Mundo de ficçãoIniciar sessãoHoje o frio não parecia tão cruel quanto nos últimos dias, então decido deixar o sobretudo pendurado no armário. Visto apenas uma blusa de manga comprida, uma calça confortável e pego minha bolsa sobre a escrivaninha.
Enquanto prendo o cabelo rapidamente, tento ignorar o fato de que meu coração está acelerado por um motivo extremamente específico. Sebastian Blackwood. Meu Deus. — Você ainda não me disse onde vai! A voz de Sara ecoa pelo quarto. Dou uma pequena risada enquanto calço os sapatos. — Hoje a mãe é você? — brinco. Ela estreita os olhos na minha direção. — Você sempre me fala pra onde vai. Olho para ela deitada na cama, apoiada nos cotovelos enquanto me encara com atenção suspeita demais para o meu gosto. Suspiro antes de me aproximar. — O professor Sebastian foi gentil e disse que vai me mostrar algumas obras para eu me inspirar no quadro da professora Lídia — explico, tentando soar casual. — Só isso. O sorriso dela muda imediatamente. Lento. Provocador. Perigoso. — Ah… então você tem um encontro com o professor Sebastian. Reviro os olhos no mesmo instante. — Não é um encontro. É uma ajuda. — Claro. — Ela segura a risada. — E eu sou a rainha da Inglaterra. Dou uma almofadada nela, arrancando uma gargalhada divertida. Caminho até a porta antes que ela comece outro interrogatório. — Não volte tarde demais! — ela grita. — Não sou você. — E use camisinha! — Sara! Ouço a gargalhada dela ecoando pelo quarto enquanto fecho a porta, me recusando a responder qualquer outra provocação. Mas, enquanto caminho pelo corredor dos dormitórios… O pior é perceber que minhas mãos realmente estão nervosas. ... Bato três vezes na porta do escritório de Sebastian, tentando ignorar o nervosismo completamente ridículo crescendo dentro de mim. Alguns segundos depois, a porta se abre. E, honestamente… O homem diante de mim parece ainda mais perigoso fora das roupas sociais de professor. Sebastian não está usando camisa social ou blazer dessa vez, mas isso definitivamente não o torna menos elegante. Pelo contrário. A camisa polo azul-marinho marca discretamente seus ombros largos, enquanto a blusa de manga longa por baixo deixa o visual casual sofisticado demais para alguém que aparentemente apenas “vai mostrar algumas obras”. A calça jeans escura se ajusta perfeitamente ao corpo alto e atlético, e até os tênis parecem caros sem esforço. O sobretudo preto está apoiado em um de seus braços. E o pior de tudo? Ele parece mais jovem assim. Mais acessível. Mais homem do que professor. O que definitivamente não ajuda meu coração. — Luana. — Um pequeno sorriso surge em seus lábios ao me ver. Meu estômago se contrai involuntariamente. — Professor — cumprimento, tentando manter a postura normal. Os olhos dele brilham discretamente. — Me chame de Sebastian, por favor. O pedido simples me pega desprevenida. Porque aquilo parece íntimo demais. Mesmo assim, faço um pequeno aceno com a cabeça. Dou um passo para frente, pronta para entrar no escritório, mas Sebastian sai primeiro e fecha a porta atrás de si. Franzo levemente a testa, confusa. — Não vamos ficar aqui — ele explica calmamente. — Vamos até o ateliê de um amigo meu. Meu coração acelera. Um ateliê. Aceno com a cabeça, tentando parecer tranquila apesar da ansiedade crescendo dentro de mim. Caminhamos lado a lado pelos corredores da faculdade. O silêncio entre nós não é desconfortável, mas carregado daquela tensão silenciosa que parece surgir toda vez que estamos próximos demais. Quando chegamos ao estacionamento, Sebastian destrava o carro e, como sempre, abre a porta para mim antes que eu possa fazer isso sozinha. Cavalheiro demais. Murmuro um pequeno “obrigada” antes de entrar. Ele dá a volta no veículo, j**a o sobretudo no banco de trás e entra logo em seguida. O perfume amadeirado invade imediatamente o espaço pequeno do carro, misturando-se ao aroma suave de couro dos bancos. Sebastian liga o aquecedor, e o calor começa a preencher lentamente o interior do veículo. Então