A ISCA PERFEITA

( Ponto de vista dela )

O domingo cinzento e preguiçoso pedia um pouco de isolamento. Depois de passar o sábado inteiro alimentando borboletas no estômago por causa do telefonema e do bilhete de Dominic, decidi que precisava dar um basta naquela ansiedade boba. Eu não podia deixar minha vida orbitar em torno de um homem que conhecia há tão pouco tempo, por mais perfeito que ele parecesse.

Para espantar os pensamentos, recorri ao meu refúgio favorito na cidade: a Livraria & Café Belle Époque. Era um lugar escondido em uma rua arborizada, com cheiro de papel antigo, luzes quentes e poltronas de veludo gastas onde eu costumava passar horas folheando livros de arte, design e arquitetura enquanto tomava um expresso duplo.

Caminhei até os fundos da livraria, indo direto para a seção de Arquitetura Europeia Clássica. Encontrei um livro pesado de capa dura sobre as estruturas góticas de Paris, algo que eu estava namorando há semanas no site da loja, mas que havia decidido comprar apenas hoje. Puxei o volume da prateleira, concentrada nas imagens da folha de rosto, quando um aroma familiar e absurdamente marcante invadiu meu espaço pessoal.

Canela. E um perfume amadeirado, marcante, inconfundível.

Meu coração deu um solavanco antes mesmo que eu erguesse os olhos. Ao meu lado, com os dedos longos folheando distraidamente um livro de poesias clássicas, estava ele.

Dominic.

Ele não vestia as roupas alinhadas das nossas primeiras noites, mas sim um suéter de tricô escuro com as mangas levemente puxadas até os antebraços. Ele parecia uma pintura, com uma postura séria, mas completamente casual.

Como se sentisse o meu olhar, ele virou o rosto devagar. Os olhos escuros e profundos se fixaram nos meus, e uma expressão de genuína surpresa — uma imitação impecável dela — surgiu em suas feições.

— Aléxia? — a voz dele ressoou baixa, um eco aveludado que fez minha espinha formigar. — Que coincidência... O que faz aqui?

— Dominic! — soltei um riso nervoso, fechando o livro contra o peito. — Eu é que pergunto. Este é o meu esconderijo de domingo. Venho aqui para desligar o mundo.

Ele deu um meio sorriso, aquele que desarmava todas as minhas defesas, e fechou o livro de poesias que estava em suas mãos.

— Parece que temos mais em comum do que eu imaginava — ele disse, dando um passo sutil para mais perto, diminuindo a distância entre nós de um jeito que me fez prender a respiração. — Eu costumo vir aqui justamente pelo mesmo motivo. Meu trabalho na área de suporte de TI daquela empresa de tecnologia é uma loucura, passo a semana inteira trancado em uma sala lidando com códigos e servidores sob a pressão da diretoria... A literatura é o meu único escape nos fins de semana. Mas encontrar você aqui... bem, acho que o destino está tentando nos dizer alguma coisa, não acha?

Minhas bochechas esquentaram. Senti uma onda de puro romantismo me inundar. Dominic era tão pé no chão. Apesar de ser um homem incrivelmente bonito e inteligente, ele era apenas um cara normal, um funcionário de tecnologia lidando com a rotina estressante de um emprego comum, assim como eu. Isso o tornava ainda mais real, ainda mais perfeito.

— Definitivamente, o destino tem um ótimo gosto — brinquei, completamente entregue ao momento.

— Já que o destino nos uniu no domingo, você me daria o prazer de acompanhar o meu café? — ele perguntou, gesticulando em direção às mesas de veludo no fundo da loja.

— Claro. Eu adoraria.

Sentamos em uma mesa reservada, sob a luz fraca de uma luminária antiga. Dominic se mostrou, mais uma vez, um ouvinte fascinante. Ele ouvia cada palavra minha sobre arquitetura com atenção, fingia entender os meus desabafos sobre prazos e fazia perguntas que pareciam tocar exatamente nas minhas maiores paixões. Cada segundo ao lado dele me fazia afundar um pouco mais naquela paixão cega por aquele "cara de TI" tão atencioso.

O que eu nem de longe desconfiava, enquanto sorria para ele por cima da minha xícara de café, era que o livro de poesias que ele carregava havia sido comprado naquela mesma manhã, por ordens expressas dele para o seu assistente pessoal.

Dominic não trabalhava com suporte de TI. Ele não respondia a diretores e muito menos passava o dia trancado consertando servidores. Ele era o dono da porra toda. O topo da pirâmide daquela multinacional.

Na verdade, os meus passos haviam sido meticulosamente mapeados desde o momento em que saí de casa. O sistema de rastreamento avançado da empresa de segurança de Dominic havia emitido um alerta em seu tablet pessoal assim que meu carro estacionou na quadra. Ele sabia que aquele era o meu refúgio e sabia o livro exato que eu estava pesquisando na internet, porque o histórico do meu navegador já havia sido interceptado.

Enquanto ele esticava a mão sobre a mesa para acariciar o meu polegar com um toque suave, fingindo ser apenas um homem comum tentando relaxar no domingo, seus olhos escuros brilhavam com o prazer frio do predador que vê a caça morder a isca perfeitamente. Eu estava perdidamente apaixonada por uma mentira que ele construía com maestria.

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