Mundo ficciónIniciar sesión( Ponto de vista dele )
As pessoas acreditam que conquistar alguém depende de sorte.
Elas imaginam encontros inesperados, coincidências improváveis e momentos perfeitos.
Eu nunca acreditei nisso.
Coincidências são apenas oportunidades que ninguém teve o trabalho de preparar.
Fechei a porta da minha sala e caminhei até a janela.
Do trigésimo segundo andar, São Paulo parecia organizada.
Lá de cima, o trânsito era apenas um conjunto de linhas em movimento.
As pessoas corriam de um lado para o outro sem perceber que cada decisão levava a outra.
A maioria vivia no improviso.
Eu nunca gostei de improvisar.
Uma batida discreta na porta interrompeu meus pensamentos.
— Entre.
Henrique, meu assistente, entrou carregando um tablet.
— Ela aceitou.
Sorri sem perceber.
— Achei que aceitaria.
— Confirmou o café para hoje às sete.
Assenti lentamente.
— Ótimo.
Henrique esperou alguns segundos.
— Precisa que eu remarque sua reunião com os investidores?
Olhei rapidamente para a agenda aberta sobre a mesa.
Uma reunião importante.
Outro compromisso poderia assumir meu lugar.
O café, não.
— Remarque.
— Certo.
Ele anotou a alteração.
Antes de sair, hesitou.
— Posso fazer uma pergunta?
Continuei olhando os documentos sobre a mesa.
— Depende.
— Por que ela?
Levantei os olhos.
Henrique trabalhava comigo havia quase cinco anos.
Era competente.
Discreto.
Sabia exatamente até onde podia perguntar.
Mesmo assim, sorri.
— Porque ela ainda não aprendeu a mentir com os olhos.
Ele pareceu não entender.
E não precisava entender.
— Mais alguma coisa?
— Não.
Ele saiu.
A porta se fechou novamente.
O silêncio voltou a ocupar a sala.
Caminhei até um armário embutido próximo à estante.
Abri a porta.
Na prateleira superior havia algumas pastas organizadas em ordem alfabética.
Passei os dedos por elas até encontrar a que procurava.
A. Moraes.
Retirei a pasta.
Coloquei-a sobre a mesa.
Dentro havia apenas alguns documentos.
O currículo profissional que ela havia enviado meses antes para participar de uma concorrência.
Recortes de revistas especializadas mostrando projetos assinados por ela.
Anotações sobre obras em andamento.
O cartão de visitas que ela havia me entregado no restaurante.
Nada ilegal.
Nada que qualquer empresário interessado em um profissional talentoso não pudesse conseguir.
Mesmo assim...
Fechei a pasta.
Ainda não era hora.
Voltei à janela.
Lá embaixo, milhares de pessoas caminhavam acreditando que controlavam o próprio destino.
Sorri discretamente.
Controle era uma palavra curiosa.
As pessoas só percebiam que haviam sido conduzidas quando já era tarde demais.
Às seis e vinte da tarde, deixei o prédio da empresa.
Pedi ao motorista que me deixasse duas quadras antes da cafeteria.
— O senhor tem certeza?
Assenti.
— Quero caminhar um pouco.
Ele não fez mais perguntas.
Nunca fazia.
O fim da tarde deixava a cidade diferente.
As calçadas estavam cheias.
Gente voltando do trabalho.
Casais andando sem pressa.
Pessoas olhando o celular enquanto atravessavam a rua.
Entrei na cafeteria alguns minutos depois.
O sino acima da porta anunciou minha chegada.
O atendente sorriu imediatamente.
— Boa noite, senhor.
Boa memória.
Eu tinha estado ali apenas duas vezes.
— Boa noite.
— O de sempre?
Olhei para o cardápio pendurado atrás do balcão.
Fingi pensar.
Depois respondi:
— Hoje vou mudar.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Sério?
Assenti.
— Um espresso duplo.
Fiz uma pequena pausa.
— Pouco açúcar.
Outra pausa.
— E um toque de canela.
O rapaz anotou o pedido.
— Excelente escolha.
Talvez fosse.
Talvez não.
Esperei o café ficar pronto enquanto observava discretamente a entrada da cafeteria refletida no vidro da máquina de espresso.
Pontualidade dizia muito sobre uma pessoa.
Às dezoito e cinquenta e nove, ela apareceu.
Um minuto antes do horário combinado.
Sorri.
Ela olhou ao redor procurando por mim.
Ainda não tinha me visto.
Mas eu a reconheceria em qualquer lugar.
Ajeitou uma mecha do cabelo atrás da orelha.
Respirou fundo.
Depois sorriu educadamente para a atendente antes mesmo de falar qualquer coisa.
Ela fazia isso com todo mundo.
Gentileza.
Natural.
Sem esperar nada em troca.
Poucas pessoas ainda eram assim.
Peguei os dois cafés sobre o balcão.
Respirei fundo.
Então caminhei até ela.
— Achei que eu chegaria primeiro.
Aléxia se virou rapidamente.
Quando me viu, sorriu daquele jeito espontâneo que não aparecia quando estava tentando impressionar alguém.
— Eu também achei.
Olhei discretamente para o relógio no meu pulso.
Dezenove horas.
Exatamente.
Sorri.
— Então estamos empatados.
Ela riu.
E, pela primeira vez em muito tempo...
Eu tive a sensação de que um plano perfeitamente executado podia ser ainda melhor quando a realidade superava a expectativa.







