Mundo ficciónIniciar sesiónEntro no quarto tentando fazer o mínimo de barulho possível.
A luz do abajur próximo à cama de Sara ainda está acesa, iluminando o ambiente com um tom amarelado e aconchegante. Assim que olho para ela, não consigo evitar a risada baixa que escapa dos meus lábios. Sara está completamente jogada na cama, ainda usando o vestido da festa, com um braço caído para fora do colchão e os cabelos espalhados pelo travesseiro. Como sempre. Ela vive dizendo que vai passar a madrugada inteira nas festas, mas quase sempre é uma das primeiras a voltar. Aproximo-me devagar. Com cuidado, tiro os saltos dos pés dela, ignorando o resmungo incompreensível que ela murmura dormindo. Depois ajeito seu corpo melhor na cama e puxo o cobertor até cobri-la por completo. — Dramática… — sussurro divertida. Inclino-me um pouco e beijo o topo de sua cabeça antes de apagar a luz ao lado dela. Vou até minha própria cama e me sento lentamente, retirando os óculos do rosto. O quarto está silencioso agora, exceto pelo som suave da respiração de Sara e do vento frio batendo contra a janela. Solto um longo suspiro. Então, sem perceber, mordo o lábio inferior enquanto um pequeno sorriso surge em meu rosto. Porque Sebastian Blackwood invade meus pensamentos novamente. Os olhos escuros. A voz grave. O jeito como pronunciou meu nome. A forma intensa como me observava enquanto eu falava sobre arte. Meu peito aquece só de lembrar. E isso deveria me preocupar muito mais do que preocupa. Deito na cama, puxando o cobertor até o pescoço, mas sei que vou demorar para dormir. Porque, pela primeira vez desde que cheguei ao Canadá… Estou ansiosa pela aula de amanhã. ... Uma das minhas aulas favoritas começa exatamente do jeito que eu gosto: com tinta, pincéis e a liberdade de colocar sentimentos sobre uma tela em branco. A sala de pintura está tomada pelo cheiro de tinta fresca e solvente, enquanto telas espalhadas pelos cavaletes transformam o ambiente em um verdadeiro caos artístico. Alguns alunos já misturam cores em suas paletas, outros observam referências espalhadas sobre as mesas. E eu amo cada segundo disso. A professora Lídia caminha pela sala observando os trabalhos com atenção. Ela é uma artista incrível, reconhecida dentro e fora da faculdade, mas o que mais admiro nela é a maneira como consegue ensinar. Ela não explica apenas técnicas. Ela ensina emoções. Ensina como transformar dor em cor. Como transformar sentimentos em algo visível. — Com toda certeza, vocês são a turma com mais destaque que já tive em desenho e pintura — ela anuncia, chamando a atenção de todos. — Inclusive, conversei com o reitor sobre o desempenho de vocês. Sara imediatamente me olha com expectativa, os olhos brilhando de curiosidade. Franzo levemente a testa, interessada. A professora Lídia apoia as mãos sobre a mesa antes de continuar: — Então decidimos presentear esta turma. O silêncio domina a sala quase instantaneamente. — Até o final deste semestre, cada um de vocês deverá me apresentar uma obra original. Um quadro completamente produzido por vocês. — Ela faz uma pequena pausa enquanto nos observa. — O tema é livre. O estilo também. Mas existe uma condição. Meu coração acelera discretamente. — A arte de vocês precisa emocionar. Quero sentir algo quando olhar para o quadro. Quero entender a alma do artista através da pintura. Não me entreguem apenas algo bonito… me entreguem verdade. As palavras dela atravessam meu peito de uma forma absurda. Porque é exatamente assim que sempre enxerguei arte. Sara se inclina na minha direção, aproximando os lábios do meu ouvido. — Vamos virar inimigas nessa matéria — ela sussurra dramaticamente. Solto uma risada baixa. Eu e Sara nunca competimos de verdade. Sempre foi o contrário. Quando uma vence, a outra comemora junto. Sempre foi nós contra o mundo, nunca uma contra a outra. — E o vencedor… — a professora Lídia