ele apoia uma das mãos no volante e olha rapidamente para mim. — Preparada para conhecer algumas das artes mais honestas que já viu? — pergunta em tom baixo. E, estranhamente… A forma como ele diz “honestas” faz parecer que não está falando apenas sobre pinturas. ... Por fora, o lugar parecia apenas uma casa comum. Discreta. Silenciosa. Nada que chamasse atenção no meio da rua coberta pela noite fria do Canadá. Mas, assim que entro… Tudo muda. O interior da casa foi completamente transformado em um ateliê artístico. As paredes são tomadas por quadros de diferentes tamanhos, cores e estilos. Algumas telas estão apoiadas diretamente no chão, outras espalhadas em cavaletes de madeira. Há pincéis mergulhados em tinta, folhas rabiscadas, esculturas inacabadas e o cheiro marcante de tinta misturado ao aroma suave de café. É caótico. Mas um caos vivo. Humano. Cada obra parece pulsar emoção. E eu consigo sentir isso. Consigo quase ouvir o que o artista sentia enquanto pintava cada traço. Dor. Amor. Solidão. Desejo. Tudo está ali, exposto sem medo algum. Me aproximo lentamente de alguns quadros, completamente fascinada. — Chocolate quente. A voz grave de Sebastian surge ao meu lado tão de repente que meu coração dispara. Viro o rosto e o encontro segurando duas xícaras fumegantes. O vapor quente sobe lentamente enquanto ele me encara com aquele olhar calmo que sempre parece me desarmar completamente. Abro um pequeno sorriso involuntário. — Obrigada… vou aceitar. Nossos dedos quase se tocam quando pego a xícara das mãos dele. E o simples quase contato já é suficiente para fazer um arrepio percorrer minha pele. Voltamos nossa atenção para uma pintura enorme diante de nós. O quadro retrata um casal. Mas não é apenas um casal apaixonado. É intensidade transformada em arte. A mulher está sentada sobre uma mesa antiga, segurando o rosto do homem entre as mãos enquanto ele permanece entre suas pernas, completamente rendido ao toque dela. As testas estão encostadas, os olhos fechados, como se aquele momento fosse íntimo demais para ser compartilhado com o resto do mundo. Os tons quentes dominam a pintura — dourado, vinho, âmbar e sombras profundas — criando a sensação de calor e desejo. As pinceladas parecem quase desordenadas em algumas partes, como se o próprio artista tivesse perdido o controle enquanto pintava aquela paixão. Mas o que mais me prende é a maneira como o casal se toca. Não existe apenas desejo ali. Existe necessidade. Como se eles fossem incapazes de sobreviver longe um do outro. Sebastian permanece muito perto de mim enquanto observamos a obra. Perto demais. Consigo sentir o calor do corpo dele mesmo sem tocá-lo. O perfume amadeirado invade meus sentidos lentamente, me deixando perigosamente consciente da presença dele ao meu lado. Meu coração acelera. E quanto mais tento ignorar isso, pior fica. O silêncio entre nós parece pesado agora. Cheio de alguma coisa que não deveria existir. Engulo em seco discretamente. Porque não consigo parar de perceber a proximidade dele. A respiração calma. O calor. A tensão silenciosa. E a pior parte é a pergunta que invade minha mente naquele instante: Só eu estou sentindo isso? — Existe um estilo de pintura chamado sentir e expressar — Sebastian explica em voz baixa, mantendo os olhos no quadro à nossa frente. — Alguns artistas acreditam que certas emoções só podem ser reproduzidas com verdade quando são vividas primeiro. Eles se permitem sentir… para depois transformar aquilo em arte. Mordo levemente o lábio inferior, observando novamente a pintura do casal. — Deve ser intenso… — murmuro. Sebastian pega delicadamente a xícara das minhas mãos. Franzo a testa sem entender, mas então ele me conduz lentamente até a mesa de pintura do ateliê. E, naquele instante, percebo o que ele quer dizer. Ou talvez… o que ele quer sentir. Meu coração dispara. — Não estou me aproveitando de você, Luana. — A voz dele sai séria, quase preocupada. — Por favor, não entenda errado. Ergo os olhos para ele. E pela