O ECO DO BEIJO

( Ponto de vista dela )

O sábado de manhã amanheceu com uma luz mansa que invadia a fresta da cortina do meu quarto, mas a calmaria do dia contrastava inteiramente com a tempestade que ainda ditava o ritmo dos meus batimentos cardíacos.

Eu estava estática, deitada de barriga para cima, encarando o teto. Minhas pontas dos dedos subiram involuntariamente até os meus lábios. Eles ainda pareciam anestesiados, ligeiramente inchados da noite anterior. Se eu fechasse os olhos, ainda conseguia sentir a pressão exata da mão grande e firme de Dominic espalmada na minha nuca, puxando-me para ele dentro daquele carro de luxo com uma urgência que baniu qualquer faísca de despedida educada.

Foi um beijo que não pediu licença. Foi dominador, quase um aviso silencioso de que, uma vez que eu cruzasse aquela linha, não haveria caminho de volta. E o pior de tudo? Eu não queria voltar.

Balancei a cabeça, tentando afastar o turbilhão de pensamentos, e me levantei. Como arquiteta, eu costumava ser a pessoa que ditava as regras de simetria, que calculava cada espaço e tinha o controle milimétrico das situações. Mas com Dominic, eu me sentia em um terreno perigosamente instável.

Peguei meu notebook na mesa da sala e tentei focar em alguns croquis atrasados, mas a barra de notificações do meu celular parecia exercer um magnetismo ridículo sobre os meus olhos. Duas horas se passaram. Depois três. E nenhuma mensagem dele. Nenhuma palavra clichê de "bom dia" ou um comentário sobre a noite anterior.

— Ótimo, Aléxia. Você está agindo como uma adolescente boba — resmunguei para mim mesma, jogando o celular no sofá. O sumiço dele me deixava em um misto de frustração e uma ansiedade incômoda, alimentando o desejo de tê-lo por perto de novo.

O relógio já marcava o final da tarde, quando o interfone do meu apartamento quebrou o silêncio do ambiente.

— Pois não? — perguntei, atendendo.

— Dona Aléxia? Tem uma entrega expressa para a senhora aqui na portaria. Um portador acabou de deixar — informou o porteiro.

Estranhei. Eu não tinha comprado nada. Desci pelo elevador e, ao chegar ao saguão, o porteiro me estendeu uma sacola de papel kraft espesso, de uma elegância minimalista, com a logo em relevo dourado de uma das confeitarias mais exclusivas e caras da cidade — um lugar cuja reserva demorava meses e que eu havia comentado de passagem, durante o nosso jantar no restaurante italiano, que tinha loucura para conhecer.

Ao subir de volta para o apartamento, coloquei a sacola sobre a mesa. O aroma que subiu dali de dentro me desarmou instantaneamente: um café gourmet fresquinho, exalando aquele toque inconfundível de canela que parecia seguir Dominic como uma assinatura pessoal. Junto a ele, uma pequena caixa com doces finos artesanais e um envelope preto, lacrado com cera escura.

Com as mãos levemente trêmulas, abri o envelope. A caligrafia era firme, imponente:

"Tive uma reunião de negócios inesperada hoje e precisei viajar de última hora para resolver uma crise na empresa, mas passei em frente a esse lugar e a lembrança de você se tornou inevitável. Espero que o seu sábado seja doce, Aléxia. — Dominic."

Apertei o bilhete contra o peito, um sorriso bobo se espalhando pelo meu rosto. O meu coração derreteu por completo. Ele era um homem ocupado, um CEO com responsabilidades imensas, mas, mesmo no meio de uma viagem de negócios de última hora, ele havia gastado seu tempo para me enviar um pedaço do que eu desejava. Ele parecia adivinhar cada pensamento meu. Era o homem perfeito.

Eu só não podia imaginar, nem nos meus pesadelos mais sombrios, que Dominic não havia viajado quilômetro nenhum.

A menos de vinte minutos dali, no andar mais alto de um prédio corporativo blindado e minimalista, Dominic estava sentado em sua cadeira de couro legítimo. Diante dele, três monitores exibiam códigos de dados e o rastreamento em tempo real do veículo de entrega. Na tela menor, a câmera do saguão do meu prédio capturava o exato momento em que eu pegava a sacola das mãos do porteiro.

Ele levou a taça de uísque aos lábios, os olhos escuros fixos na tela, observando a expressão de alívio e encantamento no meu rosto antes de a imagem ser cortada pelo fechamento das portas do elevador.

Dominic deu um sorriso frio, calculista, inteiramente satisfeito. Ele sabia exatamente o tempo que uma mulher precisava para começar a duvidar de si mesma no silêncio, e sabia o momento exato de puxar a linha da teia de mentiras para trazê-la de volta. Eu estava exatamente onde ele queria que eu estivesse.

À noite, o celular finalmente tocou. A voz dele fluiu pelo receptor de forma aveludada, calma e profundamente envolvente.

— Conseguiu aproveitar o doce, Aléxia? — a voz dele ecoou, fazendo meu estômago dar voltas.

— Dominic... você é inacreditável. Como conseguiu aquilo? Eu só comentei sobre aquela confeitaria uma vez. E você estava viajando!

— Eu presto atenção quando você fala — ele respondeu, e o tom calmo dele quase me fez esquecer como aquelas mesmas mãos tinham sido possessivas no meu corpo poucas horas antes. — Minha rotina como executivo é exaustiva, lido com uma pressão sufocante todos os dias... mas ouvir a sua voz agora é, sem dúvidas, o único momento de paz do meu dia inteiro.

Aquelas palavras me preencheram. Eu me senti a pessoa mais especial do mundo, a âncora de um homem poderoso que parecia desarmar toda a sua frieza apenas para mim. Nós conversamos por mais de uma hora. Ele não sugeriu que nos víssemos no domingo, mantendo uma distância cirúrgica que só me fez desejar o início da semana com mais força.

Quando desliguei o telefone e deitei a cabeça no travesseiro, eu estava completamente arrebatada. Eu estava perdidamente apaixonada por cada palavra, por cada detalhe, por cada cuidado.

Eu estava perdidamente apaixonada por um personagem que ele havia criado para mim. E a teia só estava começando a se fechar.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App