Capítulo 3: Som nas alturas.

Fernanda Vasques

Já passava da meia-noite quando o som começou.

Primeiro, uma batida baixa.

Depois, uma música.

Em seguida... risadas. Femininas. Altas. Chilreantes. Daquelas que só podem ser feitas por quem tá em posição horizontal com algum tipo de brinquedo na mão ou uma intenção sexual bem clara.

Me virei na cama bufando, tentando ignorar.

"É coisa da sua cabeça, Fernanda. Vai passar..."

Mas não passou.

Pelo contrário, aumentou.

Agora tinha o quê? Duas? Três vozes? E tinha um gemido.

Um gemido!

EU TAVA OUVINDO UM FILME ADULTO AO VIVO PELA MINHA PAREDE!

— NÃO! — gritei, jogando o travesseiro no chão. — Isso é tortura. Eu só quero dormir! Amanhã tenho que procurar emprego, parecer uma adulta funcional, não um zumbi raivoso!

O som de uma risada aguda explodiu de novo.

Levantei da cama.

Pisei no chão com fúria.

Enfiei o primeiro roupão que achei e desci pro corredor do andar com o cabelo preso num coque bagunçado e cara de quem ia processar a NASA, se fosse necessário.

Até onde eu sabia, o apartamento ao lado estava vazio. Mas pelo visto, o novo morador chegou fazendo orgia e esquecendo o conceito de respeito ao silêncio noturno.

Toquei a campainha uma vez.

Nada.

Toquei a segunda vez.

Mais barulho.

Então... eu bati. BATI DE VERDADE. Estilo cobrador de aluguel com fatura vencida.

A porta se abriu devagar e...

DUAS MULHERES.

De lingerie.

Rindo, com o cabelo bagunçado e cara de "acabei de gozar e quero repetir".

— Boa noite, flor do dia! — disse uma, rindo.

Eu não respondi. Só levantei uma sobrancelha e mandei:

— Querida, isso aqui é um prédio residencial. Não o OnlyFans. Dá pra baixar o volume da suruba? Eu tô tentando dormir e não tô recebendo comissão por ouvir essa palhaçada.

— Ai, desculpa... — disse a outra, sem disfarçar o deboche. — A gente vai...

Mas antes que ela terminasse, ELE apareceu.

Cueca branca.

Cabelos bagunçados.

Corpo nu molhado de suor.

O homem que tinha me atropelado. Maldito.

Ali. Com cara de satisfeito, sorriso sacana e a audácia de um sem-vergonha.

— Ora, ora... — disse ele, se encostando no batente da porta como se estivesse num comercial de cueca Calvin Klein. — A miragem falante voltou.

— Não tô com paciência pra piadas. Manda as tuas funcionárias pro carro de volta e BAIXA O SOM. Eu quero dormir. Ou preferem que eu chame a polícia e explique que tô sofrendo assédio sonoro e psicológico por causa dos seus gemidos e dos gritos de "Ai, gostoso, mais forte!"?

Ele riu.

Com gosto.

— Quer entrar? Acho que ainda tem vaga na cama. Só precisa deixar a raiva no cabide e trazer a bunda grande.

Eu paralisei.

Pisquei duas vezes.

— Você... — respirei fundo — ...é a mistura de canalhice com testosterona vencida? Porque olha... que talento pra ser insuportável.

— E você é sempre assim? Rabugenta, linda e com um sarcasmo afiado? Perigoso. Vai acabar me dando tesão.

— Vai se ferrar, babaca! — cuspi, virando as costas. — E guarda essa cueca. Tem criança nesse prédio!

Ele gargalhou lá dentro.

— Boa noite, vizinha! Qualquer coisa, é só bater de novo. Ou gemer mais alto, quem sabe?

— Vai tomar no seu...

PAM!

Porta fechada.

Fúria ativada.

Tesão reprimido.

E um desejo estranho de dar na cara dele com a minha pantufa.

E assim começou minha guerra com o vizinho gostoso, irritante e totalmente proibido.

Mal sabia eu que aquela cueca branca ainda ia tirar meu sono de muitas formas diferentes.

(***)

Acordei com a cara amassada, o cabelo grudado num lado só da cabeça e uma vontade absurda de assassinar o mundo.

Especialmente o pedaço de mundo que morava no apartamento ao lado e que, aparentemente, achava que gemido era trilha sonora noturna.

Me arrastei pela casa até a cozinha, com o estômago roncando mais alto que meu orgulho ferido.

Nada.

Geladeira: vazia.

Armário: ar seco.

Café: faltando.

— Ai, vai tomar no c* — murmurei pro universo, amarrando o robe por cima do pijama de estampa de donuts e saindo do apartamento como se estivesse indo salvar a humanidade.

Descendo no elevador, tentei evitar o espelho. Mas fui obrigada a encarar meu reflexo e ver o que o Desgraçado do Capô — aquele que me atropelou — veria se me visse: cara de ressaca emocional, olheira nível zumbi e pantufas de coelho.

Perfeito.

Mas o universo é sádico.

E claro... lá estava ele.

Na portaria.

Sem camisa.

Apoiado no balcão, rindo com o porteiro, com aquele maldito sorriso de "sei que sou gostoso e ainda faço questão de esfregar isso na cara de quem tenta fingir que não nota".

— Bom dia, vizinha — ele disse, assim que me viu. — Saiu pra comprar pão ou só tá desfilando esse pijama sexy mesmo?

Revirei os olhos com tanta força que quase vi o passado.

— Vai à merda.

— Uau. Um charme logo cedo. Gosto de mulher difícil, mas você tá quase me dando um tesão filosófico.

— Dá pra parar de falar comigo?

Ele se aproximou com calma, como se cada passo fosse feito pra provocar mais.

— Esqueci de me apresentar ontem, com a emoção da sua visita noturna — disse, estendendo a mão como se estivesse me oferecendo um contrato com o capeta. — Pietro Cavallini... E o seu?

Ah. Ótimo. Agora o canalha tinha nome.

Pietro.

Cavallini.

Nome de vinho caro e problema emocional.

Olhei pra mão dele.

Depois pra cara dele.

Depois virei de costas.

— O meu nome não é da sua conta. Mas se quiser me chamar de "Vai Se Foder", tô atendendo por esse apelido hoje.

Ouvi a gargalhada dele ecoando no saguão do prédio.

E segui andando, com as pantufas batendo no chão e a bunda balançando de raiva.

Esse homem vai me levar pra cadeia.

Ou pra cama.

Mas, com certeza, antes disso... vai me deixar completamente LOUCA

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