Capítulo 2

Coloco meu sobretudo, apertando o tecido contra o corpo na tentativa inútil de me proteger do frio intenso que começa a dominar o Canadá naquela época do ano. O vento gelado atravessa até mesmo as camadas de roupa, fazendo minha pele arrepiar.

Prendo os cabelos rapidamente em um coque frouxo, ajeito os óculos no rosto e pego o celular sobre a cama.

— Não me espere acordada! — Sara avisa.

Olho na direção dela e quase reviro os olhos.

Ela está usando um vestido absurdamente apertado e curto, claramente mais preocupado em chamar atenção do que em protegê-la do frio congelante lá fora.

Suspiro antes de caminhar até o guarda-roupa dela. Pego um sobretudo escuro e estendo em sua direção.

— Está muito frio, e eu não vou passar mais uma noite em claro ouvindo você tossir até perder o ar.

Sara faz uma careta dramática enquanto pega o casaco.

— Tem horas que você me lembra minha mãe — murmura enquanto veste o sobretudo por cima do vestido.

Dou risada.

— Alguém precisa cuidar de você.

Ela aponta o dedo na minha direção, estreitando os olhos.

— E alguém precisa parar de agir como uma senhora de cinquenta anos.

Rio novamente antes de caminhar até a porta.

— Até mais tarde!

— Se cuida, gatinha! — ela responde.

Saio do dormitório e imediatamente sinto o vento frio atingir meu rosto. As luzes do campus iluminam os caminhos de pedra enquanto estudantes passam apressados, tentando escapar da temperatura congelante da noite.

Enfio as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto caminho para fora da faculdade.

Uma das coisas que mais amo naquela universidade é o museu de artes ligado a ela, localizado no centro da cidade. Todos os meses eles organizam exposições exclusivas, apresentando obras históricas, artistas convidados e, principalmente, trabalhos dos alunos que mais se destacaram ao longo do semestre.

E toda vez que entro naquele lugar, o mesmo pensamento invade minha cabeça.

Um dia, quero ver um quadro meu exposto ali.

Quero que as pessoas parem diante da minha arte e sintam alguma coisa.

Quero existir através daquilo que crio.

Peço um Uber pelo celular e espero alguns minutos até o carro chegar. Durante o trajeto, observo pela janela as ruas iluminadas, as pessoas escondidas em seus casacos pesados e os reflexos das luzes douradas se espalhando pela neve fina acumulada nas calçadas.

Quando finalmente chegamos, pago a corrida e desço do carro.

Então ergo os olhos.

O museu surge diante de mim imponente, iluminado contra a noite fria. A arquitetura elegante mistura o clássico e o moderno de maneira quase artística por si só. As enormes paredes de vidro refletem as luzes da cidade, enquanto pessoas bem vestidas entram e saem do local em pequenos grupos.

Meu coração acelera discretamente.

Talvez porque aquele lugar sempre tenha parecido distante demais para alguém como eu.

E, ainda assim…

Aqui estou.

Entro no museu sentindo imediatamente a atmosfera mudar ao meu redor.

O lugar é silencioso, elegante e quase intimidador. As luzes suaves iluminam cada obra com cuidado, enquanto o som baixo de conversas discretas ecoa pelos corredores amplos. Reconheço alguns rostos conhecidos da faculdade espalhados pelo salão — alunos conversando em pequenos grupos, professores observando as exposições, pessoas importantes da cidade caminhando lentamente entre as obras.

Mas nada disso prende minha atenção por muito tempo.

Meus olhos percorrem cada quadro, cada escultura, cada detalhe cuidadosamente exposto naquele lugar.

Arte sempre foi mais do que beleza para mim.

É emoção transformada em matéria.

Dor transformada em cor.

Amor transformado em existência.

Paro diante de um quadro específico.

Um casal ocupa o centro da pintura. Eles estão abraçados de maneira intensa, quase desesperada, beijando-se como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir ao redor deles. Os corpos parecem flutuar em meio a tons dourados e pinceladas suaves que envolvem os dois como uma aura celestial.

Existe paixão naquela pintura.

Mas também existe entrega.

Dependência.

Como se aquelas duas pessoas não soubessem mais existir separadas.

— Luana Simons, certo?

A voz grave atrás de mim faz meu corpo inteiro se arrepiar.

Viro lentamente.

E meu coração acelera imediatamente ao encontrar Sebastian Blackwood parado a poucos passos de distância.

Droga.

