Capítulo 2 - A Descoberta entre as Cerejeiras

Olhei-me no espelho pela quinta vez. Troquei de roupa outras vezes até escolher um vestido azul que realçava os meus olhos, um casaco branco leve e acessórios em prata. Óculos de sol, boné e estava pronta. Sentia algo diferente naquela manhã, como se o dia me reservasse mais do que flores.

Tinha acordado bem cedo, pois sentia algo de diferente… Fazia 5 dias que tinha combinado com a minha amiga Vera, a mais carismática guia turística de Portugal, que eu ia com ela na excursão da visita às flores de cerejeira, e eu estava animada!

Peguei no meu saco de algodão cru que tinha dois cadernos, um para desenho e outro para aquarela, e conferi os lápis de grafite e o estojo de aquarela…

— A água! Não posso esquecer!

Coloquei dois pequenos frascos com água, um para limpar os pincéis e outro para diluir a aquarela, juntei a minha garrafa térmica de chá de camomila e um pote com bolachas caseiras que tinha feito na véspera.

O smartphone vibrou sobre o balcão da cozinha e a mensagem da Vera apareceu no ecrã: “Na sua esquina em 15 minutos. Não se atrase, Bela, por favor.”

Juntei tudo o que ia levar, verifiquei as janelas se estavam fechadas, chave do apartamento, ténis para caso de ter de correr. E pronto.

Com precisão, lá estava a Vera na minha esquina, como motorista com um bom grupo de turistas.

— Pronta para mais uma aventura, Bela?

— Estou sempre pronta, como sabes, Vera! — comentei aos saltos oferecendo-lhe um abraço apertado.

— Boa! Senta aqui perto de mim — apontou para uma cadeira onde havia um casaco a marcar o meu lugar. — e vamos já saindo para a aventura das Cerejeiras em Flor do Douro!

A sua voz tinha se elevado no final e pude ouvir o murmurinho animado dos turistas atrás de nós.

— Então, estás toda linda! Este passeio faz parte de algum plano, Bela? — perguntou-me a Vera iniciando um interrogatório da curiosidade.

— Verinha, se há algum plano divino a ser elaborado para mim, eu recebo de mãos abertas! — comentei cheia de graça de espírito atirando a cabeça para atrás e elevando os braços no ar.

A Vera riu alto com a minha ousadia espirituosa:

— Uau, Bela! De onde vem essa energia toda assim de manhã? — Vera baixou a voz para sussurrar na minha direção. — a sua noite de sexta foi interessante? Conta-me!

Meu rosto esquentou um pouco com a sugestão dela, mas eu já nem sabia o que eram noites de sexta assim, que não envolvam cinema caseiro e chocolate quente com especiarias.

— Vera não é nada disso! Eu só estou em busca de inspiração para o tema de uma nova turma de aquarela, por isso estou indo.

— Ah, Bela, contigo é só artes aqui e acolá, mas você sabe que existe uma vida que vai além do trabalho, certo? — a sua voz foi se tornando maternal enquanto falava.

— Eu sei disso, mas… — resolvi que tinha que falar com alguém sobre o que andava a pensar desde segunda-feira, e só podia ser com a Vera, minha amiga fiel. — Vera, acreditas que uma das senhoras do curso de desenho disse-me umas coisas que me fizeram pensar muito nestes últimos dias…

— O quê? O que essa senhora te disse, Bela? Ofendeu-te? — a Vera tinha um coração muito protetor, a sua postura ficou altiva.

— Calma, Vera, está tudo bem. A Sra. Rosa apenas disse coisas lindas sobre mim e sobre o meu trabalho como professora no atelier, disse até que meus olhos brilham, mas teve um detalhe… — cruzei os braços sobre o peito de frustração. — ela perguntou-me como é que eu não tenho namorado…

— Ahh, Bela, não é de admirar! Belíssima, como o seu nome, toda talentosa e, sendo uma joia de mulher, que tem sempre os seus lanchinhos saborosos e saudáveis — apontou para a minha lancheira. — só falta mesmo um príncipe do seu lado!

Rimos juntas, só a Vera para aliviar o meu peito apertado:

— Se será um príncipe, não sei, só quero alguém que me dê apoio nos meus projetos e que necessite de mim ao seu lado para construir algo duradouro.

— E próspero também, convenhamos! — Vera piscou-me o olho, entre sorrisos. — Mas, olha, Bela, falando sério! Você falou algo bonito aí, sobre apoio mútuo; isso é bom!

— A Vera, gratidão, que assim seja!!

— Manifesta isso, Bela! Escreva sobre esse príncipe, fisicamente e também sobre a personalidade, desenhe se você quiser! — A Vera estava atenta na estrada contornando as montanhas do Douro, ela falava aceleradamente. — Você sabe do que estou falando, certo? Da lei da atração!!

— Sim, eu conheço Vera — Eu estava acompanhando o raciocínio da Vera. Já tinha usado esse princípio para abrir o atelier. Sonhei, desenhei, escrevi, movimentei e aconteceu.

