Mundo de ficçãoIniciar sessãoA empregada colocou a mão no próprio braço, bem onde a manga do uniforme terminava, e apertou. Apertou com força, até a pele ficar vermelha. Depois levou a mão ao cabelo, bagunçando-o, e deu um passo para trás, direto na direção da mesinha de cabeceira.
O tombo foi ensaiado.
A mulher caiu perto da cama, os olhos arregalados, a respiração acelerada, mas não de dor. De performance. Ela abriu a boca e o grito ecoou pelo quarto:
— Pelo amor de deus, não b**e em mim! Eu só estava fazendo meu trabalho!
Maelyn congelou.
— O quê? Eu não... eu não fiz nada!
A mulher se encolheu no chão, protegendo o rosto com os braços, mas os olhos, os olhos estavam abertos, fixos em Maelyn, e havia triunfo neles.
— A senhora não precisa fazer isso! A senhora já tem tudo! O senhor dá tudo, e a gente só tá aqui pra servir, a senhora não tem direito de maltratar a gente!
— Eu não maltratei ninguém! — Maelyn avançou, estendendo a mão para ajudar a mulher a se levantar, porque era o instinto, porque era o certo. — Pelo amor de Deus, levanta, você caiu, deixa eu te ajudar...
Sua mão fechou no braço da mulher.
Foi quando a porta se abriu.
Magnus Blackthone estava ali.
O chapéu. As luvas. A postura ereta. O rosto oculto nas sombras. Ele enchia a moldura da porta como uma sentença.
E no segundo em que seus olhos, invisíveis, mas presentes, pousaram na cena, a mulher no chão gritou novamente:
— Não b**e em mim! Pelo amor de deus, senhor, ela tá me b**endo! Eu só vim arrumar a cama e ela...
Maelyn soltou o braço da mulher como se ele queimasse.
— Não é verdade! — A voz saiu aguda, desesperada. — Ela caiu sozinha! Eu não toquei nela, eu só tentei ajudar...
A mulher soluçava no chão, um espetáculo perfeito de tragédia. Os cabelos desgrenhados. A marca vermelha no braço, onde ela mesma apertara. O corpo encolhido em posição de defesa.
Magnus não se moveu.
O silêncio durou uma eternidade.
Quando ele falou, a voz era calma. Tão calma que gelava o sangue.
— Levante-se.
A mulher obedeceu, ainda soluçando, os olhos baixos.
— Senhor, eu juro, eu só estava fazendo meu trabalho, e ela...
— Eu disse para se levantar. — A voz dele não mudou, mas a mulher calou-se instantaneamente. — Agora, explique.
Ela apontou para Maelyn, o dedo trêmulo.
— Foi ela, senhor. Eu entrei para arrumar o quarto, e ela já estava aqui. Começou a gritar comigo, disse que eu não tinha direito de entrar, que o quarto é dela... e quando eu tentei sair, ela me segurou e apertou meu braço. O senhor vê? — Ela mostrou a marca vermelha. — Ela fez isso. Depois me empurrou.
Maelyn sentiu o mundo girar.
— É mentira. Tudo mentira. Ela entrou, começou a mexer na cama sem motivo, eu só perguntei se precisava de ajuda, e ela... ela mesma se jogou no chão. Eu juro.
Magnus virou ligeiramente a cabeça. A aba do chapéu escondia completamente sua expressão.
— Você está dizendo que ela inventou tudo?
— Sim! — Maelyn avançou um passo, as mãos estendidas, implorando. — Eu nunca bateria em ninguém. Eu não sou assim. Pelo amor de Deus, você tem que acreditar em mim.
Ele ficou em silêncio por mais um instante.
Depois, lentamente, caminhou até a mulher.
Parou diante dela. A diferença de altura era imponente, ele parecia uma torre ao lado da figura encolhida.
— Você trabalha para mim há quanto tempo?
A mulher engoliu seco.
— Cinco anos, senhor.
— Cinco anos. — Ele repetiu, pensativo. — E já teve alguma reclamação?
— Não, senhor. Nunca. Eu sempre fui dedicada, o senhor pode perguntar a qualquer um...
— E ela — ele apontou para Maelyn sem olhar — está aqui há um mês.
A mulher não respondeu. Apenas baixou a cabeça.
O silêncio se esticou como corda prestes a arrebentar.
— Senhor Blackthone — Maelyn começou, a voz trêmula. — Eu juro, eu...
Ele ergueu a mão enluvada, ordenando silêncio.
Ela obedeceu.
Magnus se virou para a mulher.
— Você está dizendo a verdade.
A mulher levantou a cabeça tão rápido que o pescoço estalou.
— Senhor, eu juro, ela... ela fez isso! Pode perguntar a todos!
— Seus olhos estão secos. — A voz dele era um corte. — Quem chora de verdade tem os olhos vermelhos, Você está apenas fazendo barulho.
A mulher empalideceu.
— senhor... eu fui maltratada em sua mansão, essa mulher... ela já vem maltratando os empregados, ela fez isso... não só comigo, como também com meu braço direito.
O rapaz que estava a porta confirmou.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Magnus não gritou. Não esbravejou. Apenas disse, com a mesma frieza de sempre.
— Você está demitida. Saia da minha casa em uma hora. Vou pagar seus honorários e compensação.
A mulher tentou falar, mas ele já tinha virado as costas.
Ela saiu cambaleando, os olhos arregalados, o corpo tremendo.
A porta fechou atrás dela.
E Maelyn ficou sozinha com ele.
O silêncio agora era diferente ainda mais pesado, apesar de parecer que ele a defendeu, não era isso que ela sentia.
Magnus não a olhava. Estava de perfil, a mão ainda na maçaneta, o chapéu inclinado.
— Por que fez isso? — Maelyn perguntou, a voz um fio.
— Fiz o quê?
— você me defendeu...
Ele virou lentamente a cabeça. Sob a aba do chapéu, ela imaginou os olhos, frios, calculistas, fixos nela.
— Não acreditei. Apenas ajo com fatos, demiti porque poderia ser foco de outras confusões, se eu não posso te expulsar, alguém tem que sair.
— Mas... ela trabalha aqui há cinco anos. Eu sou uma estranha. Uma criminosa, para todo mundo. Sou mesmo uma prioridade aqui?
Ele não respondeu imediatamente.
Quando falou, a voz veio ainda mais baixa:
— Porque você é minha responsabilidade agora. O que acontece com você, dentro desta casa, é problema meu. Não importa o que eu pense de você, ou o que você faz, mas espero que se comporte, não quero ter que tirar mais pessoas de confiança da casa, por causa de seu comportamento.
Maelyn engoliu seco.
— Então... você ainda acha que eu sou culpada?
Ele não respondeu.
Apenas abriu a porta e saiu, deixando-a sozinha com a pergunta ecoando no quarto vazio, deixando aquele ar confuso, ele se importava ou não?







