Mundo de ficçãoIniciar sessãoMinha respiração ficou presa na garganta como se mãos invisíveis a comprimissem. Queria gritar, queria protestar contra aquela ordem que ecoava na minha mente como um sino fúnebre, mas sabia que desobedecer significaria algo pior do que carregar a culpa de matar um filhote.
Engoli seco. Meus dedos deslizaram até a lâmina presa na lateral da minha bota. O metal frio era tão familiar quanto o próprio batimento do meu coração, mas, naquele momento, o toque gelado parecia mais cortante que a lâmina em si. Nenhuma frieza, porém, se comparava à que eu encontrava nos olhos do meu pai — olhos que exigiam obediência absoluta, sem espaço para hesitação. O lobo diante de mim estava parado, pequeno e trêmulo. Seus olhos — grandes, claros, quase humanos — se fixavam nos meus como se procurassem algo que eu mesma já não tinha certeza se possuía. Ele não avançava. Não tentava fugir. Apenas se mantinha ali, com as patas cravadas no solo lamacento, o corpo encolhido em medo. Eu poderia terminar com aquilo em um segundo. Bastava um movimento rápido. Ele nem sentiria. Meus pés se moveram sozinhos, como se obedecessem a uma coreografia ensaiada desde a infância. A lâmina estava firme nas minhas mãos, mas minha mente era um campo de batalha, um turbilhão de ordens e dúvidas. Meu coração pulsava alto demais, abafando até o som distante da floresta. O lobo rosnou. Não com ódio, mas com um som trêmulo, quebrado — um pedido silencioso para viver. A dor apertou meu peito, mas a voz de meu pai veio como uma sentença: faça. Agora. E então, inesperadamente, ele se moveu. Um salto ágil, e as patas quebraram galhos e folhas secas ao fugirem para dentro da mata. Eu poderia deixá-lo ir. Poderia fingir que não o vi. Mas o peso do olhar de desprezo do meu pai ardia na minha memória como ferro em brasa. Não era uma opção. Não para uma Ashthorne. Corri atrás dele. A floresta se fechava ao meu redor como um labirinto vivo — troncos retorcidos, sombras longas, raízes que tentavam prender meus pés. Acima, a lua cheia pairava, pálida e distante, iluminando nosso caminho como um farol que não escolhia lados. Ele era rápido. Mais rápido do que eu esperava. Mas eu o alcançaria. Sempre alcancei. Sempre cumpri. Ainda assim, cada passo parecia mais errado que o anterior, como se meu corpo avançasse, mas minha alma recuasse. O filhote tropeçou. Uma raiz oculta prendeu sua pata e ele caiu, rolando na lama, folhas grudando em seu pelo. Um ganido curto escapou dele. Eu parei. O coração disparava, minha respiração ardia nos pulmões. Ele estava vulnerável. Eu só precisava erguer a lâmina. Mas minha mão não se movia. E foi então que a noite rugiu. O som não era como o uivo distante de um lobo comum. Era profundo, grave, carregado de ameaça e poder. Virei-me por instinto, lâmina erguida, e vi a sombra se separar da escuridão. Um lobo cinza avançava. Não um filhote. Não um adversário qualquer. O pelo eriçado refletia o brilho da lua, e os olhos… os olhos queimavam com uma fúria quase viva, como se me atravessassem. — Se não quer morrer, humana, desapareça. — A voz era rouca, arranhada, mas inegavelmente clara. Eu congelei. Lobos não falam. Não assim. Ele veio até mim como um raio. Não houve tempo para pensar. Suas garras cortaram o ar, e o impacto me lançou ao chão. O mundo girou, a terra fria contra minhas costas, e um choque agudo subiu pelo meu braço quando ele o prendeu com força contra o solo. O calor do meu sangue se misturava à sujeira, o cheiro metálico invadindo minhas narinas. Eu deveria lutar. Foi para isso que fui treinada. Mas, pela primeira vez, senti — com clareza dolorosa — que era eu quem estava na posição da presa. O grito escapou dos meus lábios quando suas garras rasgaram minha pele. A dor queimou, mas o que realmente me desarmou foram as palavras que vieram logo depois. — Hoje você sobrevive, humana. — Sua voz carregava uma gravidade que silenciou a floresta ao nosso redor. — Seus verdadeiros inimigos não somos nós. São aqueles que você chama de família. Meu coração bateu como um tambor, cada batida mais alta que a anterior. Ele recuou, mas não tirou os olhos dos meus. Não havia ódio naquele olhar. Havia algo que eu não conseguia nomear — talvez piedade, talvez compreensão… ou talvez um aviso. Eu deveria me erguer. Eu deveria atacá-lo. Era isso que esperavam de mim. Mas fiquei ali, imóvel, assistindo enquanto ele se fundia novamente às sombras, levando consigo a certeza que eu tinha sobre o que era certo e errado. O peso da lâmina nas minhas mãos parecia dobrar. O sangue escorria pelo meu braço, quente e constante. E, no entanto, o que queimava em mim eram as palavras dele. “Seus verdadeiros inimigos… são aqueles que você chama de família.” Caminhar de volta foi como atravessar um campo minado. Cada passo soava alto demais. Cada galho quebrado, cada rajada de vento, cada farfalhar de folhas parecia ter um significado que eu antes não percebia. Quando o acampamento surgiu, as chamas da fogueira tremulavam, as risadas e o som de lâminas sendo afiadas preenchendo o ar. Tudo igual. E, mesmo assim, nada igual. Meu pai estava à entrada, observando os caçadores retornarem. Seus olhos me encontraram, e a expressão endureceu imediatamente. — Onde está a cabeça do lobo? — A pergunta veio como uma lâmina, fria e afiada. Minha boca secou. O instinto me dizia para mentir. Para inventar. Mas as palavras não saíram. Pela primeira vez, eu não consegui encobrir a verdade. Eu nunca havia falhado antes. E, talvez, essa tenha sido a primeira vez em que realmente escolhi por mim. Eu sabia que haveria consequências. Consequências pesadas. Mas, naquele momento, a dúvida já tinha fincado suas garras em mim.






