CAPÍTULO 3

Conversamos animadamente. Bete e Marta me contam suas vidas como professoras e como se conheceram há mais de 20 anos. Lembro-me imediatamente da minha amiga Vanessa e de como ela vibrou ao ver que decidi terminar com Henrique. Não sem antes querer partir para cima dele e lhe dar uns tabefes quando descobri que ele estava com outra. Eu que não deixei ela me vingar daquele cafajeste.

Vanessa via como eu estava feliz e me esforçando ao máximo para salvar o nosso namoro. Henrique é advogado e tinha arrumado emprego em um grande escritório com filiais espalhadas pelo país e vez por outra, ele precisava viajar para fazer audiências e para atender clientes em outros estados. Ele sempre reclamava de dinheiro e eu, otária, sempre o ajudava em nossas despesas como casal.

Eu sou uma perfeita idiota mesmo! Bancava aquele palhaço e nem me dava conta de que ele deitava e rolava com o meu suado dinheirinho. Bem, pensando sob esse prisma, Marta tem mesmo razão, foi um livramento eu descobrir tudo e terminar com aquele verme.

Quer saber? Estou mesmo me animando em encontrar alguém legal aqui no navio, nem que seja só para dar uns amassos.

— Olha, esse café é mesmo divino! — Estendo o braço para o garçom — Ei, moço! Me traz mais um expresso, por favor?

O garçom pisca para mim com um sorriso simpático.

— É claro, senhorita!

Ele tem um leve sotaque espanhol e o crachá em sua camisa mostra seu nome: Juan.

Em seguida ele vem até mim com uma xícara fumegante de café expresso. Coloco o adoçante e me preparo para dar o primeiro gole quando Bete solta:

— Olha, Marta! O capitão Park! Como ele está lindo!

Eu não me aguento e viro para trás, com a xícara na mão e sentada displicentemente sobre a cadeira alta diante do bar. Tem mistura mais catastrófica do que essa para uma pessoa desastrada como eu? Claro que não. Eu me desequilibro da cadeira e voo, com xícara de café e tudo para o chão, mas para não cair e me estatelar, seguro o braço da primeira pessoa que aparece à minha frente e derramo o café todinho sobre a roupa imaculadamente branca dele.

— Capitão Park!

Marta exclama ao me ver dependurada entre a cadeira e o braço do capitão.

Misericórdia, fiz merda. Eu pulo da cadeira, coloco a xícara sobre o balcão e consigo olhar direito para o estrago que eu fiz.

Ensopei o uniforme do capitão de café. Pior, café expresso quente.

— Meu Deus! Me desculpe! — passo as mãos em alguns guardanapos de papel e tento secar o café derramado em sua camisa.

De repente, ele agarra meu pulso. Olho para cima aturdida e vejo o olhar sombrio do oriental sobre mim. Ele é lindo. Perfeito. Alto, bem mais alto do que eu, uma nanica de 1,60 metro. E agora, com sandálias baixas, percebo como ele é bem maior do que eu. Os óculos de aros pretos finos mostram os olhos frios. Um detalhe chama a minha atenção naquele rosto perfeito: uma fina linha que percorre a lateral da têmpora esquerda, uma pequena cicatriz. Onde eu já vi uma cicatriz parecida com essa? O capitão percebe que estou olhando para ele descaradamente e me solta. Ele vai me xingar.

— Está tudo bem. Acidentes acontecem.

— Eu te queimei, tá doendo? Meu Deus, como sou desastrada!

— É verdade, já tinha percebido isso antes.

É mesmo. Ele que me salvou de eu me estabacar lá fora no porto. Olho para seu belo rosto. Ele está sério, mas seu olhar não é de raiva. Parece um olhar de curiosidade.

— Peço perdão por tê-la assustado. Agora, — ele olha para a própria roupa suja — Vou ter que me trocar.

Mordo os lábios com força.

— Me desculpe. Não foi minha intenção.

— É claro que não.

Ele disse e saiu, acompanhado por mais dois homens uniformizados.

— Meu Pai do Céu… Olha o que eu fiz… Que droga! Estraguei a roupa do homem e agora ele deve estar muito bravo comigo.

Bete se aproxima e afaga meu ombro.

