Mundo de ficçãoIniciar sessãoFernanda Vasques
Acordei cedo. Tomei banho. Me vesti como gente. E pela primeira vez em dias, abri o notebook com a esperança de achar um emprego que não exigisse "experiência com Excel avançado, fluência em cinco línguas e habilidade ninja com gestão de tempo". Mandei currículo pra tudo quanto é vaga. Desde redatora júnior até assistente de redes sociais de uma padaria que postava fotos sensuais de coxinhas. Minha autoestima já estava rastejando, mas a vontade de não passar fome era maior. Duas horas depois... nada. Tava prestes a socar o teclado quando abri o I*******m sem pensar. Erro fatal. Logo no topo, lá estava. Um story. Do meu ex. Coração apertou, mas minha curiosidade filha da mãe venceu. Cliquei. Era ele. Lucca. De camisa branca, sorriso de propaganda de pasta de dente e... com ela. Jéssica. Minha prima. Os dois abraçados. Rindo. E o texto embaixo? "Ela é minha paz em meio ao caos. ❤️ 2 meses com você." Dois meses. Eles tavam juntos HÁ DOIS MESES?! Ou seja... eles já se comiam quando ele ainda dormia na minha cama?! Soltei o celular como se tivesse sido queimada. A garganta fechou. O estômago embrulhou. E os olhos arderam. Peguei a bolsa, enfiei os tênis, e fui direto pra casa da Clara. Sem avisar. Sem nem pentear o cabelo. Só com a certeza de que se eu ficasse sozinha, ia cometer um crime passional ou postar alguma coisa ridícula nos stories. Toquei a campainha. — Fernanda?! — Clara apareceu com um pano de prato na mão e o avental do "Cozinha, mas com classe". — Que foi? Cê tá com uma cara de quem viu o ex de aliança! — Pior. Vi o ex com a prima. E o texto falava em "paz". PAZ, CLARA! Eu sou o quê? Uma GUERRA CIVIL?! Ela me puxou pra dentro, trancou a porta e foi direto pra cozinha. — Senta aí. Abre esse vinho. Eu já volto. Cinco minutos depois, a garrafa já tava aberta, os copos cheios, e eu chorando com a cara enfiada no colo dela. — Eu sou tão idiota... tão, tão idiota! Como é que eu não percebi? Eles deviam rir de mim pelas costas! Devem ter transado naquela festa da minha tia, enquanto eu ficava horas na fila do banheiro! Lembra? ELA SUMIU! LEMBRA?! — Lembro. E vou te dizer outra coisa... se eu não fosse sua melhor amiga, já tinha cortado o cabelo dessa vaca dormindo. — E ele, Clara... ELE ESCREVEU "MINHA PAZ". — ergui o rosto com a cara toda borrada. — Eu era a paz dele também! Até ele começar a comer a ONU! Clara tentou segurar o riso, mas falhou. — Amiga... desculpa. Mas isso foi ótimo. — Não foi! Eu ainda amo aquele desgraçado, CLARA! Mas eu também queria jogar ácido na cara dele. Isso é amor ou é doença? — Os dois. Misturado com álcool e TPM. — Eu juro... juro que nunca mais quero saber de homem. — Inclusive seu vizinho gostoso, né? Aquele que pulou sua janela e te viu de lingerie? — CLARA! — Eu só tô dizendo que talvez o universo esteja tentando te mostrar que tem homem por aí que vale a pena. — Ele não vale. Ele é insuportável. Safado. Galinha. E se acha o último orgasmo do planeta! Clara deu um sorrisinho malicioso. — E você se lembra direitinho da cueca branca dele, né? Joguei a almofada nela. — VAI À MERDA! Ela riu. Eu ri. Depois chorei de novo. E mais tarde, dormi ali mesmo no sofá, abraçada ao meu drama e ao resto do vinho. No fundo, eu sabia... Essa história com Lucca e Jéssica ainda ia doer por um tempo. Mas talvez... só talvez... Pietro Cavallini fosse mais que uma vizinhança incômoda. Talvez ele fosse a distração perfeita. Ou o desastre número dois. (***) Voltei pra casa no dia seguinte parecendo uma figurante de filme pós-apocalíptico. O sol parecia zombar da minha cara. O mundo tava normal, as pessoas andando nas ruas como se não soubessem que eu tinha tomado um chifre da própria prima e enchido a cara de vinho até abraçar a planta da Clara. Abri a porta do apartamento da minha tia, joguei a bolsa no sofá e fui direto pra varanda. As plantinhas dela — que custavam mais do que meu antigo salário — estavam meio tristes, quase tão tristes quanto eu. Peguei o regador, coloquei água e fui ali, me arrastando com cara de quem já viveu o suficiente pra não querer mais viver. Foi só quando virei o rosto que percebi... Ele. Pietro Cavallini. Sem camisa. Calça de moletom baixa o suficiente pra revelar a promessa do pecado. E regando as próprias plantas como se fosse o jardineiro dos meus delírios. — Cuidado pra não molhar mais do que a samambaia, vizinha — ele disse, sem nem olhar pra mim, mas com aquele sorrisinho filho da p*ta no canto da boca. Revirei os olhos, com o corpo inteiro doendo de tanto drama e álcool da noite anterior. — Vai tomar no regador, Pietro. Ele riu, virou o rosto na minha direção, e dessa vez me olhou de verdade. Os olhos percorreram meu pijama de pandas desbotados, o coque bagunçado, a cara amassada. — Tá viva... impressionante. Dei de ombros, regando a planta com uma vontade de afogar alguém. — Mais ou menos. Mas tô aqui, firme, forte e cheia de arrependimentos. Ele se apoiou na mureta, braços cruzados, sorriso apagando aos poucos. — O que cê tem, Fernanda? A pergunta me pegou de surpresa. Suspirei, sem nem pensar muito. — Ah, nada demais... só perdi o emprego, levei um chifre da minha prima, descobri que meu ex tá apaixonado, dormi abraçada com uma garrafa de vinho e acordei com gosto de tapa na cara emocional. Dei uma pausa. — Normal. Quarta-feira comum pra quem tem o dedo podre e o azar colado no CPF. Ele me encarou por uns segundos. Sério. Em silêncio. Depois... deu um leve sorriso. — Eu sei construir casas que não caem. Se quiser, posso tentar consertar o caos emocional aí dentro. — Ah, claro. Vai fazer um puxadinho na minha autoestima também? — Só se me deixar entrar pela porta da frente. — Você é tão idiota. — E você é tão linda com essa cara de ressaca que chega a me preocupar. Pisquei. Virei de costas antes que meu rosto entregasse qualquer reação. Mas lá dentro... Uma parte de mim sorriu. Mesmo que fosse a parte errada.






