Mundo de ficçãoIniciar sessãoA SENTENÇA
Maelyn
A porta mal tinha batido há cinco minutos quando os gritos começaram.
Eu estava sentada na cama, ainda tremendo da cena anterior, quando ouvi passos apressados no corredor. Muitos passos. Vozes abafadas. E então a porta do meu quarto se abriu de novo, sem cerimônia, e a mulher estava ali.
A mesma mulher. A que Magnus tinha demitido.
Só que agora ela não estava encolhida nem fingindo choro. Agora ela tinha plateia.
Atrás dela, mais cinco empregados se aglomeravam na porta.
Rostos que eu reconhecia das minhas caminhadas matinais, das refeições trazidas em bandejas, dos olhares de esguelha nos corredores. E atrás deles, recortado contra a luz do corredor, Magnus estava de volta e obviamente sem paciência.
A mulher avançou dois passos para dentro do quarto e se ajoelhou próxima de Magnus mas ele instintivamente se afastou e o seu assistente tomou a frente como se fosse uma barreira.
— Insolente, não sabe das regras? O que está fazendo? — O assistente a alertou e acredito que seja pela razão de ela quase encostar no patrão.
— Senhor! — A voz dela era um alarido, um espetáculo. — Senhor, eu imploro, não me mande embora!
Magnus não se mexeu.
Ela apontou para mim com o dedo trêmulo, os olhos marejados, agora sim, agora ela conseguia chorar.
— Foi ela! Desde que melhorou, ela vem maltratando a gente! Arrogante, esnobe, age como se fosse dona da casa! Só porque o senhor deu um quarto bom pra ela, ela vive se gabando, dizendo que merece, que a gente não passa de serviçal!
Meu estômago caiu.
— Isso é mentira — eu disse, mas a voz saiu fraca. Pequena demais para o teatro diante de mim.
A mulher continuou, agora se voltando para os outros empregados, ela foi buscar reforço, era óbvio, ninguém me queria ali.
— Ela humilha a gente! Diz que a gente tem nojo dela, que a gente não presta, que o senhor devia mandar todo mundo embora e contratar gente de verdade!
Os empregados murmuravam entre si. Olhares lancinantes me perfuravam.
— Eu nunca disse nada disso — tentei de novo, mas ninguém me ouvia.
A mulher bateu no peito, dramática.
— Eu trabalho aqui há cinco anos! Cinco anos servindo com lealdade! E agora vou ser mandada embora porque ela mentiu pro senhor?
— Ela que mentiu! — A raiva subiu, quente, incontrolável. — Ela que armou tudo, se jogou no chão, apertou o próprio braço...
— Cale a boca!
A voz de Magnus cortou o ar como um chicote.
O silêncio foi instantâneo.
Ele caminhou lentamente para dentro do quarto. Os empregados se afastaram para dar passagem. A mulher no chão continuava soluçando, mas agora baixinho, contida.
Ele parou diante de mim.
A aba do chapéu escondia seus olhos, mas eu sentia o peso deles. A frieza. O julgamento.
— Maelyn Tafyllo — a voz dele era calma. Tão calma que doía. — Você sabe qual é a sua função nesta casa? E está me causando todos esses problemas?
Eu abri a boca. Fechei. Não sabia o que dizer.
— Eu perguntei uma coisa — ele insistiu. — Sabe ou não sabe?
— Eu... — engoli seco. — Sei que estou aqui porque o senhor me tirou da prisão. Sei que devo obedecer suas regras.
— E maltratar meus funcionários faz parte dessas regras?
— Eu não maltratei ninguém!
Ele ignorou completamente a minha resposta.
— Se tem uma coisa que não tolero nesta casa — continuou, a voz ainda pior por ser tão controlada — são pessoas maltratando quem trabalha para mim. Você deveria estar grata, Maelyn. Grata por ter um teto, por ter comida, por não estar apodrecendo naquela cela. Em vez disso, age como se tivesse direitos. Como se fosse superior, se todas essas pessoas estão testemunhando o que eu devo fazer?
A mulher no chão soluçou mais alto, em claro apoio às palavras dele.
Eu olhei para Magnus. Para a figura imponente, o rosto oculto, as mãos enluvadas. Para os empregados na porta, os olhares de desprezo. Para a mulher ajoelhada, que agora escondia o rosto nas mãos, mas, eu sabia, sorria por trás delas.
E algo dentro de mim simplesmente... desistiu.
Não adiantavam, Nunca adiantava.
Eu abaixei a cabeça.
— Já estou bem acostumada com isso.