continua, prendendo novamente nossa atenção — terá sua obra exposta oficialmente no museu da faculdade. Meu coração simplesmente para por um segundo. O museu. Aquele museu. O lugar onde eu sempre sonhei em ver um quadro meu pendurado. Mas ela ainda não terminou. — Além disso, o aluno vencedor receberá o contato de um possível investidor e futuro sócio para suas obras. Arregalo os olhos imediatamente. Meu Deus. Aquilo não era apenas um prêmio. Era uma oportunidade de futuro. Uma chance real. Talvez a chance que poderia mudar toda a minha vida. Sinto meus dedos apertarem involuntariamente o pincel que seguro. Porque, pela primeira vez desde que cheguei ao Canadá… Esse sonho parece possível. A professora Lídia sorri ao perceber o impacto da notícia sobre a turma. — Vocês têm até o final do semestre. — Ela cruza os braços, claramente animada. — Então… que vença o artista mais emotivo. ... Estou na sala de História da Arte tentando fingir que presto atenção em qualquer outra coisa além de Sebastian Blackwood. O que está se tornando uma tarefa cada vez mais difícil. Meus olhos acompanham discretamente seus movimentos enquanto ele organiza alguns livros e papéis sobre a mesa à frente da sala. O jeito calmo como ajeita as mangas da camisa escura, a postura impecável, a concentração tranquila estampada em seu rosto… Tudo nele chama atenção sem esforço. — Você está completamente caidinha por ele. A voz de Sara me faz sair imediatamente dos meus pensamentos. Olho para ela sentada ao meu lado, os braços cruzados e um sorriso extremamente sarcástico estampado no rosto. — Não estou, não — murmuro rapidamente. Ela arqueia uma sobrancelha, claramente sem acreditar nem por um segundo. — Luana, está tudo bem. Nunca vi você sentir atração por ninguém naquela faculdade. — O olhar dela desliza rapidamente até Sebastian. — E convenhamos… ele é absurdamente gato. Como não se sentir atraída? Desvio o olhar para meu caderno, tentando ignorar o calor subindo pelo meu rosto. — Pena que ele é nosso professor — Sara continua em tom dramático. — Porque qualquer relação com ele significaria adeus à nossa graduação… e adeus ao emprego dele também. Meu sorriso desaparece um pouco. Porque ela está certa. A universidade possui regras extremamente rígidas sobre relacionamentos entre professores e alunos. Não era apenas “mal visto”. Era proibido. E todos ali sabiam o quanto a instituição levava aquilo a sério. — Eu não estou atraída pelo nosso professor — repito em voz baixa, apenas para ela ouvir. Sara se aproxima lentamente de mim, os olhos brilhando de provocação. — A fase da negação é sempre a pior. Empurro o braço dela de leve, arrancando uma gargalhada divertida. Antes que eu consiga responder, a voz grave de Sebastian ecoa pela sala. — Bom, pessoal… Instantaneamente, todos os olhares se voltam para ele. Sebastian apoia uma das mãos sobre a mesa enquanto nos observa calmamente. — Soube que vocês estão produzindo quadros para a premiação artística deste semestre. E gostaria de ajudar aqueles que precisarem. Meu coração acelera sem motivo lógico. — Então, qualquer aluno que queira conversar sobre movimentos artísticos, pintores específicos ou referências para suas obras… estarei no meu escritório hoje até às oito da noite. Ele faz uma pequena pausa antes de completar: — Podemos conversar um pouco. Agora, vamos começar a aula. Sinto Sara praticamente vibrando ao meu lado. Ela se aproxima do meu ouvido novamente. — Uma oportunidade perfeita para ficar a sós com seu professor irresistível. Reviro os olhos imediatamente. Mas o pior é perceber que ela não está totalmente errada. Porque a ideia… É perigosamente tentadora. ... Isso é mesmo uma boa ideia? Estou parada em frente ao escritório do professor Sebastian Blackwood há tempo demais para alguém que supostamente só veio tirar dúvidas acadêmicas. Meus olhos ficam presos na porta fechada enquanto minha