Mundo de ficçãoIniciar sessãoMeu amado morreu salvando minha vida. E eu, uma garotinha mimada, encontrei a salvação nos braços do tio dele. Encontrei consolo no cuidado que nunca conheci, encontrei refúgio em um novo amor, mergulhei na bela vida dos ricos e famosos, tornando-me inesperadamente a heroína de um conto de fadas. O casamento iminente já está em todos os jornais e canais de TV. Meu vestido de noiva se tornará o sonho de todas as mulheres do mundo, e eu já fui apelidada de a mulher mais sortuda sem dote. E somente Ele, abrindo a porta para o passado, dirá: "Você deveria ter aceitado aquele um milhão, porque agora você não vai ganhar nada, e eu vou te ter, de graça."
Ler maisO cheiro de fumaça preenche e corrói meus pulmões.
Estou sufocando. Tento respirar e ouvir a minha própria respiração ofegante, mas só engulo veneno, que encurta minha vida lentamente. Arranho a minha garganta, sentindo minha pele repuxar sob as unhas, mas ainda assim não sinto alívio. A fumaça faz os meus olhos lacrimejarem, e quando alguém grita meu nome, vejo apenas uma parede impenetrável e incorpórea, atrás da qual uma sombra tênue se move.
— Estou aqui! A minha boca grita, mas os meus pulmões apenas expelem saliva ne*gra inexistente.
— Kira! A sua voz. Em algum lugar onde eu jamais conseguiria chegar com minhas próprias pernas. E duvido que algum dia consiga rastejar. — Kira, onde você está?!
— Estou aqui! Eu arfo, com o resto das minhas forças, quase perdendo a consciência.
E as palavras se perdem na dor quando um raio pesado e incandescente cai sobre meu braço, e minha pele queima como papel.
E eu grito tão desesperadamente que algo no meu peito explode, e o mundo, oscilando, desmorona como um castelo de cartas, direto no fogo que dança uma dança sacrificial ao meu redor.
— Kira! Alguém me agarra pelos ombros, me puxa para perto e acaricia minha cabeça suavemente. — Kira, isso é só um pesadelo.
Estou sufocando. Estou acordada, mas ainda não consigo respirar. A falta de ar é como um parafuso em brasa sendo rosqueado na minha garganta, e cada lâmina corta com uma ponta afiada como navalha. Apalpo às cegas, derrubando o abajur, porque o mundo está fluindo junto com minhas lágrimas.
— Aqui, Kira.
Reconheço a voz de Dima, mas isso não me faz sentir melhor. Só quando ele coloca a lata de spray fria na minha palma e eu respiro fundo pela primeira vez é que o pânico começa a diminuir.
— Respire, pequena. Dima me abraça forte, acariciando minhas costas como se eu fosse um bebê, deixando-me chorar pelo passado.
Dois anos se passaram, e esses sonhos ainda persistem. O mesmo pesadelo, quase o mesmo cenário: um incêndio, uma porta fechada, um espelho estilhaçado e vigas caindo sobre mim como palha de um telhado. Levanto a mão e o tecido fino da minha camisola escorrega, revelando uma marca de queimadura feia e torta, que se estende do meu pulso quase até o ombro. Ela também dói quase constantemente, como se os pesadelos por si só não bastassem para me fazer lembrar pelo resto da vida daquela noite e do homem que me salvou ao custo da própria vida.
E quando a crise de asma passa, a voz da consciência desperta, voz essa que recentemente se tornou minha fiel companheira. E sugere que não é justo lembrar do meu falecido noivo nos braços do tio dele, de quem me tornarei esposa em três semanas.
Dima se afasta, segura o meu rosto entre as mãos e enxuga as lágrimas da minha pele até que não reste nenhum vestígio. Ele tem trinta e quatro anos e está longe de ser um anjo, mas tem a aparência de um verdadeiro ator de Hollywood: charmoso, lindo, um viúvo desejável e com princípios. Porque nem mesmo os jornalistas ociosos têm nada contra ele, nenhuma mancha em sua reputação impecável, nem mesmo o menor fato difamatório, nenhum caso extraconjugal.
— Melhor? Ele pergunta, beijando minhas pálpebras fechadas.
Um gesto que sempre me acalma.
— Sim. Digo quase inaudível, ainda segurando o remédio que salva a minha vida na palma da mão.
Minha asma é mais uma lembrança daquela tragédia. Os médicos dizem que é apenas neuralgia, as sequelas do trauma que sofri, e que se eu realmente quiser, a doença vai passar, como um medo imaginário. Mas ou os médicos estão errados, ou eu não estou fazendo a diferença necessária, porque o spray que salva minha vida agora está guardado permanentemente na minha bolsa.
— Desculpe. Respiro mais calmamente, guardando o meu braço deformado de volta na manga. — Você está me tratando como um bebê.
