Cap.6

Cap.6

Narração

Os passos de Magnus ecoavam no corredor silencioso.

Ele caminhava com a mesma postura ereta de sempre, o chapéu firmemente colocado, as luvas de couro preto cobrindo cada centímetro das suas mãos. Bruno, seu assistente, acompanhava-o meio passo atrás, os olhos fixos no chão, como se temesse perturbar o silêncio e mantendo uma distância que parecia ser algo padrão naquela mansão.

Eles tinham acabado de sair do novo quarto de Maelyn, um cômodo pequeno, sem luxo, sem vista, sem nada que lembrasse o privilégio do primeiro. Magnus ordenara a mudança, e ela aceitara. Sem uma palavra. Sem um olhar. Sem uma lágrima.

Isso o incomodava mais do que deveria.

— Ela protestou, Quando eu sai deixando o aviso? — Magnus perguntou, a voz baixa, mas cortante.

Bruno ergueu os olhos, surpreso com a pergunta.

— Não, senhor. Ela apenas... aceitou.

Magnus parou de andar.

Bruno parou também, tenso.

— Aceitou? — Magnus repetiu, como se testasse a palavra e insistiu. — Não disse nada? Não questionou? Não pediu para falar comigo?

— Não, senhor. Acompanhou a empregada até o novo quarto em silêncio. Ajudou a carregar as poucas coisas que tinha. Depois sentou na cama e ficou olhando pela janela.

Magnus ficou em silêncio por um longo momento.

Quando falou, havia algo na voz dele que Bruno não soube identificar. Não era raiva, Era... cansaço?

— Realmente, essa Maelyn perdeu a identidade. Não é nem de longe a mulher que eu esperava encontrar.

Bruno hesitou. Depois, com cautela, arriscou:

— Senhor, se me permite acrescentar...

— Fale.

— Maelyn se tornou isso. Não que o peso dela seja problema, mas... ela agora é fraca. Submissa. Parece ter desistido de tudo. Como ela será útil assim? E ainda há o risco de ela continuar apaixonada e cega pelo ex-marido. Se for o caso, qualquer investimento nela será em vão.

Magnus recomeçou a andar, mais devagar agora, como se carregasse o peso daquelas palavras.

— Sim. A paixão cega é a pior das fraquezas.

Ele parou diante de uma janela que dava para os jardins. A luz da manhã entrava em feixes dourados, iluminando a poeira em suspensão. Por um instante, Bruno quase viu o rosto do patrão refletido no vidro, mas o chapéu escondia tudo, como sempre.

— Os médicos disseram que ela ainda tem problemas cardíacos — Magnus continuou, pensativo. — O peso dela ainda influencia, mas está melhorando. Fisicamente, ela está respondendo bem ao tratamento.

— E emocionalmente? — Bruno perguntou.

Magnus não respondeu imediatamente.

Quando falou, foi como se estivesse pensando em voz alta.

— Vamos observar. Vamos ver o que ela vai fazer agora que pode se levantar. Vamos ver o que acontece quando ela descobrir o que o ex-marido anda fazendo. As notícias, os negócios, a vida que ele construiu às custas dela as coisas que aos poucos continua usufruindo.

Ele se virou para Bruno, e mesmo sob a sombra do chapéu, o assistente sentiu o peso daquele olhar.

— Quero ver se ela reage. Se sente raiva. Se tem algum fogo dentro dela. Só assim saberemos se vale a pena manter esse acordo de casamento.

Bruno assentiu.

— E se ela não reagir, senhor?

Magnus deu de ombros, um gesto mínimo, quase imperceptível.

— Então ela não me serve. E seguiremos o plano original, manter o acordo, cumprir o prazo, e seguir caminhos separados, meu avó está morrendo e

Ele começou a andar novamente, mas parou depois de alguns passos.

— Bruno.

— Sim, senhor?

— Há outra coisa. Os exames que fizemos durante a cirurgia dela... os resultados genéticos. Preciso que você confirme com o laboratório. Se o que eu suspeito for verdade, preciso saber os resultados e também sobre essas mudanças...

Ele não terminou a frase.

Bruno entendeu. Não precisava de explicações.

— Vou cuidar disso pessoalmente, senhor.

— Em uma semana comece a trocar todos os empregados da casa!

— Já solicitei o recrutamento ao RH.

Magnus assentiu e seguiu corredor afora, deixando Bruno sozinho com seus pensamentos.

O assistente olhou para a porta do novo quarto de Maelyn, no final do corredor, e suspirou.

— Coitada — murmurou para si mesmo. — Ela não faz ideia do que está por vir.

E, com um último olhar, seguiu seu patrão.

Maelyn estava sentada na cama, exatamente como Bruno descrevera.

A janela era estreita, mas deixava entrar luz suficiente. Lá fora, o jardim se estendia verde e perfeito, um contraste cruel com o caos que era sua vida.

Ela não pensava em nada.

Ou pensava em tudo.

Na empregada que a acusou. No olhar frio de Magnus. Na facilidade com que aceitara a mudança de quarto.

Na prisão. No coma. Em Azael. Em Melina. Na mãe doente, em algum lugar, sem notícias, mas que não conseguia uma oportunidade para perguntar a Magnus como ela estava.

Um turbilhão de memórias e dores que ela aprendera a empurrar para o fundo.

Mas agora, sozinha naquele quarto simples com uma televisão ao menos algo para se distrair, sem nada para fazer além de existir, as coisas começavam a subir.

Ela apertou os olhos com força.

Não pensar. Não sentir. Não.

Foi quando a televisão na parede, pequena, antiga, muito diferente do plasma do outro quarto, ligou sozinha.

Maelyn virou a cabeça devagar.

E viu o rosto de Azael na tela.

Ele estava sorrindo. Perfeito. Carismático. Ao lado dele, Melina, com um vestido vermelho e um sorriso de vencedora.

A legenda dizia:

"Azael Tafyllo anuncia expansão internacional 'Minha ex-mulher tentou me destruir, mas estou mais forte do que nunca.'"

O sangue de Maelyn gelou.

Suas mãos começaram a tremer.

E, pela primeira vez em muito tempo, algo acordou dentro dela.

— Eu vou mesmo deixar que esse homem me vença assim?

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP