Mundo ficciónIniciar sesiónCAIM LEE
48 HORAS ATRÁSO relógio marcava exatamente 8 horas da manhã quando eu atravessei a porta de entrada daquilo que, com toda a franqueza, só pode ser chamado de chiqueiro — embora o nome oficial seja Editorial do Jornal Dia a Dia, o lugar onde trabalho há pouco mais de um ano.
Hoje em dia, ninguém mais compra ou lê jornais impressos; as notícias circulam todas no nosso site. Não que o meu chefe, o senhor James, ache isso ruim: pelo contrário, a versão online corta custos de impressão, distribuição e papel, e ele sempre repete que “dinheiro economizado é dinheiro ganho”, mesmo que isso signifique reduzir cada vez mais a qualidade do que publicamos.
Cumprimento alguns colegas que já estavam nas mesas, trocamos um bom dia rápido, e caminho até a porta da sala de James. Bato duas vezes, como é a regra, e entro sem esperar muito tempo, carregando duas coisas nas mãos: uma caixa de papelão com rosquinhas de baunilha com cobertura de chocolate — o sabor que eu sei que ele gosta mais — e uma pasta grossa, cheia de papéis, anotações, fotografias e relatórios, tudo o que reuni nas últimas semanas sobre um assunto que mexeu comigo desde o primeiro momento em que ouvi falar.
Sim, isso mesmo: estou tentando comprar o meu chefe com rosquinhas. É uma estratégia pequena, talvez até ridícula, mas eu aprendi cedo que, em um lugar como esse, qualquer pequeno detalhe que possa abrir uma porta vale a pena.
Assim que ele levanta os olhos do computador e me vê parado ali, com o sorriso mais largo e convincente que consigo fazer, já aparece na sua cara aquela expressão de quem pensa: “a última pessoa que eu queria ver logo pela manhã era você”. E, para ser totalmente honesto, o sentimento é recíproco: se eu pudesse escolher, também não passaria nem cinco minutos olhando para a cara daquele homem, sempre carrancudo, sempre desconfiado, achando que tudo o que faço é errado ou inútil. Mas a realidade é que eu preciso desse emprego, e ele é quem manda aqui.
Primeiro, coloco a caixa de rosquinhas na beirada da sua mesa, bem na frente dele, e em seguida entrego a pasta diretamente nas suas mãos, com um ar de confiança que eu nem sempre sinto por dentro, mas que preciso demonstrar.
— Senhor James, tenho certeza absoluta que essa história vai virar um escândalo nacional — começo, com a voz firme. — Me deixa investigar esse caso, por favor. É o tipo de matéria que muda tudo, tanto para o jornal quanto para mim.
Ele não responde de imediato. Abre a pasta, pega os primeiros papéis e começa a ler, enquanto pega uma rosquinha com a outra mão e come devagar, como se estivesse avaliando não só o que está escrito, mas também o valor do meu pedido. Seus olhos correm rapidamente pelas linhas, de vez em quando franze a testa, mas não diz nada. Até que, de repente, fecha a pasta com um baque seco, j**a-a de volta sobre a mesa com um ar de puro aborrecimento e revira os olhos, como se eu tivesse dito a maior bobagem do mundo.
— Caim, esse caso parece um absurdo completo — diz ele, com a voz dura. — Além disso, nós não temos recursos, não temos tempo e não temos estrutura para sair por aí investigando coisas que provavelmente não existem.
— Mas senhor… — tento interromper, mas ele levanta a mão, pedindo silêncio, e agora olha para mim com os olhos firmes, sérios, como se estivesse me repreendendo por algo grave.
— Pode ser só um trote, uma brincadeira de mau gosto — continua, sem dar espaço para eu falar. — Onde já se viu um laboratório funcionando escondido, fazendo pesquisas proibidas, envolvendo pessoas que desaparecem do nada? Era só o que me faltava, eu me meter em confusão dessas e acabar com o pouco de credibilidade que esse jornal ainda tem.
— Mas senhor, a minha fonte é confiável — insisto, sentindo a frustração começar a subir pelo peito. — É alguém que trabalhou perto disso, que viu coisas com os próprios olhos. Essa pessoa jamais mentiria para mim sobre algo assim, eu tenho certeza.
