviando um choque elétrico direto para a minha espinha. — O que está fazendo? — minha voz saiu como um sopro, quase um pedido. — Te dando o eixo que você tem medo de assumir sozinha — ele sussurrou, a respiração quente e pesada batendo na minha nuca. Ele não esperou minha resposta. As mãos dele subiram lentamente pela minha cintura, pressionando as minhas costelas. Senti meus mamilos endurecerem contra o tecido, uma reação traidora que eu não conseguia esconder. Então, com a mesma lentidão torturante, ele desceu as mãos em direção ao meu ventre, espalmando-as sobre o meu abdômen. O toque foi tão firme e, ao mesmo tempo, tão carregado de uma intenção sombria que meu corpo relaxou contra o dele por puro instinto. Minha cabeça pendeu para trás, o pescoço inclinado, expondo a pele vulnerável. Noah não desperdiçou o convite. Ele inclinou o rosto e pressionou os lábios contra a lateral do meu pescoço, um beijo quente e úmido que me fez soltar um gemido quase inaudível, um som de derrota e desejo. No segundo seguinte, ele desceu as mãos para o meu quadril, cravando os dedos ali e me puxando com força para trás, colando meu corpo ao dele até que eu pudesse sentir cada músculo tenso das suas pernas. — Salta, Luna — ele sibilou contra a minha pele, a voz rouca. — Salta para mim agora, porque se você não sair do chão, eu vou acabar fazendo você perder o equilíbrio de um jeito que você nunca mais vai esquecer. — Não! Você vai me deixar cair. — Eu nunca deixo nada que eu realmente quero cair. Agora, vai. Salta para mim. A música atingiu o ápice. Por um segundo, eu esqueci que o odiava. Eu esqueci os noventa euros na mochila, as cortinas finas e a audácia dele. Eu corri, impulsionei o corpo e saltei. Pela primeira vez, eu não senti medo do chão. Senti as mãos de Noah me prendendo no ar, me sustentando com uma força bruta que me fez sentir segura e vulnerável ao mesmo tempo. Quando ele me colocou de volta no chão, ele não me soltou imediatamente. Seus dedos ainda queimavam na minha pele antes de ele se afastar de repente, pegando a bolsa e o taco que estava no banco. Ele saiu do ginásio golpeando a bola contra o chão com a rede do taco a cada passo — um estalo seco, rítmico e pesado que parecia ecoar dentro da minha própria cabeça. Era um som de contagem regressiva, de domínio. Ele me deixou lá, fervendo, com o corpo gritando por um contato que ele teve a audácia de interromper. — EU TE ODEIO, NOAH! — gritei para as costas dele, garantindo que minha voz ecoasse por todo o ginásio vazio antes de ele cruzar a porta. Mas, assim que o vi desaparecer, baixei a cabeça e deixei um sussurro escapar apenas para mim mesma, no silêncio da quadra: — Ou não....






