Início / Romance / Na Cama Do Meu Cunhado / A Cláusula de Contingência
Na Cama Do Meu Cunhado
Na Cama Do Meu Cunhado
Por: Any Ferreira
A Cláusula de Contingência

Capítulo 1

O cetim branco do vestido de noiva era pesado, frio e parecia carregar o peso de um cadáver. Olhei para o reflexo no espelho do camarim luxuoso da Catedral da Sé e não reconheci a mulher que me encarava. Sob as camadas de renda francesa e a tiara de diamantes que valia mais do que a minha vida, eu não era Ana. Eu era um simulacro. Uma impostora.

— Ela não vai voltar, Ana. Pare de olhar para a porta como se um milagre fosse acontecer.

A voz do meu pai, Arthur Silva, soou como um estalo de chicote no silêncio do quarto. Ele estava parado no canto, as mãos trêmulas segurando um copo de uísque que ele certamente não deveria estar bebendo antes de me levar ao altar.

— Ela fugiu com o Ricardo, não foi? — Minha voz saiu num sussurro rouco, a garganta seca pelo pânico. — Pérola nos abandonou.

— Ela foi uma covarde! — Meu pai explodiu, batendo o copo na penteadeira de mármore. — Mas o contrato não se importa com os sentimentos da sua irmã. O contrato exige uma noiva da linhagem Silva. Se não houver um casamento hoje, às nove da manhã, o Gustavo Almeida executará a dívida. Sabe o que isso significa?

Eu sabia. Significava o despejo da minha mãe doente da clínica onde recebia tratamento. Significava o nome da nossa família na lama e, muito provavelmente, o meu pai atrás das grades por fraude financeira.

— Eu sou o sacrifício — eu disse, sentindo uma lágrima solitária ameaçar borrar a maquiagem impecável que as esteticistas levaram três horas para fazer. — Você está me vendendo para o homem que deveria ser meu cunhado.

Meu pai se aproximou e segurou meus ombros. Não era um abraço de conforto; era um aperto de posse.

— Você é a única que pode assinar aquele registro, Ana. Você tem o rosto dela, o mesmo sangue. Coloque esse véu, caminhe por aquele corredor e não abra a boca. O Gustavo quer o controle da fábrica e a aliança política que este casamento traz. Ele não vai notar a diferença sob a luz baixa da catedral.

— Ele não é burro, pai. Gustavo Almeida é um predador.

— Então seja uma atriz melhor do que ela foi — ele rosnou, puxando o véu de renda sobre o meu rosto.

O mundo ficou nublado. A trama da renda transformou o luxo do camarim em uma névoa cinzenta. Eu respirei fundo, o espartilho apertando minhas costelas até o ponto de dor. Eu não estava indo para um sacramento; estava indo para um matadouro.

As notas da marcha nupcial começaram a ecoar, vibrando no chão de mármore e subindo pelas solas dos meus sapatos de grife. Meu pai estendeu o braço. Eu o segurei como quem segura uma corda de enforcado.

As portas duplas da catedral se abriram. O cheiro de milhares de lírios brancos e incenso me atingiu, uma fragrância que, para mim, cheirava a funeral. A elite de São Paulo estava lá, centenas de rostos curiosos e julgadores assistindo à "Pérola Silva" caminhar para o homem mais poderoso e temido do mercado financeiro.

No final do corredor, ele estava lá.

Gustavo Almeida parecia uma divindade sombria esculpida em granito. O terno preto sob medida abraçava seus ombros largos, e a postura ereta emanava uma autoridade que silenciava o ambiente. Ele não sorria. Gustavo nunca sorria. Seus olhos, escuros como uma noite sem lua, estavam fixos em mim enquanto eu avançava.

Cada passo era uma mentira. Cada batida do meu coração era um grito de socorro que ninguém ouvia.

Quando finalmente chegamos ao altar, meu pai entregou minha mão à dele. O contato físico foi como um choque elétrico de alta voltagem. Os dedos de Gustavo eram quentes, mas seu aperto era de aço. Ele não segurou minha mão com a delicadeza de um noivo; ele a reivindicou como um credor toma um bem penhorado.

Ele se inclinou levemente em minha direção enquanto o padre começava o rito. O hálito dele, com notas de sândalo e perigo, roçou minha orelha sob o véu.

— Você está tremendo, minha querida — ele sussurrou, a voz tão baixa e aveludada que me fez arrepiar de medo. — Mas as mãos de Pérola eram macias demais. As suas têm calos de quem trabalha demais em planilhas escondidas, não têm?

Meu sangue congelou. Ele sabia. No primeiro segundo de toque, ele soube.

Tentei puxar minha mão, mas ele a apertou com tanta força que a aliança de ouro — a aliança que deveria ser da minha irmã — cravou na minha pele.

— Não tente fugir agora, Ana — ele continuou, o tom implacável. — O contrato de 100 milhões foi muito claro sobre a multa por quebra de acordo. Se a noiva original sumiu, a cláusula de contingência entra em vigor. E a cláusula diz que eu recebo uma esposa.

— Gustavo, por favor... — eu tentei balbuciar, mas ele me cortou com um olhar que me reduziu a nada.

— Você queria salvar seu pai? — Ele sorriu, um movimento cruel que não atingiu seus olhos. — Parabéns. Você acaba de assinar sua sentença. Você não é a Pérola, e isso é ótimo. Eu sempre achei sua irmã um tédio. Com você, eu vou me divertir muito mais enquanto cobro cada centavo que sua família me deve.

O padre perguntou se eu aceitava Gustavo Almeida como meu legítimo esposo.

Olhei para o altar, depois para o homem ao meu lado, que me encarava como um lobo encara uma presa encurralada. Eu vi meu pai no canto da visão, pálido, esperando o veredito. Se eu dissesse "não", a destruição era certa. Se dissesse "sim", eu pertenceria ao monstro.

— Sim — minha voz saiu pequena, mas firme. Era o som da minha liberdade morrendo.

Gustavo não esperou o padre terminar. Ele puxou meu véu com violência, expondo meu rosto pálido e meus olhos cheios de lágrimas para toda a congregação. Ele não me beijou com amor. Ele reivindicou minha boca em um beijo possessivo, carregado de uma fúria silenciosa que prometia uma noite de núpcias que eu jamais esqueceria.

Quando ele se afastou, seus olhos brilhavam com uma satisfação sádica.

— Bem-vinda à família Almeida, Ana. Agora, vamos assinar o registro. Há uma cláusula nova que adicionei esta manhã... e você vai odiar cada palavra dela.

Ele me arrastou para a mesa de assinaturas. O papel branco estava lá, esperando por mim. O contrato que não falava de amor, mas de posse. E eu, sem saída, peguei a caneta, sabendo que estava entregando minha alma ao homem que me odiava.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
capítulo anteriorpróximo capítulo
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App