Ele solta uma risada curta, sarcástica, e balança a cabeça.
— Acho que você e a sua tal de “fonte” andam vendo ficção científica demais, ou assistindo a muitos filmes de ação — responde, com desdém. — Coisas assim só existem na televisão, Caim, não na vida real.
— Mas eu tenho provas, senhor — pego a pasta de volta da mesa, abro novamente e aponto para alguns documentos. — O senhor viu os arquivos: tem datas, tem nomes, tem locais, tem relatos de pessoas que sumiram sem deixar rastro. Isso é coisa grande, muito grande, envolve até pessoas do governo, autoridades que poderiam estar escondendo tudo isso.
— CHEGA, CAIM! — ele grita de repente, batendo a mão na mesa com tanta força que a caixa de rosquinhas balança. — Isso é mais um motivo para eu não me envolver, e nem envolver o nome do meu jornal nessa merda toda. Se você quiser continuar sendo repórter aqui, faça apenas o seu trabalho, as matérias que eu mando, as notícias que são seguras e não nos trazem problemas.
Ele se levanta um pouco da cadeira, inclina-se para frente e continua:
— Vocês que acabam de sair da faculdade, são todos iguais: acham que sabem tudo, que são grandes jornalistas, que vão mudar o mundo com uma caneta e uma ideia. Mas a realidade é diferente, meu amigo. Você ainda é um ninguém, e se ponha no seu lugar, antes que eu tenha que te lembrar de onde você veio e quem é que paga o seu salário no final do mês.
Eu fico parado ali, ouvindo cada palavra, sentindo a raiva e a frustração queimarem por dentro, tão fortes que eu quase respondo, quase digo tudo o que penso sobre ele, sobre o jornal, sobre como ele prefere publicar notícias inúteis do que investigar o que realmente importa. Mas eu engulo tudo, fecho a pasta devagar, mantenho a expressão calma, me despeço com um aceno de cabeça e saio da sala, fechando a porta atrás de mim.
Assim que dou os primeiros passos, percebo que todos os meus colegas estão olhando para mim. Eles têm aqueles olhos típicos de fofoqueiros profissionais, como se já tivessem ouvido cada palavra da conversa. Não é difícil imaginar: as paredes aqui são finas, e a voz de James é alta o suficiente para chegar até a rua.
— Nem preciso explicar nada, né? Vocês já ouviram tudo — digo, com um meio sorriso amargo, enquanto passo por eles e vou em direção à copa, um espaço pequeno, mal iluminado, com uma pia, uma geladeira velha e uma máquina de café que vive com defeito. É o único lugar onde conseguimos respirar um pouco e conversar sem ser observados o tempo todo.
Enquanto preparo o café, colocando água para ferver e mexendo o pó com uma colher de plástico, Bia chega logo em seguida. Ela é minha amiga, das poucas pessoas aqui que realmente valem a pena, mas também é uma apaixonada por fofocas — não é à toa que ela é a responsável por escrever as colunas sobre celebridades, festas e eventos sociais, o conteúdo mais lido do nosso site. Ela se aproxima com um sorriso curioso, com as suas “antenas de detetive” já ligadas, como ela mesma costuma dizer.
— Nossa, o chefe hoje já chegou com a macaca, hein? — ela pergunta, apoiando-se na bancada ao meu lado. — O que foi dessa vez? Recusou a sua matéria de novo?
— Nem me fale — respondo, suspirando, enquanto encho duas xícaras com o café forte e preto que é a nossa marca registrada aqui. — Ele disse que é tudo bobagem,que não quer confusão.
Bia, eu sinto que essa matéria é a minha chance. Se eu conseguir provar tudo o que tenho nas mãos, vou mudar de vida. Deixo de ser o “menino faz tudo”, que escreve qualquer coisa que mandam, para ser um repórter respeitado, sério, daqueles que os grandes jornais brigam para contratar.
Rimos juntos, um riso misturado com esperança e um pouco de tristeza, enquanto passamos as xícaras para as mãos. Mas quando ouvimos o som da porta da sala de James abrindo, ambos nos assustamos e corremos de volta para as nossas mesas, fingindo que estamos trabalhando com toda a dedicação do mundo.