— Não sei não, Márcia. O capitão Park te olhou de um jeito bem diferente, não é, Marta?

A outra amiga se aproxima.

— Também acho. Fora que essa é a terceira vez que fazemos esse cruzeiro e nunca vi o capitão Park de papinho com ninguém.

Olho para as duas mulheres.

— Vocês estão é doidas! Ele deve pedir meu fígado no jantar! Eu estraguei a roupa dele e ainda o queimei!

Marta encolhe os ombros.

— Vai saber. Mas que ele te olhou diferente, olhou.

— Atenção passageiros! Nosso navio vai zarpar em instantes! Querem saber a programação para a nossa primeira noite?

A galera grita esfuziante ao ouvir a voz que surge no alto falante do navio.

— Sejam bem-vindos ao Horizon Star, o navio mais luxuoso da Hanguk Cruise Line. Iniciaremos nossa viagem com muita alegria! Hoje, às 20 horas será o jantar com o capitão, no nosso restaurante Blue Dolphin em que todos estão convidados para um jantar temático com a banda Celebration, com muita música dançante ao vivo!

Aquele anúncio me arrepiou. Um jantar com o capitão! É lógico que não vou perder esse jantar que deve ser delicioso, mas vou me manter à distância dele. Não quero correr o risco de encontrá-lo e estragar tudo de uma vez. Essa é a segunda vez em que literalmente caio sobre ele e não me deixa estabacar no chão. Só passo vergonha.

Volto-me para as duas amigas que estão abertamente flertando com Juan, o barista, em uma conversa pra lá de animada.

— Meninas, com licença.

— Gostei do “meninas”, continue. — Bete brincou.

Tiro um cacho do rosto fingindo displicência.

— Eu vou descansar um pouquinho antes do jantar. Vou subir para o quarto e relaxar um pouco. Ainda estou tensa depois do que houve a pouco.

As duas se entreolham. Marta solta.

— Você é uma jovenzinha muito bobinha. Essas coisas acontecem. Mas vá, descanse um pouco sim. E coloque seu melhor vestido. O jantar com o capitão é um evento oficial dos cruzeiros, você precisa estar belíssima.

— E um dos mais concorridos! A mulherada fica doida para ser sorteada para jantar na mesa do capitão. Já pensou?

Jantar na mesa do capitão? Engulo em seco só em pensar nessa possibilidade. De repente me dá uma vontadezinha de desistir e dormir a noite inteira. Nem respondo mais. Aceno para as mulheres e me dirijo para a minha cabine.

Uma vez lá dentro, fico descalça e sinto o conforto do carpete felpudo sob meus pés. Abro a porta para a varanda e deixo o ar fresco entrar. O navio já zarpou e segue lentamente pelas águas que assumiram agora um tom de azul marinho, quase negro, haja vista já estar escurecendo.

São 18 horas. Eu tenho uma hora para descansar e depois me preparar para o jantar. Vou ou não vou?

Essas inseguranças batem forte em mim. Sempre deixei o Henrique escolher a maioria das coisas que fazíamos juntos. Após dez anos de relacionamento, tomar minhas próprias decisões, fazer minhas próprias escolhas, tem sido algo novo para mim.

É tão estranho estar sozinha também… Mas é motivador. Ser eu mesma sem um homem por perto determinando o que eu devo ou não fazer. Na verdade tenho que admitir que estou bem animada.

E quer saber? Deve ser divertido conquistar alguém como o capitão Park. Experimentar o controle da situação, ser uma mulher sedutora. Estou começando a gostar disso.

Deito-me na cama fofa e aconchegante e ligo a televisão. É lógico que procuro os meus doramas para assistir. Eu amo essas histórias açucaradas, repletas de reviravoltas inesperadas e que têm um casal que vai e volta até o fim da série.

Me remexo na cama. Eu não consigo assistir o episódio de tão ansiosa que estou para vê-lo. O capitão Park não tem só um rosto lindo. Ele possui um ar de superioridade, uma classe que eu nunca vi em homem algum. O Henrique, mesmo sendo advogado, nunca chegará aos pés da elegância do capitão Park.

Meu Deus, estou só pensando nele. Quer saber? Que se dane. Vou tomar um banho e me arrumar para o jantar. Preciso estar deslumbrante.

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