Mundo de ficçãoIniciar sessãoO cheiro de batata frita e o barulho incessante da máquina de refrigerante eram tudo o que eu conseguia ouvir. O uniforme do Bull Burger incomodava; o tecido sintético pinicava na minha pele e eu sentia que cada minuto ali me afastava um pouco mais da elegância da dança. Mas as despesas de uma casa daquele tamanho em Madrid não se pagavam com piruetas.
— Luna, pedido quarenta e seis no balcão! — gritou o Sr. Gutierrez. Entreguei a bandeja sem olhar, limpando o suor da testa com o antebraço. Foi quando o sino da porta tocou e o ar da lanchonete pareceu mudar de temperatura. Um perfume caro, com notas de madeira e algo cítrico, cortou o cheiro de óleo queimado. Noah Castillo estava parado ali, usando uma jaqueta de couro que provavelmente custava mais do que a nossa conta de luz do ano inteiro. Atrás dele, Marco, seu irmão caçula, olhava o menu com um sorriso divertido e curioso. Eles pareciam dois alienígenas que tinham acabado de pousar em um planeta de plástico e gordura trans. — O que você está fazendo aqui, Noah? — perguntei, cruzando os braços e tentando ignorar o modo como meu coração saltou contra as costelas. — Fiquei sabendo que o hambúrguer daqui é o melhor de Madrid — ele disse, debruçando-se no balcão com uma confiança irritante. — Ou talvez eu só quisesse ver se você fica tão bem de boné quanto fica de collant. — Ela fica bem de qualquer jeito, Noah, mas esse boné definitivamente não faz justiça ao seu rosto, Luna — Marco interrompeu, dando um passo à frente com uma simpatia que contrastava com a intensidade do irmão. — Desculpa a invasão, é que meu irmão não sabe o significado da palavra "limites". — Vocês são doentes — sussurrei, olhando para os lados para garantir que o Sr. Gutierrez não estava ouvindo. — Somos persistentes — Noah corrigiu, a voz ficando um tom mais séria. Ele ignorou o comentário do irmão e focou apenas em mim. — Eu sei sobre a audição da Academia Nacional, Luna. Minha mãe é uma das principais doadoras de lá. Se você quiser, eu posso fazer uma ligação. Posso garantir que você não seja apenas mais uma na lista. Parei o que estava fazendo. O orgulho subiu pela minha garganta como um veneno amargo. — Você acha que pode comprar o meu sonho com uma ligação do seu telefone de ouro? Eu não quero a sua caridade, Noah. Eu vou entrar naquela academia porque sou boa, não porque sou a vizinha de um Castillo. — Eu não estava oferecendo caridade — ele disse, baixinho. — Estava oferecendo um atalho. Mas se você prefere o caminho difícil, tudo bem. Só saiba que o caminho difícil é o meu favorito para observar. Ele deixou uma nota de cem euros no balcão para um pedido de dez e se virou para sair. — Ei! O seu troco! — gritei. — Fica de gorjeta — ele respondeu sem olhar para trás. — Use para comprar sapatilhas novas. As que você usou ontem à noite estão pedindo clemência, estão gastas demais. Dei um sorriso de lado, curto e afiado, antes que ele cruzasse a porta. — Mostrou que não entende nada de balé, Castillo! — exclamei, fazendo-o parar e olhar por cima do ombro. — Sapatilhas gastas são as que têm alma. Elas conhecem meus pés, me dão equilíbrio. As novas são para amadores. Se você quer me dar algo útil, tente me dar algo que o seu dinheiro não compre... como um pouco de silêncio e privacidade. Noah arqueou uma sobrancelha, um brilho de divertimento genuíno surgindo em seu rosto. Ele não disse nada, apenas saiu, deixando a nota de cem euros como um desafio. Respirei fundo e levei a nota até o caixa, guardando o troco de exatamente noventa euros no bolso do avental. Aquele "insulto" agora pesava no meu quadril. Senti um vulto ao meu lado. Era o Tico, que observava a porta com uma expressão de quem finalmente tinha montado um quebra-cabeça. — Então esse é o cara, né? — Tico perguntou, tentando parecer descontraído. — Sinceramente? Esse cara de jaqueta cara não faz o seu tipo. Você precisa de alguém que entenda de ralação, alguém que saiba exatamente como você gosta do seu café depois do turno. Ele deu um sorriso esperançoso. Eu soltei uma risada, sentindo a tensão diminuir, e apertei as bochechas dele com força. — Ai, Tico! Você é um amigão, sério. O melhor de todos! — eu disse, rindo. — Obrigada pelos conselhos, você é um fofo. Mas agora volta para as batatas antes que o Gutierrez te frite junto com elas. — Amigão? — ele sussurrou para si mesmo, com uma cara de decepção. — Pelo menos "fofo" é um começo... eu acho. Encarei a porta por onde Noah tinha saído. A indignação ainda fervia, mas meu coração ainda não tinha decidido se batia de raiva ou de uma expectativa que eu me recusava a nomear.






