Mundo de ficçãoIniciar sessãoPietro Cavallini
A porta do elevador se fechou com ela bufando e me xingando mentalmente. Eu ainda conseguia ouvir o som das pantufas batendo no chão, marcando o ritmo da fúria. Mulher maluca. Boca afiada. Olhar mortal. Delícia. Permaneci ali, parado, de braços cruzados e com um sorriso safado no rosto, como quem assiste a um espetáculo. Eu adorava mulheres difíceis. Mas aquela ali? Aquela era um desafio com estampa de donuts e cara de ressaca existencial. Me virei pro porteiro, ainda sentindo o perfume doce e revoltado que ela deixou no ar. — E aí, seu Jorge... qual o nome da vizinha nova? O velho levantou a cabeça devagar, tentando manter a pose de funcionário ético e discreto. — Não posso informar, senhor Pietro. Coisas do condomínio... privacidade dos moradores, o senhor entende. — Entendo. — sorri, me encostando no balcão com a mesma cara que usava pra convencer clientes a derrubar uma parede. — Mas olha, imagina que eu só quero mandar flores. Uma caixinha de desculpas. Uma gentileza de vizinho civilizado. Ele me olhou com desconfiança. — O senhor parece mais um furacão do que um vizinho civilizado. — Toquei na buzina sem querer, ué — dei de ombros, com cara de inocente. — Ela se jogou no capô. E ontem foi ela quem veio bater aqui, lembra? Tava com sangue nos olhos. Quase me exorcizou. Seu Jorge apertou os olhos e bufou. — Só o primeiro nome. E o senhor finge que não veio por mim. — Fechado. — Fernanda. O nome dela é Fernanda. — Fernanda... — repeti em voz baixa, deixando o nome escorregar pela língua. — Combina com ela. Tem cara de quem te manda pra merda e depois faz drama no chuveiro. Voltei pro meu apartamento satisfeito. As duas mulheres que estavam ali na noite passada já estavam vestidas, rindo e procurando as bolsas. — Pietro, você é um caso perdido. — disse uma delas, ainda me olhando como se eu fosse sobremesa. — Sou um caso delicioso, meu bem. Mas com prazo de validade curto. Foi um prazer. Literalmente. Fechei a porta assim que elas saíram. Tirei a cueca que já tava implorando por paz, fui pra cozinha, tomei um café preto e amargo como minha reputação, e depois fui direto pro banho. A água caiu nos meus ombros enquanto eu pensava na minha vizinha. Fernanda. A mulher que queria dormir e me mandou calar a suruba. A que andava de pantufa e conseguia ser sexy até com pijama infantil. — Isso vai ser divertido... — murmurei. Minutos depois, já estava saindo, cabelo alinhado, camisa social escura com os primeiros botões abertos e o relógio de pulso marcando minha pontualidade duvidosa. Desci do prédio, entrei no carro e rumei direto pra minha empresa. Cavallini Arquitetura & Design. Minha paixão. Meu império. E o único compromisso que eu ainda mantinha fielmente. Mulheres vinham e iam. Mas as estruturas que eu criava... Essas sim, duravam. Mas confesso... Tava começando a ficar tentado a construir alguma coisa bem sólida na cabeça daquela vizinha. Nem que fosse um altar pro meu ego. (***) O dia na Cavallini Arquitetura foi uma bomba relógio. Três reuniões, dois projetos emperrados e uma cliente neurótica que queria transformar um banheiro de dois metros em um spa com jacuzzi. Porra. Quando cheguei no prédio, já passava das oito da noite. Meu corpo implorava por banho, comida e silêncio. Mas assim que me aproximei da minha porta... o silêncio que eu tanto desejava foi substituído por um monólogo furioso e dramático vindo do apartamento ao lado. A vizinha. Fernanda. A voz dela cortava o corredor com emoção de novela mexicana. Fiquei parado com a chave na fechadura, só ouvindo. — EU NÃO QUERO MAIS SABER DE HOMEM, CLARA! Juro! Tô cancelando o gênero masculino da minha vida! Uma pausa. E mais gritos. — Só arrumo canalha! Tudo farinha do mesmo saco. Um mais imbecil que o outro! Parei, inclinei a cabeça, apoiado na porta. Isso tava ficando bom... — E o pior é que... — a voz dela ficou mais baixa, meio trêmula — ...eu ainda amo aquele desgraçado. AINDA AMO, CLARA! Me diz como que desliga isso? Odiava ver mulher chorando. Mas confesso que a mistura de fúria e vulnerabilidade nela... era absurdamente sexy. Me aproximei mais, e ela me viu pelo olho mágico ou sentiu meu cheiro, sei lá. Porque em dois segundos, a porta se abriu com violência e ela apareceu. De moletom, coque mal feito e olhos brilhando. — TÁ ME ESPIONANDO, SEU CANALHA? — ela cuspiu, sem nem me dar tempo de dizer oi. — Tava só tentando entrar em casa — dei um sorriso lento, provocativo —, mas ouvi uma alma rasgada se esgoelando no corredor... e pensei: será que mataram um gato? — Vai se ferrar, bonitão! Se quiser bancar o engraçadinho, vai fazer stand-up em outro lugar. Aqui é zona de guerra emocional! Cruzei os braços, encostando no batente da porta dela como quem não tinha o menor senso de limite. — Então quer dizer que alguém foi trocada? Ergui uma sobrancelha. — Que pena... e você parece ser tão... dedicada. Ela travou. Por um segundo, a ferida bateu nos olhos. Mas logo o sarcasmo voltou com força. — Eu sou dedicada, sim. A me foder emocionalmente com cada embuste que aparece. E olha só... você tá no topo da lista só de respirar perto de mim. — Mas que honra, Fernanda. — sorri, com a cara mais debochada do mundo. — Só pra constar: eu não sou embuste. Eu aviso antes que não presto. Ela cruzou os braços, o moletom subindo um pouco e revelando parte da cintura. — Nenhum homem presta. — Discordo. Dei um passo à frente. — Eu presto. Em todos os sentidos. Ela piscou. Engoliu seco. Mas não recuou. — Presta pra mim o silêncio, então. E BATEU A PORTA NA MINHA CARA. Eu ri. Alto. Essa mulher é um furacão. E pela primeira vez em muito tempo... Eu tava afim de entrar no olho dele.






