O TABULEIRO DE DOMINGO

( Ponto de vista dele )

Aléxia acreditava no destino. Eu acreditava em dados, rastreamento e vulnerabilidade humana.

No sábado à noite, enquanto ela provavelmente olhava para o celular esperando alguma mensagem boba de "bom dia" que eu jamais mandaria, eu estava na minha verdadeira sala, no topo do edifício corporativo da minha holding. Girei a cadeira de couro legítimo, observando o relatório detalhado que minha equipe de inteligência havia atualizado. O histórico de navegação dela já havia sido interceptado dias atrás. Eu sabia o livro exato de arquitetura que ela vinha pesquisando e sabia, com precisão cirúrgica, qual era o seu refúgio favorito nos dias de folga: aquela livraria pacata de centro.

Ela passaria o domingo lá. E eu estaria lá para encontrá-la.

Deslizei o dedo pelo tablet e disparei duas ordens rápidas para o meu assistente pessoal: a primeira, comprar o livro de poesias clássicas que eu carregaria como isca; a segunda, reservar a suíte presidencial do Grand Majestic, o hotel boutique mais exclusivo daquela região, sob um dos meus nomes corporativos falsos. Eu não dou pontos sem nó. Se eu ia sair de casa em um domingo cinzento, a caça já deveria terminar a noite na minha cama.

Quando o domingo à tarde chegou, o plano rodou sem um milímetro de erro. O sistema de rastreamento que instalei discretamente no veículo de Aléxia apitou no meu celular assim que ela estacionou na quadra da livraria.

Vesti um suéter de tricô escuro — o figurino perfeito para o "cara comum da TI" que eu havia criado para ela — e entrei no estabelecimento. O cheiro de papel antigo me incomodava, mas ver a silhueta dela concentrada na seção de Arquitetura Europeia Clássica fez o incômodo sumir, substituído por uma onda familiar de posse.

Aproximei-me, deixando que meu perfume de canela e madeira anunciasse minha presença. Quando ela ergueu os olhos, fingi a minha melhor expressão de surpresa.

— Aléxia? Que coincidência... — soltei, a voz aveludada fazendo a espinha dela formigar.

Mentir na cara dela era um prazer quase viciante. Enquanto inventava que passava a semana trancado em uma sala lidando com códigos e servidores sob a pressão da diretoria, ela me olhava com olhos cheios de romance e admiração. Para ela, eu era apenas um trabalhador comum e pé no chão. Nós nos sentamos, tomamos café, e eu li cada reação dela como um livro aberto. Ela estava completamente entregue ao "gosto do acaso".

Foi ali mesmo, no meio daquela conversa íntima sob a luz fraca da luminária antiga, que joguei a cartada final da tarde.

— Sabe, o meu domingo estava meio cinza, mas encontrar você mudou tudo — disse, tocando levemente o polegar dela por cima da mesa. — Um colega do suporte me indicou um bar escondido aqui perto, o The Blind Wolf. É um lugar legal, meio diferente. O que acha de emendarmos o café e irmos jantar lá? Quero aproveitar que a diretoria não está me ligando hoje.

Ela sorriu, com as bochechas coradas, e aceitou na hora. Eu quase podia ouvir o coração dela acelerar.

Duas horas depois, nós estávamos no subsolo do The Blind Wolf. Para Aléxia, era apenas um achado de um funcionário de TI; para mim, era o cenário perfeito. O bar era um speakeasy de altíssimo luxo, com luzes vermelhas difusas, paredes de tijolo aparente e jazz ao fundo. Garanti que ficássemos na mesa mais isolada.

O álcool foi o meu maior aliado. Aléxia estava relaxada, rindo boba, e a cada história que ela contava sobre o seu escritório de arquitetura, eu garantia que seu copo de gim com infusão de frutas vermelhas nunca ficasse vazio. Conforme as horas avançavam, a embriaguez começou a cobrar o preço. O riso dela ficou mais alto, a voz arrastada, e o corpo começou a pender perigosamente na minha direção.

Ela estava bêbada. Não apenas pelo álcool, mas pela ilusão que eu havia vendido a ela.

Eu também sentia o calor do uísque queimar minha garganta, mas a minha mente continuava fria, cirúrgica. Quando ela cambaleou levemente ao tentar se levantar, eu a segurei pela cintura, colando seu corpo ao meu.

— Acho que a noite acabou para você, meu amor — sussurrei perto do seu ouvido, sentindo o cheiro doce da pele dela.

— Não quero ir para casa, Dominic... — ela murmurou, os olhos semicerrados cheios de desejo puro enquanto agarrava a gola do meu suéter. — Fica comigo.

Paguei a conta em dinheiro para não deixar rastros e a guiei para fora. Ela mal conseguia parar em pé, apoiando-se inteiramente no meu peito. Caminhamos meia quadra até o Grand Majestic. Na névoa da bebedeira, ela achou que era apenas um hotel bonito que encontramos no caminho por sorte.

Ao entrarmos na suíte imensa, com a cidade brilhando através da parede de vidro, a urgência nos dominou. Eu não fui sutil. A possessividade que eu vinha guardando explodiu quando a joguei contra o colchão macio. Aléxia me puxou pela nuca, os lábios quentes se misturando aos meus em um beijo desordenado, ditado pelo álcool e pela luxúria.

Tirei as roupas dela com pressa, gravando o meu toque em cada centímetro daquele corpo que agora me pertencia por inteiro. Quando a possuí, em meio aos gemidos abafados contra o meu pescoço, eu sabia que o ponto de não retorno havia sido cruzado.

Naquela noite de domingo, nos braços de um homem que ela julgava ser o namorado perfeito, Aléxia se entregou de corpo e alma. Ela adormeceu horas depois, exausta e aninhada no meu peito.

Olhei para o rosto dela adormecido sob a luz da lua, acariciando uma mecha do seu cabelo escuro. Eu a queria, e agora eu a tinha. Ela acordaria na minha cama, envolta nas minhas mentiras, sem ter a menor ideia de que o "cara da TI" que a fez chorar de prazer era o mesmo monstro controlador que já tinha o destino dela inteiramente em suas mãos.

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