primeira vez desde que nos conhecemos, Sebastian parece realmente abalado. Como se estivesse lutando contra si mesmo antes mesmo de ultrapassar qualquer limite. Mas eu também estou sentindo aquilo. A tensão. A conexão. Essa necessidade absurda de entender o que existe entre nós. — Algumas artes foram feitas para serem sentidas de verdade — respondo baixinho. Antes que eu pense demais, sento-me sobre a mesa de madeira. Sebastian me observa em silêncio. E existe algo perigosamente intenso na maneira como ele me olha agora. Como se estivesse tentando se controlar. Como se estivesse constantemente se lembrando de que eu sou sua aluna. Ele se aproxima devagar. Meu corpo inteiro reage instantaneamente à proximidade dele. Um arrepio percorre minha pele enquanto o perfume amadeirado invade meus sentidos outra vez. Sebastian para entre minhas pernas, mantendo os olhos presos nos meus. Meu coração b**e tão forte que chega a doer. Olho rapidamente para a pintura atrás dele, observando a posição do casal. Então, lentamente, levo minhas mãos até o rosto dele. A barba curta roça meus dedos, provocando um arrepio delicioso na minha pele. A textura áspera contrasta com o calor da pele dele, e isso só piora tudo. Encostamos nossas testas. Fecho os olhos por um instante. Estou ofegante. E percebo que Sebastian também está. O silêncio ao nosso redor parece carregado demais. Quente demais. As mãos dele deslizam lentamente pelas minhas costas, e preciso prender a respiração para impedir qualquer som constrangedor de escapar dos meus lábios. Meu corpo inteiro responde ao toque dele. Desço minhas mãos até seu pescoço, sentindo a barba roçar suavemente minha bochecha enquanto permanecemos absurdamente próximos. Tão próximos que bastaria um movimento mínimo para nossos lábios se encontrarem. — Sebastian… — sussurro o nome dele sem perceber. Como se aquilo fosse um choque de realidade, ele se afasta imediatamente. Rápido demais. O calor desaparece junto com a proximidade dele. Sebastian passa a mão pelos cabelos, claramente tentando recuperar o controle da própria respiração. — Desculpe, Luana. — A voz dele sai rouca. — Não foi minha intenção. Mas a forma como ele ainda me olha deixa claro que aquilo também mexeu com ele. Mordo discretamente o lábio inferior, tentando afastar da mente todas as imagens perigosas que insistem em surgir envolvendo meu professor. O silêncio entre nós continua estranho. Pesado. Cheio daquela tensão que nenhum dos dois parece saber como ignorar agora. Preciso mudar de assunto antes que eu faça alguma loucura. — Então… professor, quantos anos você tem? — pergunto, escolhendo a primeira pergunta aleatória que surge na minha mente. Sebastian abre um sorriso de lado imediatamente, como se tivesse percebido exatamente o que estou tentando fazer. Ele se apoia casualmente na mesa próxima, cruzando os braços. Meu Deus. Até relaxado ele consegue parecer absurdamente atraente. — Quantos anos você acha que eu tenho? — ele devolve a pergunta. Finjo pensar enquanto o observo melhor. Sebastian é claramente mais velho do que a maioria dos alunos da universidade, mas ao mesmo tempo não transmite aquela formalidade rígida dos outros professores. Existe algo jovem nele. Vivo. Intenso. Talvez seja o jeito como fala. Ou a forma como olha para as pessoas como se realmente as enxergasse. — Vinte e oito? — arrisco. Ele ri. E aquela risada baixa e rouca definitivamente não ajuda meu estado mental. — Você ainda me deu dois anos a menos. — O sorriso permanece em seus lábios. — Tenho trinta. Abro um pequeno sorriso involuntário. Trinta anos. Deveria parecer muito mais velho para mim. Mas não parece. Volto minha atenção para os quadros espalhados pelo ateliê, tentando ignorar o efeito que a presença dele continua causando em mim. Mas então um arrepio percorre lentamente minha nuca. A sensação é tão intensa que nem preciso olhar para saber. Sebastian está me observando novamente. E a maneira silenciosa como ele faz isso… Me deixa perigosamente sem ar.






