Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte I – Anabela
A pele dele tinha um tom moreno típico de muito sol, o cabelo escuro refletia um brilho caramelo ao sol. Deve ser um trabalhador com alguma especialidade porque “Ele parece concentrado… estará a analisar o solo?”
Esse pensamento aguçou a minha curiosidade, queria aproximar-me, mas sem ser notada. Não tinha intenção de incomodar o trabalho dele. Com passos cautelosos, tentei me esconder de alguma forma e puxei o bloco de desenho e um lápis, fingindo estudar as flores. Mas, na verdade, eu queria ver mais de perto aquele deus grego… e pensei: “Divino, será isto parte de um plano maior?”.
Iniciei um esboço da pose dele… Abaixado num joelho próximo à terra, as suas coxas sobressaiam contra o tecido das calças cinzas, a camisa de linho estava com as mangas arregaçadas e seus braços eram bem definidos… a tensão nos ombros era evidente mesmo à distância.
Gelei. Como numa escultura que ganha vida, ele se moveu. Agora estava de pé, estudando as pétalas das flores, fazendo com que a minha respiração ficasse suspensa… “Ele tem o corpo do David”, aquele esculpido por Michelangelo... Ele tinha um corpo atlético, a sua proporção corporal era perfeita. Senti meu coração bater mais forte… “Ah… como eu gostava que ele fosse um modelo no meu atelier, para desenho ou pintura… se bem que não sei se ia gostar de partilhar isso com mais pessoas…”
Nem acreditava que estava pensando nisso: “Bela, concentra-te!”. Rodei o corpo para não ter aquele homem no meu campo de visão: “Estou aqui com uma missão: captar inspiração para o tema da nova turma de aquarela” e avancei por entre as árvores de cerejeira para longe dali.
Parte II – CarlosAcordei antes do nascer do sol. Estava a ser um desafio ter uma boa noite de sono nos últimos dias.
As madrugadas ainda estavam frias e preocupava-me. A floração das cerejeiras exigia equilíbrio: temperatura, humidade, solo. Um descuido podia comprometer a colheita e eu não admitia falhas. Cada ciclo era decisivo.
Mais tarde, a Quinta receberia um grupo de turistas na área reservada às visitas. A nova parceria estava a correr melhor do que o esperado. Já ouvia, ao longe, as vozes animadas e o som de câmaras fotográficas. Sorri de leve. Pelo menos essa parte parecia sob controlo, eu tinha confiado a supervisão a Leonard, um amigo de confiança, experiente e ponderado.
Enquanto isso, eu pretendia manter-me na zona privada. Precisava verificar o solo, as raízes e a resistência das flores. Tudo tinha de estar perfeito.
Foi então que ouvi passos onde não deviam estar.
Endireitei ligeiramente o corpo ainda abaixado, mas atento. Se alguém tivesse ultrapassado o limite, eu interviria. Não por antipatia, apenas por responsabilidade.
Mas então vi-a.
Um vestido azul movia-se entre as árvores como se fizesse parte da paisagem. O tecido leve acompanhava o balanço do cabelo ondulado que lhe caía sobre os ombros. Trazia um bloco nas mãos.
Mantive-me abaixado, fingindo concentrar-me de novo na terra. Toquei o solo, examinei as raízes, ajustei uma pequena porção de terra junto ao tronco. Mas a minha atenção já não estava ali.
Ela não parecia perdida.
Pareceu-me… encantada.
Ela observava as flores atentamente. Depois, quase com timidez, pegou num bloco e começou a rabiscar algo.
Inclinei discretamente o olhar na sua direção.
Não eram as flores.
Era eu.
E, pela primeira vez naquela manhã, não foi a colheita que me inquietou. Foi a estranha sensação de estar a ser observado como nunca antes.
Uma estranha sensação percorreu-me a coluna. E se não fosse apenas uma visitante curiosa? E se fosse imprensa?
A desconfiança instalou-se. Isso já tinha acontecido antes. Ela podia ser uma paparazzi, enrijeci os ombros, não suportava essa gente. Levantei-me e percebi que ela se sobressaltou. Pois mudou imediatamente de direção, seguindo para a área oeste.Se aquilo fosse uma invasão, eu precisaria de certezas.Então segui-a à distância.
Percebi, mesmo à distância, que ela observava as flores com carinho e afeto. Havia um cuidado nos gestos, que relembrava reverência. Depois, entendi, ela estava a desenhar...
E não eram apenas as flores.
Eram as árvores. A luz. As linhas do terreno. Consegui ver quando ela se sentou de costas para onde eu estava, via a pegar num pincel e aplicar alguns pontos de cor.
Respirei com mais calma.
A desconfiança inicial dissipou-se. Não havia pressa, não havia ânsia de registar algo indevido. Havia contemplação.
Continuei a observá-la à distância, atento. Já não por precaução. Era, na verdade, por... curiosidade.
Ela voltou a levantar-se e caminhou devagar. Com as mãos ela escolhia ângulos. Depois ajoelhava-se para captar detalhes das pétalas espalhadas pelo solo. Tocava o tronco como se estudasse a textura. O vento levantava-lhe o cabelo e, por instantes, o sol desenhava-lhe contornos brilhantes nos ombros brancos.
Uma leveza inesperada instalou-se em mim.
Há quanto tempo eu não observava alguém observar?
Há quanto tempo não via aquele tipo de entrega silenciosa?Ela parou novamente e, dessa vez, ficou imóvel por mais tempo. O bloco apoiado no joelho. A concentração no olhar.
E então ouvi um som distante, o toque musical insistente.
Ela sobressaltou-se.
Procurou na bolsa apressadamente. O rosto mudou. A serenidade deu lugar à urgência.
Mesmo à distância, percebi.
Olhou em volta, como se tentasse orientar-se. Guardou o bloco com movimentos rápidos demais para quem antes parecia tão serena.
Tinha perdido a noção do tempo.
Observei-a a caminhar mais depressa em direção ao trilho principal. O terreno naquela zona não era simples: raízes expostas, pequenas pedras soltas, declive irregular.
Ela não conhecia aquele caminho.
Suspirei.
A responsabilidade sobrepôs-se à curiosidade. Se continuasse naquele ritmo, ela poderia sofrer um acidente.
Talvez fosse o momento de intervir, não como proprietário, nem como vigilante, mas simplesmente como alguém que conhecia aquele terreno melhor do que ela.
E, pela primeira vez naquela manhã, percebi que não era a colheita que me preocupava.
Era aquela mulher de vestido azul a tentar regressar apressadamente a um lugar que já devia ter deixado para trás.