mente trava uma batalha ridícula comigo mesma. Eu não tenho dúvidas sobre movimentos artísticos. Não preciso de ajuda para entender nenhuma técnica de pintura. E definitivamente não precisava vir até aqui à noite. Então por que estou aqui? A resposta surge rápido demais na minha cabeça. Porque quero estar perto dele. Quero entendê-lo um pouco mais. E isso é uma péssima ideia. Solto um suspiro baixo e começo a me virar, decidida a ir embora antes que faça alguma idiotice ainda maior. Mas, no mesmo instante, a porta se abre. Meu coração quase salta pela boca. Sebastian me encara com surpresa por um breve segundo. Depois, discretamente, seus olhos percorrem o corredor vazio ao redor, como se conferisse se há alguém por perto. — Luana — ele diz, a voz grave fazendo meu nome soar perigosamente bonito outra vez. Droga. Agora preciso inventar alguma coisa. — Eu… queria saber um pouco mais sobre Leonardo da Vinci — disparo rapidamente, falando o primeiro artista que surge na minha mente. Silêncio. Sebastian me observa por alguns segundos. Os olhos escuros percorrem meu rosto lentamente, atentos demais, como se procurassem algum sinal escondido por trás da minha desculpa improvisada. E talvez encontrem. Porque sinto meu rosto aquecer sob aquele olhar. Então, finalmente, um pequeno sorriso aparece em seus lábios. — Entre. Vamos conversar. Ele se afasta da porta, dando espaço para que eu entre. Assim que atravesso o escritório, o calor do ambiente envolve meu corpo imediatamente. O contraste com o frio do lado de fora é tão aconchegante que solto um pequeno suspiro involuntário. Um aquecedor discreto próximo à parede espalha um calor confortável pelo cômodo inteiro. Mas é o escritório que realmente prende minha atenção. O lugar é exatamente como Sebastian. Elegante. Organizado. Sofisticado. As paredes são tomadas por estantes enormes repletas de livros sobre arte, história e filosofia. Algumas edições parecem antigas, quase raras. Há esculturas pequenas cuidadosamente posicionadas entre os móveis escuros e uma iluminação quente que deixa o ambiente intimista demais para um simples escritório universitário. A mesa dele é impecavelmente organizada, mas não de maneira fria. Existem papéis espalhados, anotações escritas à mão e pincéis guardados em um recipiente de vidro, como se aquele espaço ainda fosse ocupado por um artista antes de ser dominado por um professor. Mas o que realmente me faz parar são os desenhos presos na parede lateral. Vários. Retratos feitos a carvão, estudos de anatomia, paisagens pintadas em tons profundos e obras abstratas carregadas de emoção. Cada traço possui intensidade. Sentimento. Vida. E, estranhamente, todos parecem carregar algo melancólico escondido entre as pinceladas. Me aproximo sem perceber. — São incríveis… — murmuro, observando um retrato feminino desenhado com uma delicadeza absurda. Sinto Sebastian se aproximar atrás de mim. E imediatamente minha nuca arrepia. A proximidade dele deveria ser proibida. — Isso acabou se tornando mais um hobby — ele comenta em voz baixa. — Hoje em dia, ensino mais do que desenho. Viro levemente o rosto em sua direção e o encontro perto demais. O perfume amadeirado invade meus sentidos outra vez. Meu coração acelera. — Sente-se, Luana — ele diz calmamente. Faço o que ele pede antes que minhas pernas esqueçam como funcionam. Sebastian dá a volta pela mesa e se senta na cadeira dele, mantendo os olhos fixos em mim por tempo demais. Então apoia os braços sobre a mesa. — Então… Leonardo da Vinci? — pergunta, claramente esperando que eu desenvolva a mentira que inventei há menos de dois minutos. — Sim… Leonardo da Vinci. — Apenas repito o que ele disse, e imediatamente me sinto ridícula. Meu Deus. Eu atravessei a faculdade inteira apenas para ficar perto dele e agora estou aqui, fingindo interesse em um assunto que nem sequer planejei perguntar direito. Sebastian me