— Bela! Você está escutando?

— Oh, desculpa, Vera! Estava distraída lembrando de coisas, mas olha essa paisagem!! — debrucei-me na janela ao meu lado, a visão das curvas sinuosas do rio Douro nos tons de azul cobalto com espelhos de luz em contraste com os tons verdes das montanhas e das videiras organizadas do vinho do Porto. Era de suspirar.

— Ah, sim!! É lindo, não é? Espera mais um pouco até começarem a ver as cerejeiras em flor mais adiante. — comentou a Vera, agora sorrindo com uma pontada de orgulho. — Esta parceria que consegui com a Quinta Ferraz vai ser o destaque este ano. O lançamento da Cherry Blossom parece que vai ser um sucesso…

A Vera fica empolgada com algo, tagalerava quase sem parar para respirar, o que me deixa tonta quando… “Oh não, estou a começar a sentir-me enjoada”:

— Vera! Mais devagar!! São muitas curvas nesta estrada… estou… — comecei a suar frio, passei a mão na barriga tentando acalmar meu estômago, mas sem efeito.

— Bela respira fundo, estamos chegando, vou parar o carro em 5, 4, 3, 2 e… 1. Chegamos!

Que alívio! O enjoo parou, mas a sensação de náusea mantem-se: "preciso de ar puro". Mas tinha receio de me mexer ainda. Vi a Vera se levantando do seu lugar de motorista, ela olhou para mim e entendeu meu sinal de que eu estava melhorando e se virando para o grupo de turista comentou:

— Chegamos à Quinta Ferraz, onde vamos realizar a Excursão às Cerejeiras em Flor, que começaram a florir há poucos dias. Vamos todos saindo, com calma, um de cada vez. — agora se voltando para mim. — Então, Bela, como você está se sentindo?

— Eu e as curvas em velocidade não funcionamos bem. — olhei o casaco que estava no meu colo e perguntei. — Levo o casaco vestido? O que achas, Vera?

— Olha, Bela. Que tal sairmos também para descobrir essa resposta?

A Vera tinha razão. Peguei nas minhas coisas e saí atrás dela para um pátio onde os carros podem estacionar. O ar ali já era fresco, senti o aroma da natureza que me envolvia e o sol ardeu subtilmente nos meus braços e pernas, o cabelo solto balançou nos meus ombros com a brisa.

A Vera estava orientando os turistas e entendi que teriam um refresco ao meio da prática e que precisavam retornar a este local antes das 11h30 para voltarem à cidade. Conferi o relógio e marcava 8h42, era um bom tempo para explorar a quinta. A Vera estava se voltando para mim.

— E então, Bela, você vem comigo ou tem outros planos?

— Vera até posso ir um pouco com o grupo mas o que eu quero mesmo é explorar o lugar, se é que entendes… — mostrei-lhe os materiais de artes que tinha dentro do saco.

A Vera rodou o olhar com um riso:

— Ah, Bela, entendo sim. Você não consegue parar de trabalhar…

— Culpada! — falei levantando a mão reagindo com humor ao comentário.

— E vejo que você trouxe algo para lanchar, certo? Então, façamos assim, você pode seguir aquela trilha que vai direto ao local das cerejeiras em flor, e eu vou por outro lado com o grupo. — Vera apontava para um trilho estreito entre umas videiras mais além. — Contudo, às 11h30 nos encontramos aqui, ok?

— Combinado, Vera! — avancei para um abraço

— Agora vá! — ela foi se afastando devagar.— Não perca seu tempo precioso, quem sabe seu cavaleiro não apareça por lá?

— Então já não é mais um príncipe?

— Vai ser o que for destinado a você… — falou já se afastando com o grupo de turistas.

Eu estava por conta própria e avancei com passo firme pela trilha. Senti a inspiração chegando, então contornava algumas raízes e galhos de videiras e já ficava encantada com os tons de cor. Fui seguindo a intuição, o aroma que me envolvia era fresco com um toque subtil doce, mas a minha percepção estava nas cores, texturas, sombras e pontos de luz.

A natureza era tão encantadora… continuei com cautela para não danificar até chegar a uma encosta.

No nível abaixo começavam as linhas de árvores de cerejeira, parei admirando um extenso manto branco das copas todas em flor… respirei fundo e pude sentir um aroma inigual…

Uma brisa apurou meu olfato, senti algo como um frescor primaveril e uma doçura sutil. Desci com cautela, sem me machucar, e me aproximei das cerejeiras. Nas pontas dos pés consegui, delicadamente, aproximar uma flor ao nariz e inalei e foi curioso. Definitivamente era uma mistura suave de floral adocicado mas senti um toque muito leve de baunilha, ou era, de amêndoas.

Me afastei com esse pensamento e apercebi-me de que não estava sozinha… ouvi passos mais adiante e vi um movimento baixo. Me abaixei um pouco e vi um homem...

"Que deus grego é aquele…?"

E, pela primeira vez naquele dia, percebi que não eram apenas as cerejeiras que estavam prestes a florescer.

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