Mundo ficciónIniciar sesiónKira
Dima começa a ligar quando não atendo. É como se ele tivesse programado o discador automático, esperando eu me cansar de desligar e perder a coragem.
Mas eu simplesmente não quero falar com ele porque estou muito nervosa. Se eu atender agora, não será uma tentativa de conversa, mas uma onda de adrenalina e negatividade, da qual estou completamente carregada depois de encontrar o Gabriel.
Entro no carro, tranco as portas e, rapidamente, percebendo a estup*idez da situação, fecho o vidro completamente. Minhas mãos estão tremendo e o rosto daquele monstro ainda paira diante dos meus olhos. Se ele não estivesse em algum lugar lá fora, ameaçadoramente perto, eu jamais dirigiria nesse estado, mas se nos desentendermos de novo... Não sei o que vai acontecer. Será que vou desabar?
Não há ninguém que possa me ajudar a responder essa pergunta, então é melhor não arriscar.
Estou dirigindo pela cidade, constantemente ignorando os sinais verdes, incentivada pelas buzinas de motoristas impacientes. Mas mesmo que eu pudesse ir até os confins da Terra, ainda assim não conseguiria escapar do passado, que voltou para me assombrar com as palavras duras de Gabriel.
Eu... oh, meu Deus, eu só precisava de dinheiro. Uma pequena quantia que eu pudesse ganhar em algumas semanas. Nada de intim*idade, apenas acompanhando pessoas a eventos oficiais.
E aquela primeira noite naquela m*aldita agência me marcou para o resto da vida.
Rafael prometeu que nunca contaria a ninguém como e onde nos conhecemos, mas Gabriel simplesmente precisava se intrometer em nosso relacionamento, vangloriando-se de seu direito, como irmão mais velho, de zelar pelo bem-estar do irmão mais novo.
E se Dima descobrir, é improvável que fique satisfeito com a perspectiva de adicionar uma bomba-relógio ao seu histórico impecável.
Não há ninguém para culpar, porque a culpa é toda minha.
Eu deveria ter contado tudo a ele desde o início. Se tivéssemos acertado todos os detalhes e, provavelmente, teríamos simplesmente nos separado, duas almas solitárias. Mas Deus sabe como eu precisava dele! E perdi a coragem, sucumbindo à voz do meu coração, que sussurrava que, ao lado desse homem, minha vida, que eu havia voluntariamente depositado no caixão de Rafael, poderia ressurgir como uma fênix das cinzas.
Dima está me esperando no portão. Estaciono de alguma forma, saio do carro sem fazer barulho e fico parada ali enquanto ele anda de um lado para o outro, seu nervosismo denunciado pelos punhos cerrados nos bolsos.
Ele reage ao som do motor, olha para trás e caminha em minha direção. Não pergunta nada, simplesmente acaricia as minhas bochechas com as palmas das mãos e pressiona os seus lábios firmemente contra os meus. Não consigo nem reunir forças para abraçá-lo de volta, e meus m*alditos braços pendem frouxamente ao meu lado, como uma corda.
— Eu devia ter te contado. Ele adivinha infalivelmente o motivo do meu mau humor. — Desculpa, meu bem, eu devia, mas simplesmente não sabia como. Estava esperando o momento certo. Gabriel só chegou ontem. Onde você ...?
— No cemitério. Interrompo.
Sei que Dima ficará chateado, porque, ecoando o conselho da minha psicóloga, ele insiste que essas visitas a um morto arruínam os resultados de vários dias de terapia.
Mas aparentemente não desta vez, porque Dima simplesmente encosta a minha cabeça em seu ombro e sussurra, passando os dedos pelos meus cabelos despenteados:
— Quer que eu mande ele para o infer*no? Que ele vá para a América dele.
Minha boca está prestes a se abrir para o tão desejado "sim!", mas imagens passam pela minha mente, fazendo-me sentir uma sensação seca e nauseante subir pela garganta. Sei com certeza que Gabriel contará tudo a ele. Ele só está esperando eu dar uma escorregada e dar a ele um motivo para bancar o salvador do tio.
Nem pensar.
Porque eu mesma vou contar tudo para o Dima. Com certeza. Amanhã. Ou depois de amanhã?
— Ele é seu único sobrinho. Digo, reprimindo a minha ironia inadequada. — Seria estranho se você o mandasse embora.
— Tem certeza? Pergunta Dima, hesitante.
Certeza de quê? De que Gabriel não vai me incomodar? Sim, tenho certeza de que vai, e não, não tenho certeza se estou sendo esperta tentando enganar o carrasco.
— Não nos veremos de novo até a cerimônia. Digo, proferindo algo que m*al consigo acreditar. — E posso aguentar por um dia.
Dima me leva para dentro de casa, me senta em uma cadeira e desaparece brevemente na cozinha, retornando com um copo de limonada e maçãs fatiadas. Ele ergue as sobrancelhas alegremente para me encorajar, sabendo muito bem que sou completamente apaixonada por maçãs vermelhas simples, com um toque de acidez. Consigo comê-las aos montes, como uma lagarta, sem nem perceber que estou roendo até o talo. Então, Dima, prudentemente, as corta em fatias, removendo as sementes e as membranas duras, com as quais eu, certa vez, me engasguei sem querer. Tão feio que precisei ir ao hospital.
E mesmo agora, quando tudo está quase perfeito e a névoa daquele encontro desagradável se dissipou, as palavras de Rafael sobre eu ser um azar ambulante e precisar ser vigiada de perto, especialmente se eu fizer coisas que uma pessoa normal simplesmente não conseguiria, estão gravadas na minha memória.
— Podemos ficar em casa se você quiser. Sugere Dima, enquanto eu, mais uma vez, me debato com lembranças dolorosas.
Eu quero, eu realmente quero, porque a ideia de ficar sentada na companhia de estranhos, ouvindo as suas piadas, sorrindo e respondendo me dá náuseas. Mas Dima tem a própria vida, e o ambiente em que ele "vive" tem suas próprias regras que devem ser seguidas para evitar cair no abismo de uma vida bem-sucedida. Todas essas reuniões obrigatórias, jantares, a necessidade de manter a aparência de bons relacionamentos com as pessoas certas. Tudo isso faz parte dele, e já que concordei em me tornar sua esposa, preciso, como Yulia gosta de dizer: estar à altura dele.
— Estou bem, vou tomar uma aspirina e já estarei pronta para te apoiar à mesa.
Ele não acredita em mim de imediato, me observando com um olhar inquisitivo por um instante, mas eu selo meu acordo com um beijo, e Dima se aproxima ansiosamente do sofá comigo. Ele me abraça, com ternura e carinho, aproximando-se como Joãozinho na Casa de Açúcar, atento ao momento certo para acariciar minha lombar.
Em certo ponto, chego a desejar que ele descesse ainda mais, para que suas mãos se tornassem um pouco mais fortes, deixando ao menos marcas temporárias em minhas nádegas. Então, estendo a mão para ele, pressionando meu corpo contra o seu, acariciando suavemente o seu peito por cima da camisa cara. Ele é sempre elegante, bem-vestido e exala o aroma de um mestre em sua arte, e eu adoro essa combinação explosiva porque, apesar de tudo, ela promete proteção, não destruição. E eu nunca mais me contentarei com nada menos. É por isso que vou me tornar sua esposa, para me esconder do mundo dos homens na torre impenetrável do casamento.
E quando Dima responde ao meu apelo e tenta separar meus lábios com um beijo, algo muda repentinamente, de forma impressionante. Nem sequer entendo o quê, mas o ar ao meu redor parece se encher de oxigênio rarefeito, e cada respiração é permeada por um aroma completamente diferente, e aqueles gemidos contra meus lábios. São estranhos.
Abro os olhos. E o olhar de um predador me atravessa até a nuca. A dor é tão insuportável que quero chorar, mas meus olhos estão secos de medo.
Gabriel?