observa em silêncio por alguns segundos. Então um sorriso discreto surge em seus lábios, como se ele estivesse percebendo perfeitamente minha timidez… e talvez até minha desculpa mal construída. Mas, ao invés de me deixar desconfortável, ele apenas acompanha meu jogo. — Leonardo da Vinci era fascinante justamente porque nunca foi apenas um pintor — Sebastian começa, a voz calma preenchendo o escritório aconchegante. — Ele estudava anatomia, engenharia, arquitetura, ciência… Era obcecado por entender o ser humano em todos os aspectos possíveis. Me vejo prestando atenção de verdade. — A maioria das pessoas olha para as obras dele e enxerga técnica. Mas o que realmente impressiona é a forma como ele capturava emoção. — Os olhos escuros dele encontram os meus. — Da Vinci fazia as pessoas parecerem vivas. Quase como se escondessem pensamentos por trás dos olhos. Meu coração tropeça dentro do peito. Porque, por algum motivo, sinto que ele não está falando apenas sobre arte agora. — Entendi… — murmuro baixinho. Sebastian passa a mão pelos cabelos escuros, afastando alguns fios da testa. E, sinceramente? Isso deveria ser proibido. O movimento simples o deixa ainda mais absurdamente atraente. Relaxado. Natural. Perigoso. Preciso desviar o olhar antes que ele perceba que estou praticamente hipnotizada. — E você? — ele pergunta. — O que pretende pintar para a premiação? A pergunta me arranca imediatamente daquele transe ridículo. Franzo levemente a testa, pensando. — Ainda não pensei em nada. — Solto um pequeno suspiro. — E, sinceramente… acho muito difícil eu ganhar essa premiação. Sebastian me encara com confusão genuína. — Por que diz isso? Brinco nervosamente com os dedos sobre meu colo antes de responder. — Porque provavelmente vão preferir agradar os alunos que pagam fortunas para estudar aqui. — Dou de ombros, tentando parecer indiferente. — Eu sou apenas uma bolsista. É difícil acreditarem em alguém como eu. O silêncio toma conta do escritório por um instante. Então Sebastian se levanta. Meu coração acelera imediatamente. Ele dá a volta na mesa lentamente até parar bem na minha frente, apoiando-se contra a madeira escura do móvel. Perto demais. Os olhos dele descem para meu rosto com uma intensidade que me faz esquecer completamente como respirar direito. — Você não é apenas uma bolsista, Luana. A voz grave sai baixa. Sincera. Perigosa. — Vejo muito potencial em você. E não estou dizendo isso para fazê-la se sentir melhor. — Ele mantém os olhos presos nos meus. — Estou dizendo porque é exatamente isso que vejo quando olho para você. Meu peito aperta fortemente. Por alguns segundos, o mundo inteiro parece desaparecer ao nosso redor. Existe alguma coisa naquele olhar. Uma tensão silenciosa. Como se nós dois estivéssemos procurando uma brecha invisível para nos conectarmos sem ultrapassar a linha que claramente existe entre nós. Os olhos dele percorrem meu rosto lentamente, atentos demais. Intensos demais. E eu odeio o quanto isso mexe comigo. Porque, pela primeira vez em muito tempo… Sinto que alguém realmente me vê. De verdade. Meu coração b**e tão forte que tenho medo de ele conseguir ouvir. — Bom… — murmuro rapidamente, desviando o olhar antes que eu me perca completamente naquela intensidade. — Acho que devo ir. Sebastian permanece me encarando por mais um segundo antes de assentir devagar. Então ele diz algo que me surpreende completamente: — Venha me encontrar amanhã novamente. Ergo os olhos para ele imediatamente, surpresa. Ele sustenta meu olhar com tranquilidade. — Vou lhe mostrar as obras de um artista amigo meu. Talvez isso ajude você a encontrar uma ideia para sua pintura. Meu coração acelera outra vez. Faço apenas um pequeno aceno com a cabeça, incapaz de formular uma resposta inteligente naquele momento. Então me levanto rapidamente e saio do escritório antes que minha coragem desapareça por completo.






