3. Mentiras.

A tensão entre o dever e o desejo pairava sobre a mesa de lírios brancos. Roger e Ellen, dois estranhos encenando um papel sob a b****a de um destino que nem eles mesmos compreendiam totalmente, jogavam um jogo de xadrez emocional onde cada palavra era um movimento calculado.

— Ellen, tente ouvir mais essa voz que fala com você. Talvez assim descubra algo importante — sugeriu Roger, sua voz carregada de um significado oculto.

Por dentro, Roger sentia **Verto** inquieto. O lobo sabia que aquela "voz" era a loba de Ellen, **Runa**, tentando romper o bloqueio do acidente. Se Ellen não se abrisse para essa conexão, a transformação jamais ocorreria, e Verto continuaria órfão de sua contraparte.

— As pessoas vão pensar que eu sou maluca se eu começar a responder aos meus próprios pensamentos — rebateu Ellen, tentando manter a face impassível enquanto o garçom servia seu café puro.

Ela esperou o homem se afastar antes de continuar, a voz tensa:

— Amor, eu preciso descansar um pouco.

— Você pode descansar quando quiser, querida. Prefere subir agora? Eu vou com você — ele disse, com uma determinação que a fez estremecer.

— Eu não estou falando de subir para o quarto. Eu estou falando de viajar — ela disse, a irritação começando a transbordar.

— Tudo bem, vamos viajar para onde você quiser — rebateu ele, mantendo a farsa da normalidade, embora sua expressão fosse de pura confusão.

— Não! — Ellen quase gritou. — Eu quero ir sozinha. Preciso de um tempo para colocar minha mente em ordem.

Sua voz vacilou no final ao ver o olhar de decepção dele. No fundo, ela se sentia péssima. Qual era o nome dele mesmo? Ela vasculhou a mente em pânico. Qual era o nome?

— *"ROGER!"*, gritou a voz em sua cabeça.

— Não precisa gritar — murmurou Ellen para si mesma, abaixando os olhos.

Roger a observava como um predador analisa sua presa. Ele sabia que ela planejava uma fuga e tinha quase certeza do destino: a mansão do velho Robert. Era exatamente para lá que ela deveria ir. O avô de Ellen já estava à espera.

— Tudo bem, Ellen. Você pode viajar sozinha — cedeu ele, surpreendendo-a. — Eu também tenho uma viagem de negócios pendente. Nos encontramos em alguns dias.

O sorriso que brotou nos lábios dela foi instantâneo e, para Roger, doloroso. Estava claro que ela não lembrava dele, mas ele jogaria o jogo dela. Precisava conquistá-la do zero, mesmo que isso significasse deixá-la partir.

— De repente, me deu uma fome... — disse ela, subitamente doce.

Aproveitando a guarda baixa, Roger levantou-se e sentou-se ao lado dela. Ele levou a mão aos cabelos castanhos escuros, sentindo a textura sedosa enquanto seus olhos verdes buscavam o azul profundo dos dela. Ele se inclinou e a beijou.

No instante em que seus lábios se tocaram, o tempo parou. As respirações se misturaram e os corações bateram em uma sincronia impossível para dois estranhos. Ellen sentiu uma descarga elétrica percorrer sua espinha; era como se seu corpo lembrasse do que sua mente esquecera. Por um momento, ela se sentiu livre, reconhecendo-o como seu parceiro, sua âncora.

— Roger... — sussurrou ela contra os lábios dele, o beijo tornando-se quente e urgente.

Roger teve que se afastar. Ele sentia **Verto** rugindo de desejo, pronto para assumir o controle se aquele beijo continuasse. Ele não podia forçá-la, não antes da Lua Cheia. Ele levantou-se e depositou um beijo terno na testa dela.

— Tome um café reforçado, suba e faça suas malas. Coloque sua mente em ordem, meu amor. Nos vemos em uma semana na casa do seu avô.

Ele parecia o marido perfeito: chateado pela separação, mas seguro o suficiente para deixá-la ir. Ellen olhou para cima, encontrando o olhar intenso dele.

— Tá bom, meu amor. Vou seguir sua instrução direitinho.

Assim que ele se foi, Ellen ficou sozinha com seus pensamentos. Roger sabia que a Lua Cheia estava próxima e que a loba de Ellen, após um milênio de silêncio, desejaria sair para contemplar a noite. Ellen ainda não sabia, mas sua viagem não era para um refúgio, era para o despertar de sua verdadeira natureza.

**O jogo de espelhos continuava, mas o reflexo da Lua estava começando a brilhar.**

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