Cap.4

Cap.4

A empregada colocou a mão no próprio braço, bem onde a manga do uniforme terminava, e apertou. Apertou com força, até a pele ficar vermelha. Depois levou a mão ao cabelo, bagunçando-o, e deu um passo para trás, direto na direção da mesinha de cabeceira.

O tombo foi ensaiado.

A mulher caiu perto da cama, os olhos arregalados, a respiração acelerada, mas não de dor. De performance. Ela abriu a boca e o grito ecoou pelo quarto:

— Pelo amor de deus, não b**e em mim! Eu só estava fazendo meu trabalho!

Maelyn congelou.

— O quê? Eu não... eu não fiz nada!

A mulher se encolheu no chão, protegendo o rosto com os braços, mas os olhos, os olhos estavam abertos, fixos em Maelyn, e havia triunfo neles.

— A senhora não precisa fazer isso! A senhora já tem tudo! O senhor dá tudo, e a gente só tá aqui pra servir, a senhora não tem direito de maltratar a gente!

— Eu não maltratei ninguém! — Maelyn avançou, estendendo a mão para ajudar a mulher a se levantar, porque era o instinto, porque era o certo. — Pelo amor de Deus, levanta, você caiu, deixa eu te ajudar...

Sua mão fechou no braço da mulher.

Foi quando a porta se abriu.

Magnus Blackthone estava ali.

O chapéu. As luvas. A postura ereta. O rosto oculto nas sombras. Ele enchia a moldura da porta como uma sentença.

E no segundo em que seus olhos, invisíveis, mas presentes, pousaram na cena, a mulher no chão gritou novamente:

— Não b**e em mim! Pelo amor de deus, senhor, ela tá me b**endo! Eu só vim arrumar a cama e ela...

Maelyn soltou o braço da mulher como se ele queimasse.

— Não é verdade! — A voz saiu aguda, desesperada. — Ela caiu sozinha! Eu não toquei nela, eu só tentei ajudar...

A mulher soluçava no chão, um espetáculo perfeito de tragédia. Os cabelos desgrenhados. A marca vermelha no braço, onde ela mesma apertara. O corpo encolhido em posição de defesa.

Magnus não se moveu.

O silêncio durou uma eternidade.

Quando ele falou, a voz era calma. Tão calma que gelava o sangue.

— Levante-se.

A mulher obedeceu, ainda soluçando, os olhos baixos.

— Senhor, eu juro, eu só estava fazendo meu trabalho, e ela...

— Eu disse para se levantar. — A voz dele não mudou, mas a mulher calou-se instantaneamente. — Agora, explique.

Ela apontou para Maelyn, o dedo trêmulo.

— Foi ela, senhor. Eu entrei para arrumar o quarto, e ela já estava aqui. Começou a gritar comigo, disse que eu não tinha direito de entrar, que o quarto é dela... e quando eu tentei sair, ela me segurou e apertou meu braço. O senhor vê? — Ela mostrou a marca vermelha. — Ela fez isso. Depois me empurrou.

Maelyn sentiu o mundo girar.

— É mentira. Tudo mentira. Ela entrou, começou a mexer na cama sem motivo, eu só perguntei se precisava de ajuda, e ela... ela mesma se jogou no chão. Eu juro.

Magnus virou ligeiramente a cabeça. A aba do chapéu escondia completamente sua expressão.

— Você está dizendo que ela inventou tudo?

— Sim! — Maelyn avançou um passo, as mãos estendidas, implorando. — Eu nunca bateria em ninguém. Eu não sou assim. Pelo amor de Deus, você tem que acreditar em mim.

Ele ficou em silêncio por mais um instante.

Depois, lentamente, caminhou até a mulher.

Parou diante dela. A diferença de altura era imponente, ele parecia uma torre ao lado da figura encolhida.

— Você trabalha para mim há quanto tempo?

A mulher engoliu seco.

— Cinco anos, senhor.

— Cinco anos. — Ele repetiu, pensativo. — E já teve alguma reclamação?

— Não, senhor. Nunca. Eu sempre fui dedicada, o senhor pode perguntar a qualquer um...

— E ela — ele apontou para Maelyn sem olhar — está aqui há um mês.

A mulher não respondeu. Apenas baixou a cabeça.

O silêncio se esticou como corda prestes a arrebentar.

— Senhor Blackthone — Maelyn começou, a voz trêmula. — Eu juro, eu...

Ele ergueu a mão enluvada, ordenando silêncio.

Ela obedeceu.

Magnus se virou para a mulher.

— Você está dizendo a verdade.

A mulher levantou a cabeça tão rápido que o pescoço estalou.

— Senhor, eu juro, ela... ela fez isso! Pode perguntar a todos!

— Seus olhos estão secos. — A voz dele era um corte. — Quem chora de verdade tem os olhos vermelhos, Você está apenas fazendo barulho.

A mulher empalideceu.

— senhor... eu fui maltratada em sua mansão, essa mulher... ela já vem maltratando os empregados, ela fez isso... não só comigo, como também com meu braço direito.

O rapaz que estava a porta confirmou.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Magnus não gritou. Não esbravejou. Apenas disse, com a mesma frieza de sempre.

— Você está demitida. Saia da minha casa em uma hora. Vou pagar seus honorários e compensação.

A mulher tentou falar, mas ele já tinha virado as costas.

Ela saiu cambaleando, os olhos arregalados, o corpo tremendo.

A porta fechou atrás dela.

E Maelyn ficou sozinha com ele.

O silêncio agora era diferente ainda mais pesado, apesar de parecer que ele a defendeu, não era isso que ela sentia.

Magnus não a olhava. Estava de perfil, a mão ainda na maçaneta, o chapéu inclinado.

— Por que fez isso? — Maelyn perguntou, a voz um fio.

— Fiz o quê?

— você me defendeu...

Ele virou lentamente a cabeça. Sob a aba do chapéu, ela imaginou os olhos, frios, calculistas, fixos nela.

— Não acreditei. Apenas ajo com fatos, demiti porque poderia ser foco de outras confusões, se eu não posso te expulsar, alguém tem que sair.

— Mas... ela trabalha aqui há cinco anos. Eu sou uma estranha. Uma criminosa, para todo mundo. Sou mesmo uma prioridade aqui?

Ele não respondeu imediatamente.

Quando falou, a voz veio ainda mais baixa:

— Porque você é minha responsabilidade agora. O que acontece com você, dentro desta casa, é problema meu. Não importa o que eu pense de você, ou o que você faz, mas espero que se comporte, não quero ter que tirar mais pessoas de confiança da casa, por causa de seu comportamento.

Maelyn engoliu seco.

— Então... você ainda acha que eu sou culpada?

Ele não respondeu.

Apenas abriu a porta e saiu, deixando-a sozinha com a pergunta ecoando no quarto vazio, deixando aquele ar confuso, ele se importava ou não?

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