CAPITULO 6

CAIM LEE

Começei a avançar pela floresta, erguendo a lanterna para iluminar o caminho que se abria diante de mim. O feixe de luz fraco cortava a escuridão , mas mal conseguia alcançar além de alguns metros, pois as árvores eram altas e muito próximas umas das outras, formando uma espécie de teto natural .

A vegetação rasteira era espessa — e, para qualquer pessoa comum, andar ali seria uma tarefa exaustiva, cheia de tropeços, arranhões e dificuldades para encontrar uma passagem. Mas comigo era diferente.

Eu me movia com uma facilidade surpreendente, como se cada passo fosse guiado por um instinto antigo. Caminhava com firmeza, evitando buraco, raízes e pedras escorregadias sem precisar olhar para baixo o tempo todo.

Minhas mãos afastavam os galhos que vinham em minha direção com um movimento suave e prático. Não era habilidades que tinha aprendido em livros ou reportagens; vinha de dentro. Desde criança sempre preferi lugares verdes, arborizados.

Lembrava de passar tardes inteiras na pequena mata que existia perto de casa quando era menino: subia em árvores, explorava trilhas estreitas, observava os pássaros e os insetos, e sentia uma paz que não encontrava em nenhum outro lugar. Para mim, a floresta não era um lugar de medo ou perigo — era um lugar de vida, de silêncio, de verdade.

E naquele momento, caminhando na escuridão, essa sensação de pertencimento era ainda mais forte, como se a natureza o recebesse e me protegesse, como se estivesse dizendo que estava no caminho certo.

Mas como nem tudo na vida são flores, o que já temia começou a acontecer .Primeiro, foram apenas algumas gotas grossas e espaçadas, que caíram sobre o meu rosto. Ergui os olhos para o alto, através das frestas entre os galhos, e vi que o céu, que já estava escuro, agora parecia ainda mais fechado.

— Ah, não… — murmurei baixinho, apertando o cabo da lanterna com mais força. Apressei o passo, andando o mais rápido que conseguia , tentando aproveitar o pouco tempo que ainda tinha antes que a chuva se tornasse forte. Torci que fosse apenas uma chuva passageira, daquelas que caem com força por alguns minutos e depois desaparecem. Mas o desejo foi em vão.

Em poucos instantes, as gotas se transformaram em uma cortina densa e contínua de água, que caía com violência, fazendo um barulho ensurdecedor ao bater nas folhas— um som que enchia todo o espaço, abafando qualquer outro ruído.

A água escorria pela minha roupa, que logo ficou encharcada e pesada, grudando no meu corpo e tornando cada movimento um pouco mais difícil. — Eu devia ter olhado a previsão do tempo hoje de manhã… que idiota que eu sou — pensei sentindo uma pontada de raiva de mim mesmo.

A chuva não parava, pelo contrário: parecia aumentar a cada segundo, como se o céu tivesse se aberto de vez. E o pior ainda estava por vir: o solo, que já era úmido por causa da sombra e da vegetação, rapidamente se transformou em lama escura e pegajosa.

Meu tênis, que tinha escolhido por serem resistentes e firmes, agora afundavam a cada passo.

A trilha que seguia, que antes era apenas estreita, agora se tornava um caminho escorregadio, cheio de poças de água que se formavam nas partes mais baixas.

— Se continuar assim, não vou conseguir chegar nem perto do destino, muito menos voltar depois — refleti, mas mesmo assim continuei .A decisão que tinha tomado na noite anterior, era firme: iria até o fim, custasse o que custasse. E a chuva, a lama, o frio, eram apenas obstáculos — e obstáculos existiam para ser superados.

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Laboratório de Pesquisas Genéticas

A cerca de três quilômetros dali, escondido no coração daquela floresta densa e remota, ficava o que, nos documentos de Caim, era chamado apenas de “Laboratório de Estudos Avançados”. Na realidade, era um complexo grande, construído com materiais resistentes e de alta tecnologia, mas projetado de forma a se misturar com o ambiente ao redor: as paredes externas eram revestidas de pedras e madeira, e as estruturas mais altas eram cobertas com telhados que imitavam a cor e o formato das copas das árvores, para que, vistas de cima, não parecessem nada mais do que parte da floresta.

O lugar ficava a dezenas de quilômetros do centro da cidade, numa região de difícil acesso, escolhida com uma estratégia impecável por aqueles que idealizaram o projeto.

A cidade onde Caim vivia — e onde o laboratório estava instalado — era um lugar curioso: tinha ruas asfaltadas, comércio variado, hospitais, escolas, todos os sinais de desenvolvimento, mas ainda mantinha as características de uma cidade do interior, pequena, tranquila, muito longe de ser uma grande metrópole barulhenta ou movimentada.

E foi exatamente isso que atraiu os responsáveis pelo projeto. Nada melhor, para esconder atividades proibidas e perigosas, do que uma floresta fechada, numa cidade do interior de um país subdesenvolvido, onde a fiscalização era fraca, a lei não era sempre cumprida e, principalmente, onde o governo era conhecido por ser profundamente corrupto. Dinheiro, favores, promessas de poder e desenvolvimento eram suficientes para fazer com que autoridades olhassem para o lado, assinassem papéis que não liam e deixassem que coisas terríveis acontecessem ali, longe dos olhos do mundo.

Para quem passava perto ou via a região de longe, parecia ser apenas uma floresta como qualquer outra: cheia de árvores, animais, silêncio e natureza. Mas essa era apenas a aparência. Na realidade, todo aquele território era uma área altamente vigiada, protegida por sistemas de segurança que custavam milhões.

Havia câmeras de vigilância escondidas em troncos de árvores, arbustos, no alto de galhos, em todos os caminhos e trilhas, com lentes que captavam imagens mesmo na escuridão total. Havia sensores de movimento que detectavam qualquer passo, qualquer vibração. E, acima de tudo, havia drones que sobrevoavam a região dia e noite, silenciosos e rápidos, com câmeras térmicas que conseguiam identificar o calor do corpo de um ser humano ou de um animal, mesmo que estivessem escondidos debaixo de folhagens ou buracos.

Para justificar toda essa segurança, e também para manter pessoas comuns afastadas, o governo tinha criado uma lei oficial, publicada nos jornais e divulgada na televisão: declarava toda a extensão da floresta como uma “Reserva Ecológica de Proteção Integral”, onde existiam espécies raras de plantas e animais em risco de extinção, e que, por isso, ninguém poderia entrar, sob pena de multa, prisão ou processos judiciais.

E essa explicação servia perfeitamente: ninguém achava estranho ver homens armados patrulhando os arredores,  ou placas de “PROIBIDO ENTRAR — RISCO DE MORTE”. Todos aceitavam que era para proteger a natureza, e ninguém perguntava mais nada.

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