Ele está usando um sobretudo preto perfeitamente ajustado ao corpo, o tecido escuro contrastando absurdamente bem com a pele clara. A iluminação suave do museu destaca ainda mais seus traços marcantes — o maxilar forte coberto pela barba alinhada, os cabelos escuros levemente bagunçados e os olhos intensos que parecem carregar mais mistérios do que qualquer obra daquele lugar.

Mas é a maneira como ele me olha que realmente me desestabiliza.

Calma.

Atenta.

Profundamente interessada.

Sebastian possui aquele tipo de beleza perigosa, impossível de ignorar. Elegante sem esforço. Intimidante sem precisar tentar. O tipo de homem que entra em um ambiente e faz tudo ao redor perder importância.

E de perto…

Ele é ainda pior.

Ou melhor.

— Isso — respondo, tentando esconder o nervosismo na minha voz.

Os lábios dele se curvam em um pequeno sorriso.

— Confesso que fiquei surpreso em vê-la aqui. Assim como alguns outros alunos também. — Ele se aproxima um pouco mais, ficando ao meu lado diante do quadro. — Neste momento está acontecendo uma festa na universidade, certo?

Faço que sim com a cabeça.

— Não sou muito fã de festas.

— Percebi isso — ele comenta em tom baixo.

Olho novamente para a pintura, mas minha consciência continua absurdamente focada na presença dele ao meu lado. No perfume amadeirado. Na voz calma. Na proximidade.

Ficamos em silêncio observando o quadro por alguns segundos.

Ou fingindo observar.

Porque é impossível não olhá-lo discretamente pelo canto dos olhos.

— O que você acha desta obra? — Sebastian pergunta de repente.

Solto um pequeno suspiro antes de responder, mantendo os olhos fixos na pintura.

— É muito mais do que dois corpos se tocando… muito mais do que atração física. — Dou um passo lento para mais perto do quadro. — Esse homem e essa mulher estão ligados. As almas deles parecem conectadas, famintas uma pela outra… necessitadas. Quando se tocam, é como se finalmente encontrassem a harmonia perfeita. Como se, separados, fossem incompletos.

O silêncio se instala novamente.

Então olho para Sebastian.

E quase perco o ar.

A intensidade com que ele me encara faz meu coração disparar violentamente dentro do peito. Os olhos escuros analisam meu rosto como se tentassem decorar cada pensamento meu.

Mas, estranhamente, não desvio o olhar.

Permaneço ali.

Sustentando aquela conexão silenciosa entre nós.

Os lábios dele se movem devagar.

— Você tem uma mente impressionante, senhorita Simons. — A voz grave soa ainda mais baixa agora, quase íntima.

E eu odeio perceber o efeito que isso causa em mim.

...

A exposição chega ao fim aos poucos.

As pessoas começam a deixar o museu em pequenos grupos, os sons das conversas diminuindo enquanto o enorme salão vai ficando vazio. Permaneço parada por alguns segundos, observando o movimento ao redor e fingindo para mim mesma que estou apenas distraída com as pessoas indo embora.

Não procurando Sebastian.

Definitivamente não procurando por ele.

Aperto o sobretudo contra o corpo quando saio do museu e o vento frio da noite imediatamente atinge meu rosto. Solto um pequeno arrepio antes de pegar o celular para chamar um Uber.

— Senhorita Simons!

A voz grave faz meu coração acelerar instantaneamente.

Viro-me.

Sebastian caminha em minha direção com passos tranquilos, as mãos nos bolsos do sobretudo preto. A iluminação dourada da entrada do museu destaca ainda mais sua aparência elegante, deixando-o absurdamente bonito naquela noite fria.

— Professor — cumprimento, tentando parecer mais calma do que realmente estou.

Ele para diante de mim.

— Está de carro? Mora onde? — pergunta.

Passo os dedos por uma mecha solta do meu cabelo, colocando-a atrás da orelha numa tentativa inútil de aliviar o nervosismo.

— Vou pedir um carro. Moro nos dormitórios da faculdade.

Sebastian faz um pequeno gesto com a cabeça.

— Venha, eu lhe dou uma carona. Minha casa fica na direção da universidade.

Meu olhar percorre rapidamente a rua. Alguns alunos ainda estão próximos à entrada esperando transporte, conversando entre si.

Então volto a olhar para ele.

— Isso não vai te causar problemas? — pergunto em voz baixa.

Ele nega com a cabeça, tranquilo demais.

— Estou apenas dando uma carona para uma aluna. — Um pequeno sorriso surge em seus lábios. — Venha.

E, estranhamente, eu vou.

Caminhamos lado a lado até o estacionamento. O silêncio entre nós não é desconfortável… apenas carregado de alguma coisa que não consigo nomear.

