2. " O encontro"

Ellen olhou-se mais uma vez no espelho antes de descer. O terninho bege com a blusa marrom abraçava suas curvas com uma precisão que a deixava desconfortável; parecia que aquela roupa conhecia seu corpo melhor do que ela mesma. Com o glamour do scarpin e a loba **Runa** agitando-se silenciosamente em seu âmago, ela partiu para o restaurante.

— *"Que sorte a sua, não se lembrar de que era casada"*, ironizou Ellen para si mesma.

No restaurante, ela buscava a tal "Mesa de Lírios Brancos". O plano era simples: fingir até lembrar. O que ela não imaginava é que, do outro lado do salão, o homem que a esperava estava afundado no mesmo pântano de incertezas.

Roger ajeitou o punho da camisa, sentindo o suor frio. Ele seguia as instruções rígidas do velho Robert, mas quando seus olhos finalmente encontraram Ellen caminhando pelo restaurante, o fôlego lhe escapou.

Seus olhos verdes fixaram-se nela, detalhando cada traço. O contraste era hipnótico: os cabelos de um castanho tão escuro que pareciam moldados em ébano caíam em ondas pesadas, mas eram os olhos que o prendiam. Um azul cristalino e profundo, tão claro que parecia carregar o reflexo de um oceano gelado, algo que desafiava a lógica da cor de seus fios.

— *"Olhe para ela, Roger"*, rosnou **Verto** em sua mente, a voz do lobo carregada de uma admiração selvagem. *"A pele dela tem o brilho da lua e o cheiro da floresta ao amanhecer. Ela é uma obra-prima de contradições. Como pudemos esquecer o sabor de alguém assim?"*

— *"Verto, contenha-se. Estamos atuando"*, rebateu Roger mentalmente, embora suas mãos tremessem levemente. *"Se ela desconfiar que eu também estou seguindo um roteiro, tudo desmorona."*

— *"Atuar?"*, o lobo riu. *"A beleza dela não é uma atuação. O azul daqueles olhos poderia desarmar o guerreiro mais feroz. Ela não é apenas a 'escolhida', ela é a nossa perdição."*

— Bom dia! — cumprimentou Ellen, sentando-se com uma elegância que parecia ensaiada. — Gostaria de um café puro, sem açúcar, por favor — pediu ao garçom, tentando ganhar tempo.

Roger sorriu, um sorriso que ele esperava parecer caloroso e não predatório, enquanto observava como a luz do sol fazia o azul dos olhos dela brilhar ainda mais contra o tom escuro do cabelo.

— Meu amor, você dormiu bem? — perguntou ele.

— Bem, obrigada — respondeu ela, sucinta.

— Docinho, você parece incomodada. Sabe que pode confiar em mim para tudo — insistiu Roger, usando o apelido que o padrinho garantira que ela adorava.

Ellen observou os olhos verdes dele. Ele era deslumbrante, mas havia algo na forma como ele falava que soava... coreografado.

— Não, meu bem, pode ficar tranquilo. É só uma voz que não sai da minha mente, me incomodando o tempo todo. Talvez seja um efeito colateral do acidente — confessou ela.

Roger sentiu um calafrio. **Verto** continuava a sussurrar sobre como o azul dos olhos dela parecia ler sua alma, mesmo que ela não se lembrasse dele.

— Eu entendo, querida. Eu também sinto... uma confusão às vezes — mentiu Roger habilmente, tentando criar uma cumplicidade baseada em uma mentira compartilhada.

Eles se olharam por cima das xícaras de café. Dois desconhecidos unidos por uma certidão de casamento e pela manipulação de um avô que jogava um jogo muito maior do que eles podiam imaginar.

**O amor era a promessa, mas a farsa — e aquela beleza perturbadora — era a única realidade que tinham no momento.**

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App