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4. Capítulo: voltando para casa

Já se haviam passado oito horas desde que vira Ellen partir. Sozinho, ele mergulhou em memórias que pareciam pertencer a outra vida. O casamento, há nove meses, fora uma ironia do destino: sua missão era levá-la ao altar o mais rápido possível, mas fora Ellen quem, com uma determinação misteriosa, tomara as rédeas e o conduzira até lá.

Depois daquela noite, o silêncio durou oito meses. Roger recorreu a Robert, o patriarca dos Lisboa. O contrato era claro: a linhagem pura das mulheres daquela família deveria se unir à matilha dos **Treves**. Ana Til fora uma tentativa de traição de Robert; ele tentara poupar Ellen enviando a neta preterida. Mas o pai de Roger, o Alfa Supremo, farejou o engodo e exigiu a verdadeira herdeira.

Roger bufou, sentindo **Verto** inquieto em seu peito. O que o perturbava era o silêncio mental de Ellen. Ele não conseguia ler seus pensamentos ou prever seus sentimentos. Ela era um enigma envolto em uma beleza que o assombrava, especialmente a lembrança daquela noite de amor — um calor tão intenso que ele duvidava que qualquer acidente pudesse apagar.

— Roger, ela está chegando. É melhor você se esconder — avisou Robert, entrando no escritório com sua bengala e o olhar carregado de segredos.

Roger assentiu. Ele precisava estar nas sombras. A cerimônia de reivindicação se aproximava com a primeira Lua Cheia do milênio lunar. Ele teria que marcá-la com seus caninos de Alfa, selando o destino de ambos.

**Ellen**

Quando o táxi entrou na vila de **Lonlin**, o coração de Ellen disparou. Ao avistar a imponente mansão de madeira, um sorriso surgiu, apenas para desaparecer logo em seguida. Uma lembrança triste, de um ano e três meses atrás, tentou emergir, mas ela a empurrou de volta para o abismo do esquecimento.

Respirou fundo e desceu do carro. Na varanda, lá estava ele: o avô, impecável em sua camisa listrada e calça social, apoiado na bengala que parecia uma extensão de sua autoridade. Ellen correu para seus braços, sentindo o calor do lar, mas algo a fez estacar assim que cruzou a soleira.

O ar estava impregnado com um perfume amadeirado, rústico e poderoso.

— Vovô... o Roger esteve aqui? — perguntou ela, os sentidos em alerta. Sua loba interna, **Runa**, deu uma volta completa em seu subconsciente, farejando o rastro familiar.

O velho Robert a observou com olhos astutos, conduzindo-a gentilmente para o início da escadaria.

— Não, minha querida. Mas, por descuido, acabei derrubando o frasco de perfume dele no aparador. Você sabe como ele tem a mania de deixar as coisas espalhadas... você lembra, não é, Ellen?

— Eu me lembro sim, vovô — mentiu ela, sentindo um calafrio.

— Suba para o seu quarto, neta. Tome uma ducha e descanse. Logo conversaremos — disse Robert, dando um tapinha carinhoso em sua mão.

Ellen subiu os degraus, sentindo o peso do casarão sobre seus ombros.

— *"Suba logo e pare de mentir para o velho. Você mal consegue enganar a si mesma, quanto mais a ele"*, sibilou a voz incômoda em sua mente.

Ela entrou no quarto, sem saber que, do outro lado da parede, Roger prendia a respiração, contendo o rosnado de **Verto** que reconhecia, enfim, que a sua Luna havia voltado para casa. O milênio lunar estava começando, e o cheiro de Ellen agora era uma mistura de inocência e um poder que estava prestes a explodir.

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