capítulo 6

Ele debocha, agarra as minhas bochechas e abre a boca bruscamente, como se eu fosse um peixe engolido por sua isca astuta, que ele extrairá até do meu estômago, não importa se isso dilacera meus pulmões e laringe. Sinto fisicamente ele me puxando, me guiando e me atormentando, e com seu beijo venenoso, ele me despedaça por dentro. E engole com prazer minhas tentativas patéticas de impedi-lo com seus lábios.

— Não! Eu o chuto... e olho nos olhos atônitos de Dima, a quem quase empurrei do sofá.

— Kira, eu... eu sinto muito, droga. Ele esfrega a ponte do nariz, faz uma careta e se levanta.

Só respiro aliviado quando o meu espaço pessoal está agradavelmente vazio novamente. Deus sabe, eu quero amá-lo, quero dar a ele o que ele merece, porque nenhum homem no mundo teria feito tanto por mim quanto ele. Mas toda vez que tentamos nos aproximar, algo acontece. Somos como dois roedores em bolas de plástico: batemos um no outro, fingindo que isso é intimi*dade física suficiente e que estamos perfeitamente felizes. Mas, na realidade, é muito mais complicado.

Principalmente hoje, agora, porque esse impulso nasceu do ódio e do medo, não do amor. E porque naquele breve momento, naquela fração de segundo, suficiente para o nascimento de uma Partícula de Tudo, eu me senti viva.

— Não estou te pressionando, tá bom? Dima procura em meu rosto sinais de perdão, e eu corro para ele para enterrar meu rosto em seu ombro.

Porque ele pode ver ali algo que retorce meu interior e enche minha alma de ódio, só que desta vez. Por mim mesma.

Meu psicólogo diz que foi o fogo que me encheu de um desejo de autodestruição. E, pela primeira vez em dois anos, não consigo contestar suas palavras, porque qualquer mulher normal no meu lugar já teria fugido do Anjo da Morte há muito tempo, mas eu, contra toda a lógica, espero escapar dele viva.

— Só preciso deitar um pouco. Digo hesitante, tropeçando nas palavras, porque pretendia culpar o cansaço das aulas, mas no último instante me lembrei de que tinha fugido com as minhas amigas depois da segunda aula.

E minha mentira desajeitada parece tão óbvia que corro para as escadas, para não olhar para trás e ver o homem que acabei de insultar sem querer com um beijo que era para outra pessoa.

Espero, Gabriel, que um dia você enfrente seu próprio monstro pessoal, e que ele devore seu coração imundo antes mesmo que você consiga respirar.

Gabriel

Estou praticamente preso no hotel o tempo todo.

Eu, um festeiro, um tarado e um fo*dão incansável, tenho saído por cinco dias seguidos só para pegar uma gostosona e transar com ela até ela não aguentar mais. E não me importo com o que chamam de "vad*ia"; a única coisa que importa é que a garota seja gostosa, não se preocupe com "só uma vez e depois a gente nunca mais se vê" e tenho camisinhas de sobra.

Porque aconteceu que naquela noite, depois que eu e a Kira nos encotramos, acordei molhado e com uma ereção tão dolorosa que eu queria uivar para a lua como um lobisomem. Fiquei deitado na cama, me balançando de um lado para o outro como se estivesse em choque, cercado pelos sons fantasmas da voz dela e pelo cheiro das suas lágrimas, e nada adiantava até eu me recompor.

Eu go*zei. Simplesmente ejaculei na minha mão e fiquei ali deitado, encarando o teto, sem saber o que me deixava mais inquieto: o sêmen endurecendo na minha barriga, formando um ponto pegajoso e frio, ou a visão dos olhos dela, verdadeiros kriptonitas, no último instante antes daquele orga*smo "manual". Eu apenas aceitei. E imaginei como se fosse ela quem estivesse me fazendo um bo*quete, olhando para cima, me sugando para dentro da sua boca quente, apertando meu pa*u com tanta força com as bochechas que eu queria morrer naqueles lábios imundos.