Sebastian destrava o carro e abre a porta para mim.

O gesto simples me pega desprevenida.

Dou um sorriso tímido antes de entrar.

O interior do carro é elegante, sofisticado e carregado pelo mesmo perfume amadeirado que senti mais cedo perto dele. Sebastian dá a volta pelo veículo, entra no banco do motorista e liga o aquecedor.

— Vamos ficar mais aquecidos aqui dentro — comenta enquanto ajusta o aquecimento.

Solto uma pequena risada baixa.

Ele liga o carro e começa a dirigir pelas ruas iluminadas da cidade.

Ficamos em silêncio por alguns minutos.

Observo discretamente o perfil dele enquanto dirige. As mãos firmes segurando o volante. A expressão calma. O maxilar marcado. A atenção concentrada na estrada.

A presença dele me intimida.

Mas, ao mesmo tempo, existe algo que me puxa em sua direção de uma maneira perigosa.

E eu me recuso a acreditar que seja apenas pela beleza dele.

— Não pude deixar de notar que seu sotaque é diferente daqui — Sebastian comenta de repente, quebrando o silêncio.

Volto meu olhar para ele.

— Ah… é. Você acertou. Eu sou francesa.

Os olhos dele desviam brevemente para mim, curiosos.

— França? — Um pequeno sorriso aparece em seus lábios. — Isso explica muita coisa.

Franzo levemente a testa.

— Como o quê?

— Seu jeito de observar arte. — A voz dele permanece calma. — Você sente as obras antes mesmo de analisá-las. Isso é raro.

Meu coração tropeça dentro do peito.

Porque a maneira como ele diz aquilo não parece apenas um comentário.

Parece que ele estava me observando muito mais do que deveria.

— E o que trouxe você ao Canadá? — ele pergunta, mantendo os olhos na estrada.

Mordo discretamente o lábio inferior.

É estranho.

Ninguém nunca pareceu realmente interessado em saber tanto sobre mim antes.

A maioria das pessoas faz perguntas apenas por educação, esperando respostas rápidas para preencher silêncios desconfortáveis. Mas Sebastian… ele escuta de verdade. Presta atenção. Como se cada resposta minha tivesse importância.

Desvio o olhar para as luzes da cidade passando pela janela.

— A faculdade, na verdade. — Minha voz sai mais baixa do que eu esperava. — Sempre fui apaixonada por arte, mesmo não sendo a área que meus pais queriam que eu seguisse.

Sebastian faz um leve movimento com a cabeça, como se entendesse perfeitamente o peso escondido naquela frase.

— Entendo. — Há uma breve pausa antes da próxima pergunta. — Ainda mantém contato com seus pais?

Meu peito aperta discretamente.

Papai e mamãe…

As ligações se tornaram raras há muito tempo. Frias. Superficiais. E desde que me mudei para o Canadá, nunca mais os vi pessoalmente.

Como se o oceano entre nós tivesse se tornado muito maior do que apenas distância.

— Às vezes — murmuro.

E, pela primeira vez naquela noite, Sebastian não insiste.

Ele apenas respeita meu silêncio.

O carro desacelera alguns minutos depois, parando em frente aos dormitórios da faculdade. As luzes do campus iluminam a neve fina acumulada nas calçadas, enquanto alguns estudantes ainda caminham pelo local apesar do frio.

Olho para Sebastian.

E percebo que ele já está olhando para mim.

Meu coração acelera imediatamente.

Por alguns segundos, fico completamente sem reação.

Devo apenas agradecer?

Dar um aperto de mão?

Um abraço seria estranho demais?

Meu Deus, por que estou pensando nisso?

— Bom… nos vemos amanhã na aula, então — ele diz, quebrando o silêncio.

Faço um pequeno aceno com a cabeça, sentindo minhas mãos absurdamente nervosas.

Abro a porta do carro.

— Boa noite, Luana Simons. — A voz dele sai baixa, carregada por um tom quase provocador.

O jeito como pronuncia meu nome novamente faz meu estômago revirar.

Olho para ele por cima do ombro.

E sorrio sem conseguir evitar.

— Boa noite, Sebastian Blackwood.

Os olhos dele parecem escurecer por um breve instante ao ouvir o próprio nome saindo da minha boca.

Então saio do carro e fecho a porta lentamente, sentindo o coração bater rápido demais dentro do peito.

O carro permanece parado por alguns segundos antes de finalmente ir embora.

E mesmo depois que Sebastian desaparece pela rua iluminada, o perfume amadeirado dele ainda parece preso às minhas roupas.

Mesmo sem ele sequer ter me tocado.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP