Capítulo 5: Fugindo

Pietro Cavallini

Depois da confusão com a vizinha esquentadinha e do caos no trabalho, tudo que eu queria era um banho quente, paz e um pouco de silêncio.

Entrei no meu apartamento, joguei a camisa no chão, fui direto pro chuveiro e deixei a água cair sobre mim enquanto passava pela cabeça o combo completo do dia: clientes loucos, vizinha insana e uma vontade crescente de fazer merda.

Saí do banho só com uma calça de moletom baixa no quadril, peguei um copo de uísque e me joguei no sofá.

Dois goles depois...

Ding dong.

A campainha tocou.

Franzi o cenho. Quem caralhos me procura a essa hora?

Me aproximei da porta devagar e olhei pelo olho mágico.

Merda. Suzana.

A trepada mais insistente que eu já tive.

Bonita? Muito.

Boa de cama? Até demais.

Mas uma vez foi o suficiente pra ela agir como se fosse dona do meu RG e do controle da minha TV.

"Como ela descobriu meu endereço?" pensei, ainda sem abrir.

Ela tocou de novo. E bateu. E falou:

— Pietro! Eu sei que você tá aí! Vi seu carro lá embaixo, não adianta se esconder!

Puta merda.

Olhei em volta, desesperado. A porta era uma má ideia. Se eu abrisse, ela ia entrar, sentar no sofá e só sair com exorcismo.

Então, olhei pra janela.

Minha sala dava direto pra varanda do apartamento vizinho.

O da Fernanda.

E o mais absurdo? Era perto. MUITO perto.

Não pensei.

Só fui.

Apoiei o pé no parapeito, agarrei a borda com cuidado e pulei com a leveza de quem tava fugindo de um casamento forçado.

Aterrissei na varanda dela, abri devagar a porta de correr que, graças a Deus, tava encostada e entrei no apartamento vizinho como se fosse meu.

E aí...

Eu vi.

Fernanda.

De costas.

De lingerie.

Preta.

Rendada.

Pequena.

E linda.

— PUTA QUE PARIU! — ela gritou, virando com a mão no peito. — VOCÊ TÁ LOUCO? COMO É QUE ENTRA AQUI DESSE JEITO?

— FICA CALADA! — sussurrei, levantando as mãos. — Tô fugindo de uma doida! Ela vai me matar se me achar aqui.

— UMA DOIDA?! EU É QUE TÔ GRITANDO E TU VEM ME MANDAR FICAR CALADA?! SAI DO MEU APARTAMENTO, SEU INVASOR SAFADO!

Ela gesticulava igual uma italiana possessa, e o pior: a lingerie mexia junto com cada movimento.

Meu amigo ali embaixo se animou mais do que devia.

— Fernanda... por Deus... só um minuto. Ela vai embora. Eu pulo de volta e sumo da sua vida por hoje. Prometo.

Ela arregalou os olhos, apontou o dedo e soltou:

— Você é DOENTE, Cavallini! Juro por Deus! O que tem de bonito, tem de louco! E eu não quero ser parte do teu show de horrores, NÃO!

— Tá... mas você podia ser um espetáculo à parte. — soltei, olhando pra ela de cima a baixo, com aquele sorrisinho filho da mãe.

— Vai à merda! — ela gritou. — E para de olhar pra mim como se eu fosse sobremesa!

E foi nesse exato segundo que ela se deu conta.

— AI MEU DEUS, EU TÔ DE LINGERIE! — cobriu o corpo com a almofada do sofá, com a cara vermelha de ódio. — VOCÊ É UM TARADO!

— Eu sou arquiteto. Mas posso fazer reforma no seu coração, se quiser.

— SAI DO MEU APARTAMENTO ANTES QUE EU TE JOGUE PELA MESMA JANELA QUE VOCÊ ENTROU!

— Mas e se eu cair no seu coração?

— VAI TOMAR NO SEU C...

PAM!

Joguei a porta da varanda de novo. Pulei de volta pro meu apartamento.

E a risada dela ainda ecoava baixinha atrás da vidraça.

Fernanda.

Minha vizinha maluca.

A mulher de língua afiada, bunda de outro planeta...

E agora, dona oficial da minha curiosidade.

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