O Quarto do Lobo

Capítulo 3

A subida pela escadaria de mármore da mansão Almeida pareceu uma marcha inevitável. Cada degrau que eu vencia, com a cauda do vestido de noiva arrastando atrás de mim, era um passo para mais longe da vida que eu conhecia. Gustavo não disse uma palavra. Apenas me guiava com a mão firme em minhas costas, um toque que eu não sabia se era apoio ou garantia de que eu não fugiria.

O andar superior era silencioso, iluminado por luz indireta que destacava as obras de arte nas paredes. Paramos diante de uma porta de madeira escura e imponente.

— Onde estão as minhas coisas? — perguntei, minha voz parecendo pequena no corredor amplo. — Eu vi as malas sendo trazidas do carro, mas não as vi no quarto de hóspedes onde Pérola ficaria.

Gustavo abriu a porta e entrou primeiro, acendendo as luzes no painel digital. O quarto era amplo, com um luxo moderno e frio. No centro, uma cama king-size com lençóis de seda cinza dominava o espaço. No canto, perto do closet aberto, estavam minhas malas de couro gastas. Elas pareciam deslocadas naquele ambiente.

— Não existe quarto de hóspedes para você, Ana — disse Gustavo, tirando o paletó e jogando-o sobre uma poltrona. — Eu fui claro na limusine. Cláusula 7.3. Coabitação plena.

— Você não pode estar falando sério. — Senti um tremor nas pernas. — Pensei que fosse apenas uma formalidade para os jornais, para a família. Ninguém está nos vendo aqui dentro.

Gustavo se virou, desabotoando os punhos da camisa branca com calma.

— Eu não assino contratos de fachada, Ana. Se eu pago por uma esposa, eu tenho uma esposa. A partir de hoje, este é o seu quarto. Esta é a sua cama. E aquele — apontou para o closet — é onde você guardará suas roupas. Ou o que restar delas quando eu mandar renovar o seu guarda-roupa.

— Eu não vou dormir na mesma cama que você — afirmei, tentando parecer firme. — Posso dormir no sofá ou no chão, mas não com você.

Ele soltou um riso curto e caminhou até mim. Recuuei até sentir minhas costas na porta fechada. Gustavo parou a poucos centímetros, apoiando as mãos na madeira ao meu redor. O cheiro de sândalo e o calor do corpo dele eram difíceis de ignorar.

— Você ainda não entendeu a gravidade da sua situação — disse em voz baixa. — Você não está aqui para negociar. Você é o pagamento de uma dívida de cem milhões de reais que seu pai não pôde honrar. Você é a garantia, Ana. E eu nunca deixo minha garantia fora da minha vista.

— Isso é tortura — sussurrei, desviando o olhar.

— Isso é o cumprimento de um acordo.

Ele estendeu a mão e retirou o grampo que prendia meu véu. A renda caiu no chão, liberando meu cabelo.

— Agora tire esse vestido. Ele me lembra a sua irmã, e eu já disse que ela é um tédio.

O pânico subiu pela minha garganta.

— Eu... eu não consigo abrir o zíper sozinha. É nas costas.

Gustavo deu um sorriso leve.

— Então temos nosso primeiro problema técnico do casamento.

Ele se afastou e caminhou até um pequeno bar, servindo-se de uma dose de uísque. O gelo estalou no copo.

— Sorte a sua que o contrato me obriga a ser um marido prestativo.

Ele voltou, girando-me com firmeza para que eu ficasse de costas. Senti o metal frio do relógio dele encostar na minha pele enquanto ele encontrava o zíper. O som do fecho descendo rompeu o silêncio do quarto. O vestido cedeu, e o ar frio tocou minha pele agora coberta apenas pela lingerie.

— Você é mais inteligente que a Pérola, Ana — murmurou perto do meu ouvido. — Mas seu corpo é tão transparente quanto o dela. Seu coração está batendo tão forte que posso senti-lo. Do que você tem medo? Do contrato... ou de descobrir que sempre quis estar aqui?

Eu me virei rapidamente, segurando o vestido contra o peito.

— Eu nunca quis você, Gustavo. Eu odeio o que você representa. Odeio o jeito que você trata as pessoas como números em uma planilha.

Ele tomou um gole do uísque sem tirar os olhos de mim.

— Números não mentem, Ana. Sentimentos sim.

Ele caminhou até o banheiro e parou na porta.

— Vá tomar seu banho. Eu estarei esperando. E não tente se trancar. Todas as fechaduras desta casa respondem apenas à minha digital. Inclusive a deste quarto.

Ele entrou no banheiro e fechou a porta, deixando-me sozinha com o silêncio e com aquela cama enorme no centro do quarto.

Corri até minhas malas, procurando qualquer coisa que servisse como armadura. Só encontrei camisolas de seda que meu pai, em sua crueldade, havia mandado comprar para a noite de núpcias de Pérola.

Sentei-me na beirada da cama e enterrei o rosto nas mãos. O relógio na parede marcava meia-noite. O dia do meu casamento havia acabado, mas meu pesadelo estava apenas começando.

Vinte minutos depois, o som da água parou no banheiro. Meu coração acelerou novamente.

A porta se abriu e Gustavo saiu usando apenas uma calça de pijama de seda preta. O peito nu revelava um corpo definido e uma cicatriz atravessando o ombro esquerdo. Ele parou ao me ver sentada na mesma posição, envolta em um robe de cetim champanhe que escondia muito pouco.

— O que foi? — perguntou com indiferença. — Esperando que eu a carregue para a cama?

— Eu... eu não posso fazer isso. Por favor, Gustavo. Me dê um tempo.

Ele caminhou até a cama e se deitou, cruzando os braços atrás da cabeça, completamente à vontade.

— O tempo acabou quando você disse "sim" na igreja, Ana. Apague as luzes e deite-se. Agora.

Apaguei as luzes pelo painel, deixando o quarto iluminado apenas pela luz da lua que entrava pelas janelas de vidro. Com movimentos lentos, deitei-me na beirada oposta da cama, o mais longe possível dele. O colchão era macio demais, quase afundando sob meu peso.

Fiquei imóvel, ouvindo a respiração dele. Pensei que talvez ele dormisse e que, por aquela noite, o contrato estivesse satisfeito apenas com minha presença.

Mas alguns minutos depois senti o colchão ceder.

O braço de Gustavo envolveu minha cintura com força, puxando-me para trás até que minhas costas encostassem em seu peito.

— O que você está fazendo? — exclamei, tentando me soltar.

— Cumprindo a cláusula 4.1, esposa — sussurrou perto do meu pescoço, seu braço firme ao redor de mim. — Durma. Amanhã cedo temos uma reunião com o conselho da sua fábrica. E você vai precisar de energia para explicar por que os lucros caíram 40% enquanto você brincava de ser a irmã invisível.

Fechei os olhos com força, sentindo o calor do corpo dele.

Eu era uma prisioneira no quarto do lobo.

E o pior de tudo não era o medo…

era o fato de que, naquele abraço forçado, meu corpo não estava lutando contra ele.

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