E a partir desse sonho, tudo desandou rapidamente. Era como se eu estivesse no topo de uma montanha-russa e, de repente, começasse a cair para trás, e o céu, que estivera tão perto, torcesse meu dedo do meio e desejasse ardentemente que ele se espatifasse na ignorância.

Uma vez, me meti numa briga com uns garotos meio burros, mas bem armados e apavorados, um dos quais achou que um tiro à queima-roupa seria uma boa resposta ao meu pedido para me dar um bo*quete. A bala atravessou meu corpo, e tive a sorte de escapar apenas com um leve susto, mas jamais esquecerei a sensação de um pedaço de aço afiado me queimando, como uma agulha atravessando uma boneca de massinha.

Até aquela noite, eu tinha certeza de que nada poderia ser mais repugnante.

Acontece que talvez não fosse algo físico, mas simplesmente o olhar dela enquanto eu go*zava em completo silêncio, em uma cama vazia.

Juro, se a Kira, a Prost*ituta, estivesse por perto, eu a teria estrangulado.

Mas, felizmente para minha mãe e para o alívio da minha reputação nada estelar, Kira morava do outro lado da cidade, e nossos caminhos nunca mais se cruzaram.

Até sexta-feira, quando a minha mãe ligou, deixando escapar sem querer sobre meu tio e sua viagem para as ensolaradas ilhas tropicais. Naturalmente, com a sua noiva. E, claro, minha mãe a odeia tanto quanto eu, porque o perdão é tabu na nossa família desde a época do meu pai, que nos ensinou, a mim e ao meu irmão, a sempre revidar.

Ela não sabe o que Kira fez nem como conheceu Rafael, e eu guardo esse segredo apenas em memória do meu irmão e porque não quero manchar a imagem dele. Para ela, ele sempre será uma cópia amenizada do meu pai, porque Rafael herdou tudo dele. Como costumávamos brincar, ele até roubou os meus olhos, porque na nossa família de brancos, eu sou o único de cabelo e pele mais escura.

Descobrir exatamente onde meu tio levou a boneca foi moleza. Algumas ligações para as pessoas certas e eu sei de tudo, até o bangalô que ele reservou para o fim de semana inteiro.

Políticos só acham que são bons em se esconder, mas, na realidade, a vida deles é uma longa e frenética luta entre dois vidros sob o microscópio de um jornalista.

A última coisa que faço antes de embarcar no avião é pegar uma acompanhante. Aquela que, sem hesitar, aceita transar por dinheiro.

Uma égua forte, quase tão alta quanto eu, com uma bun*da empinada de agachamentos, peitões e uma faixa de pelos pubianos bem cuidada, cor de chocolate.

Transo com ela no avião pelo menos três vezes. Acima das nuvens, fazendo piadas sujas sobre como tínhamos conquistado o "ápice do se*xo".

— Você parece tenso.

Uma boa garota, ela aceita tudo na boca: fica de lado e empina a bun*da para que eu possa dar uns t***s com a mão toda. Ela se esforça como uma profissional, até chegar à garganta. Aliás, ela é uma profissional.

E quando jogo a cabeça para trás para me perder naqueles lábios treinados, o único pensamento que me atormenta é o de matar completamente qualquer desejo de go*zar. Porque eu quero uma boca completamente diferente.

Por que diab*os você não me deu, Kira?

Empurro a cabeça da garota para longe, mesmo que ela esteja se esforçando e consiga gemer mesmo comigo na boca, mas eu não preciso dela agora. Não dela, não dessa transa vazia, que será apenas mais uma descarga no espírito das três primeiras.

— Qual é o seu nome? Pergunto à garota enquanto ela ajeita a roupa e se senta na cadeira à minha frente, retocando a maquiagem de forma imediata, sutil e experiente em questão de minutos.

— Sarah. Ela sorri, erguendo brevemente os olhos do espelho de mão. Outra mulher teria se ofendido, mas esta não se importa. Ela já se acostumou?

Mas, que diferença faz?

— Então, qual é a nossa história de fachada? Ela pergunta um pouco depois, dando um gole no champanhe que a aeromoça lhe trouxe.

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