A voz saiu baixa. Cansada. Derrotada.
Magnus parou.
Por um segundo, apenas um segundo, algo mudou na postura dele. Um leve tilt na cabeça. Uma hesitação quase imperceptível.
— O quê?
— Nada. — Eu não levantei os olhos. — O senhor tem razão. Devo ser grata. Peço desculpas se ofendi alguém.
Foi então que uma imagem atravessou minha mente como um relâmpago.
Outra casa. Outro corredor, uma cena similar já vivida.
Lídia, a irmã de Azael, esbarrando de propósito num vaso caríssimo e apontando para mim.
"Foi ela, a desajeitada!"
Azael, sem nem olhar para mim: "Maelyn, vai para o quarto. Depois a gente conversa."
Ele nunca conversava, ele me trancava por dias, me maltratava e comia pelo menos uma vez por dia se ele lembrasse, ate os empregados não me levavam mais a serio, e parece que aqui, o cenário não mudou, ainda me lembro de tudo!
Lídia rindo pelas costas.
Eu, sempre eu, carregando a culpa sem ter o direito da duvida e uma investigação mais justa.
Eu pisquei, e a imagem sumiu.
[..]
Magnus ainda estava ali. Parado. Me olhando.
— Você não vai dizer o que aconteceu? O que você realmente disse? — perguntou ele, e havia algo diferente na voz. Algo que eu não soube identificar, como se ele esperasse alguma reação minha.
Eu levantei a cabeça.
Olhei para ele. Para o chapéu que escondia seus olhos. Para as luvas que cobriam suas mãos. Para a figura inteira, impecável e distante.
E, sem lágrimas, porque já tinham secado havia muito tempo, eu respondi.
— Faz diferença?
Ele não respondeu, mas parece que isso o desapontou, ele cerrou os punhos como se não tivesse se conformado.
— Eu não sou nada nesta casa — continuei, a voz surpreendentemente firme. — Não se preocupe comigo, senhor Blackthone. Se a senhora disse que eu fiz, eu fiz. Se os outros dizem que eu sou arrogante, eu sou. Se é mais fácil assim, então que seja.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Magnus virou a cabeça ligeiramente para o lado, onde seu assistente, aguardava imóvel. Eles trocaram um olhar que eu não pude ver, mas que pareceu carregado de significado.
Depois, Magnus suspirou.
Foi um som pesado. Cansado. Como quem toma uma decisão que preferia não tomar.
— Já que ela assume a culpa — disse ele, e a frieza voltou, total —, mudem-na de quarto.
Meu coração deu um salto, mas não doeu.
— Reserve um quarto simples no segundo andar. Parece que cometi um erro em lhe dar qualquer privilégio.
O assistente assentiu.
Magnus se virou para a porta.
A mulher no chão levantou os olhos para ele, ainda soluçando, mas eu vi o brilho de triunfo neles. Os empregados cochichavam.
E eu fiquei ali.
Parada.
Olhando para a figura de Magnus Blackthone enquanto ele saía, as costas largas, o chapéu impecável, as luvas escondendo suas mãos.
Quando a porta fechou, o silêncio voltou.
Mas dentro de mim, algo tinha mudado.
Era uma certeza antiga, desgastada, que eu conhecia bem:
Não importa onde eu vá, serei sempre a culpada.
Na mansão de Azael, na prisão, agora aqui, Sempre a errada. Sempre a que merece o pior.
Olhei para o quarto, o quarto lindo que em um mês aprendera a chamar de meu, mesmo sabendo que não era.
As cortinas de seda. A cama macia. A luz que entrava pelas janelas.
Tudo isso iria embora.
E eu iria para um quarto simples. No segundo andar. Mais perto dos empregados que me odiavam. Mais longe de qualquer ilusão de segurança.
O assistente ainda estava na porta. Ele pigarreou.
— A senhora precisa reunir seus pertences.
Eu quase ri. Pertences. Que pertences? Eu tinha chegado ali de maca, vestindo uma camisola de hospital. Tudo o que tinha fora dado por eles.
— Claro — murmurei.
Ele saiu, Fiquei sozinha.
Andei até a janela. Olhei para o jardim lá embaixo, perfeito, simétrico, tão controlado quanto tudo naquela casa.
Não seria pior do que estar na prisão.
Eu repeti isso para mim mesma como um mantra.
Não seria pior que estar na prisão.
Sei que em breve vou poder sair e finalmente voltar aos poucos a ser a Maelyn Tafyllo, e limpar meu próprio nome.







