Mundo de ficçãoIniciar sessão(Ponto de vista dela)
Quando entrei na cafeteria, Dominic já estava me esperando.
Na verdade, ele estava vindo na minha direção com dois copos nas mãos.
— Achei que um café ficaria melhor do que esperar na fila — disse, estendendo um deles para mim.
Olhei para o copo e sorri.
— Você escolheu por mim?
— Achei que era um risco calculado.
Peguei o café e dei um pequeno gole.
Sorri imediatamente.
— Acertou de novo.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Então minha sorte continua boa.
— Ou você leva muito a sério a missão de impressionar as pessoas.
Ele levou a mão ao peito, fingindo indignação.
— Fui descoberto.
Acabei rindo.
Uma risada verdadeira.
Daquelas que escapam antes mesmo que a gente consiga controlar.
Fazia tempo que eu não ria daquele jeito.
Escolhemos uma mesa perto da janela.
A chuva fina que começava a cair deixava a avenida mais bonita.
Durante alguns minutos, apenas conversamos sobre assuntos simples.
Nenhum dos dois parecia ter pressa.
Descobri que Dominic viajava bastante por causa do trabalho.
Que gostava de arquitetura, mesmo dizendo que entendia muito pouco do assunto.
E que tinha um senso de humor melhor do que eu imaginava.
— Então você realmente desenhava casas quando era criança? — perguntou.
Assenti.
— Casas, prédios, cidades inteiras.
Minha mãe dizia que eu desenhava até em papel de pão.
Ele sorriu.
— E hoje desenha prédios de verdade.
— Dá um pouco mais de trabalho.
— Imagino.
Sorri de volta.
— E você?
— O que tem eu?
— Sempre quis trabalhar com empresas?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Olhando para o café.
— Não.
A resposta foi tão rápida quanto inesperada.
Esperei que continuasse.
Ele apoiou os cotovelos na mesa.
— Quando era mais novo, queria ser piloto.
Sorri.
— Sério?
— Sim.
— O que aconteceu?
Ele deu de ombros.
— Descobri que algumas pessoas escolhem nossos caminhos antes da gente.
A resposta ficou ecoando na minha cabeça.
Não parecia uma frase qualquer.
Parecia uma lembrança.
Resolvi não insistir.
Todos temos assuntos que preferimos deixar guardados.
— E você nunca tentou?
Ele sorriu de lado.
— A vida ficou complicada antes.
Assenti.
Pela primeira vez desde que nos conhecemos, tive a impressão de que existia algo pesado por trás daquele homem sempre tão tranquilo.
Talvez eu estivesse errada.
Ou talvez ninguém fosse tão simples quanto parecia.
A conversa continuou naturalmente.
Falamos sobre filmes.
Música.
Viagens.
Descobri que tínhamos gostos parecidos em várias coisas.
Isso era raro.
Muito raro.
Em determinado momento, Dominic olhou pela janela.
A chuva aumentava.
— Você veio de carro?
Balancei a cabeça negativamente.
— Resolvi pedir um aplicativo.
— E vai embora do mesmo jeito?
— Provavelmente.
Ele olhou rapidamente para o celular.
— Vai demorar.
Peguei meu aparelho.
O aplicativo mostrava vinte e sete minutos de espera.
Fiz uma careta.
— Hoje a cidade resolveu parar.
— Posso levar você.
Olhei para ele.
A proposta pareceu natural.
Sem insistência.
Sem pressão.
Mesmo assim, hesitei.
Ele percebeu.
— Sem compromisso. Se preferir esperar, eu entendo.
Aquilo me deixou mais tranquila.
Dominic nunca parecia tentar me convencer de nada.
Sempre deixava a decisão comigo.
Sorri.
— Acho que aceito.
— Ótimo.
Ele terminou o café e se levantou.
— Vamos?
Peguei minha bolsa.
Quando saímos da cafeteria, a chuva já caía com força.
Dominic abriu um guarda-chuva preto.
Era grande o suficiente para nós dois.
Caminhamos lado a lado pela calçada.
Sem perceber, acabamos andando mais próximos por causa da chuva.
Meu braço encostou no dele por um instante.
Nenhum dos dois comentou.
Mas senti meu coração acelerar.
Era estranho.
Eu mal conhecia aquele homem.
Mesmo assim...
A presença dele transmitia uma tranquilidade difícil de explicar.
O carro estava estacionado do outro lado da rua.
Dominic abriu a porta para mim.
— Depois de você.
Entrei.
O cheiro familiar de couro tomou conta do ambiente.
Sorri.
— Acho que vou acabar associando esse cheiro a você.
Ele fechou a porta e deu a volta no carro.
Quando entrou, deu uma pequena risada.
— Espero que isso seja uma coisa boa.
Olhei para ele.
— Ainda estou decidindo.
Ele ligou o motor.
— Justo.
Seguimos pelas ruas iluminadas pela chuva.
A música tocava bem baixa.
Nenhum dos dois parecia sentir necessidade de preencher todos os silêncios.
E, curiosamente...
Aqueles silêncios não eram desconfortáveis.
Quando o carro parou em frente ao meu prédio, senti uma leve surpresa.
A viagem tinha passado rápido demais.
— Obrigada pelo café.
Ele sorriu.
— Eu que agradeço pela companhia.
Abri a porta.
Antes de sair, olhei para ele.
— Boa noite, Dominic.
— Boa noite, Aléxia.
Entrei no prédio ainda sentindo um sorriso bobo insistir em aparecer.
Balancei a cabeça para mim mesma.
Aquilo era ridículo.
Eu tinha conhecido Dominic havia poucos dias.
Não fazia sentido pensar tanto nele.
Mas, enquanto o elevador subia, uma pergunta insistia em voltar.
Por que parecia tão fácil conversar com alguém que eu mal conhecia?







