CAPÍTULO 6 - Preparação

( Ponto de vista dele )

As pessoas acreditam que conquistar alguém depende de sorte.

Elas imaginam encontros inesperados, coincidências improváveis e momentos perfeitos.

Eu nunca acreditei nisso.

Coincidências são apenas oportunidades que ninguém teve o trabalho de preparar.

Fechei a porta da minha sala e caminhei até a janela.

Do trigésimo segundo andar, São Paulo parecia organizada.

Lá de cima, o trânsito era apenas um conjunto de linhas em movimento.

As pessoas corriam de um lado para o outro sem perceber que cada decisão levava a outra.

A maioria vivia no improviso.

Eu nunca gostei de improvisar.

Uma batida discreta na porta interrompeu meus pensamentos.

— Entre.

Henrique, meu assistente, entrou carregando um tablet.

— Ela aceitou.

Sorri sem perceber.

— Achei que aceitaria.

— Confirmou o café para hoje às sete.

Assenti lentamente.

— Ótimo.

Henrique esperou alguns segundos.

— Precisa que eu remarque sua reunião com os investidores?

Olhei rapidamente para a agenda aberta sobre a mesa.

Uma reunião importante.

Outro compromisso poderia assumir meu lugar.

O café, não.

— Remarque.

— Certo.

Ele anotou a alteração.

Antes de sair, hesitou.

— Posso fazer uma pergunta?

Continuei olhando os documentos sobre a mesa.

— Depende.

— Por que ela?

Levantei os olhos.

Henrique trabalhava comigo havia quase cinco anos.

Era competente.

Discreto.

Sabia exatamente até onde podia perguntar.

Mesmo assim, sorri.

— Porque ela ainda não aprendeu a mentir com os olhos.

Ele pareceu não entender.

E não precisava entender.

— Mais alguma coisa?

— Não.

Ele saiu.

A porta se fechou novamente.

O silêncio voltou a ocupar a sala.

Caminhei até um armário embutido próximo à estante.

Abri a porta.

Na prateleira superior havia algumas pastas organizadas em ordem alfabética.

Passei os dedos por elas até encontrar a que procurava.

A. Moraes.

Retirei a pasta.

Coloquei-a sobre a mesa.

Dentro havia apenas alguns documentos.

O currículo profissional que ela havia enviado meses antes para participar de uma concorrência.

Recortes de revistas especializadas mostrando projetos assinados por ela.

Anotações sobre obras em andamento.

O cartão de visitas que ela havia me entregado no restaurante.

Nada ilegal.

Nada que qualquer empresário interessado em um profissional talentoso não pudesse conseguir.

Mesmo assim...

Fechei a pasta.

Ainda não era hora.

Voltei à janela.

Lá embaixo, milhares de pessoas caminhavam acreditando que controlavam o próprio destino.

Sorri discretamente.

Controle era uma palavra curiosa.

As pessoas só percebiam que haviam sido conduzidas quando já era tarde demais.


Às seis e vinte da tarde, deixei o prédio da empresa.

Pedi ao motorista que me deixasse duas quadras antes da cafeteria.

— O senhor tem certeza?

Assenti.

— Quero caminhar um pouco.

Ele não fez mais perguntas.

Nunca fazia.

O fim da tarde deixava a cidade diferente.

As calçadas estavam cheias.

Gente voltando do trabalho.

Casais andando sem pressa.

Pessoas olhando o celular enquanto atravessavam a rua.

Entrei na cafeteria alguns minutos depois.

O sino acima da porta anunciou minha chegada.

O atendente sorriu imediatamente.

— Boa noite, senhor.

Boa memória.

Eu tinha estado ali apenas duas vezes.

— Boa noite.

— O de sempre?

Olhei para o cardápio pendurado atrás do balcão.

Fingi pensar.

Depois respondi:

— Hoje vou mudar.

Ele arqueou as sobrancelhas.

— Sério?

Assenti.

— Um espresso duplo.

Fiz uma pequena pausa.

— Pouco açúcar.

Outra pausa.

— E um toque de canela.

O rapaz anotou o pedido.

— Excelente escolha.

Talvez fosse.

Talvez não.

Esperei o café ficar pronto enquanto observava discretamente a entrada da cafeteria refletida no vidro da máquina de espresso.

Pontualidade dizia muito sobre uma pessoa.

Às dezoito e cinquenta e nove, ela apareceu.

Um minuto antes do horário combinado.

Sorri.

Ela olhou ao redor procurando por mim.

Ainda não tinha me visto.

Mas eu a reconheceria em qualquer lugar.

Ajeitou uma mecha do cabelo atrás da orelha.

Respirou fundo.

Depois sorriu educadamente para a atendente antes mesmo de falar qualquer coisa.

Ela fazia isso com todo mundo.

Gentileza.

Natural.

Sem esperar nada em troca.

Poucas pessoas ainda eram assim.

Peguei os dois cafés sobre o balcão.

Respirei fundo.

Então caminhei até ela.

— Achei que eu chegaria primeiro.

Aléxia se virou rapidamente.

Quando me viu, sorriu daquele jeito espontâneo que não aparecia quando estava tentando impressionar alguém.

— Eu também achei.

Olhei discretamente para o relógio no meu pulso.

Dezenove horas.

Exatamente.

Sorri.

— Então estamos empatados.

Ela riu.

E, pela primeira vez em muito tempo...

Eu tive a sensação de que um plano perfeitamente executado podia ser ainda melhor quando a realidade superava a expectativa.

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