Dima balança a cabeça, fingindo concordar com a minha autoflagelação, depois beija a minha testa e me empurra para o outro lado da cama.
Ele se deita ao meu lado, me puxando para seus braços.
Ele está esperando o nosso casamento para poder oficialmente compartilhar a minha cama.
Então, pelas próximas três semanas, dormiremos na mesma cama, como crianças: castamente e completamente vestidos. De agora em diante, sob o teto de Dima.
Gabriel— Você ainda não ganhou peso nenhum, Kira. Digo a primeira coisa sensata que consigo pescar no meio da multidão de pensamentos obscenos na minha cabeça.É um m*aldito caso de *déjà vu*. Ela está fugindo de novo, e eu a estou seguindo por algum motivo m*aldito, trancando-me no banheiro a sós com ela. Normalmente, é exatamente assim que eu acabaria transando de forma selvagem e sem compromisso: encontro uma égua gostosa e desinibida, pago um coquetel caro, deixo ela saber que sou bem-dotado — e a conduzo para o banheiro para fodê-la até ficar totalmente esvaziado.Mas com a Kira... eu na verdade enfio as mãos nos bolsos da calça, porque tocá-la seria como acariciar uma gata sarnenta no cio. Ela pode até achar que é inalcançável, independente e feita de pedra, mas toda mulher emite sinais fáceis de perceber. Respiração ofegante, olhos semicerrados, lábios entreabertos. E gotículas de água tremendo em seus cílios claros.Droga, não — Gabriel, sua mente está indo pelo caminho errad
Kira— Consegui arrancar um presente de casamento do Varfolomeev. Yulya anuncia triunfante após o terceiro brinde.M*al comi alguma coisa, então minha cabeça já está girando um pouco. Dou um gole minúsculo — ou melhor, apenas encosto os lábios no vinho Moscatel doce e frisante.— Vamos voar para as ilhas tropicais! Por dez dias! Yulya gesticula com tanta empolgação que quase derruba um prato da mesa. — Um resort cinco estrelas com tudo incluído — três piscinas, uma delas de água salgada! Um spa!Engulo em seco, tentando conter uma onda de lembranças indesejadas que — como guerrilheiros — começam a invadir minha mente por todos os lados. A praia, a areia, o som das ondas e o ar com gosto de frutas tropicais — tão doce que minha visão fica turva. E aquele beijo voraz e avassalador — do tipo que me fazia querer chorar e caminhar voluntariamente para o abismo.Sinto um m*al-estar comigo mesma por não conseguir me alegrar verdadeiramente pela minha amiga em um momento tão importante. Porqu
KiraSeis meses depois…— Me pediram para te entregar isso.Levanto os olhos do tablet e deparo-me com um lindo buquê de rosas cor de caramelo, decorado com um balão, quase como um presente de casamento. Vera coloca um elegante cartão de visitas ao lado.— E aí? Minha amiga insiste, batendo o dedo impacientemente num pedaço de papelão, como se estivesse invocando um gênio da lâmpada. — Pelo menos veja quem mandou!Sinceramente, não estou interessada, mas para satisfazer a sua curiosidade, continuo olhando.Alex Morozov. O fotógrafo mais estiloso, que está fazendo sucesso no Instagram com os seus ensaios fotográficos impressionantes, destacando os bumbuns firmes das mulheres. Ele se especializa em fotografia erótica, e todo mundo, de cantoras a modelos e bailarinas, quer as suas fotos para seus portfólios. Mas ele próprio parece o sonho de qualquer fotógrafo: coberto de tatuagens, com um corte de cabelo estiloso, atlético e tão sarado que poderia estrelar um comercial de academia. — Qu
Gabriel— Não me toque! Some daqui com os seus cremes, eu não sou criança!Minha mãe bufa e estende a mão para passar um cotonete com antisséptico no meu lábio machucado. Consigo me virar, pulo de pé e aponto para a porta:— Saia daqui! E aí?!— Você precisa de um médico. Ela responde calmamente, sentando-se de forma demonstrativa no sofá e cruzando as pernas. — Não vou a lugar nenhum até ter certeza de que a vida do meu único filho não vai acabar por causa de uma infecção generalizada.— Você se importa? Eu respondo bruscamente.— Não, desde que cheguei aqui e aguentei o seu mau-humor por meia hora. Você é igualzinho ao seu pai.— Bem, pelo menos em alguma coisa, senão você ia achar que eu sou um órfão.— Eu ficaria feliz em ir embora, até para os confins da Terra, mas estou simplesmente apavorado. Então, pelo menos posso admitir isso para mim mesmo. Tenho medo de que esta m*aldita ilha seja pequena demais para que eu e Kira sintamos falta um do outro, e se eu a vir de novo, então...










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