3 – COMPANHEIRA POR ACIDENTE

POV: AYLA

Uma voz masculina trovejou perto de mim, grave e imponente, como se viesse de outro lugar, de outro corpo. Não conseguia ver quem falava, meus olhos pareciam colados, as pálpebras pesadas.

— Você a marcou. Como pôde fazer isso? — A voz era fria, controlada, mas carregada de fúria contida. — Tem noção do que acabou de fazer?

Um rosnado baixo e monstruoso respondeu, vibrando direto na minha pele, arrepiando cada poro. O som era animal, primal, vindo de dentro dele não de um homem, mas de algo maior, algo que não cabia em pele humana.

“Eu a escolhi.” As palavras saíram roucas, possessivas, quase um rosnado disfarçado de fala. “Ela é minha.”

— Isso é contra as regras! — A outra voz explodiu de novo, feroz, ameaçadora, quase um grito. — Tem ideia do perigo que a colocou?

“Eu faço minhas próprias regras, Lycan.”  A resposta veio lenta, com um estalo de língua afiado. Sentir o ar mudar, mais pesado, mais quente, carregado de algo selvagem que fazia meu estômago revirar.

Tentei me mexer, um gemido escapou da minha garganta, rouco e dolorido. Meu ombro queimava e latejava, os músculos protestavam.

O que está acontecendo?

Quem são eles?

Por que meu corpo não obedece?

A voz masculina cortou o ar pesado, impaciente, quase irritada.

— Ela está acordando. — Houve uma pausa curta seguida de respiração pesada. — O que vamos fazer com ela agora?

— Você pode matá-la, se não quiser lidar com essa bagunça toda. — Outra voz masculina respondeu, divertido. — Problema resolvido.

Me matar?

O pânico explodiu no meu peito.

Não. Não. Eu não quero morrer!

Preciso acordar, preciso me mexer, preciso fugir.

— Isso tudo é culpa sua — rosnou a primeira voz, agora enfurecida, mas com um poder sombrio que fazia o ar parecer mais denso. — E essa é a consequência.

— Ah, não, irmãozinho… — A risada veio de novo, sarcástica. — Eu só tentei animar as coisas, foi o seu lobo descontrolado que resolveu marcar uma humana.

Lobo? Humana?

A palavra ecoou na minha cabeça.

Do que eles estavam falando? Não tinha nenhum lobo no rio, nenhum animal. Só água gelada, correnteza puxando, e aquele homem me arrastando para a margem.

Apaguei de novo.

Lentamente, abri os olhos. A visão embaçada se ajustou ao teto escuro de madeira acima de mim. Meu corpo inteiro latejava, dor profunda nas costelas, nos ombros, nas costas. Resmunguei baixo, toquei o lado do tronco e senti uma pontada aguda. Apoiei as mãos no colchão e me forcei a sentar. A cabeça girou, esfreguei a nuca, tentando afastar a névoa.

— Onde estou…? — murmurei, rouca e fraca.

Olhei em volta para o quarto estranho, nada familiar, nada meu.

Umedeci os lábios, estavam sutilmente inchados, sensíveis, ardendo levemente. Toquei com a ponta dos dedos. Ainda formigavam, como se o beijo dele tivesse deixado uma marca quente e invisível ali.

— Aquele homem da ponte… — sussurrei, coração acelerando. — Por que me beijou daquele jeito?

A lembrança veio forte: lábios ferozes, rosnado baixo, língua invadindo sem pedir, dentes mordendo como se quisesse me devorar. Meu corpo reagiu mesmo agora, um arrepio traiçoeiro subiu pela espinha.

— E onde ele está? — Olhei para a porta. — Será que está bem?

Antes de cair da ponte, notei o sangue escorrendo entre os dedos dele, pressionando a barriga. Mesmo ferido, ele me envolveu nos braços e nos tirou da correnteza. Salvou nossas vidas.

Quem era ele?

O que fazia ali, sozinho, sangrando na ponte?

Olhei em volta, empurrando as cobertas pesadas para o lado, meu corpo doía em cada movimento. Ao me levantar, senti o tecido leve roçando na pele. Olhei para baixo.

Uma camisola fina, quase transparente, colada ao corpo, revelava cada curva, cada contorno, não era minha roupa.

— Espera… — A voz saiu baixa, tremendo.

Alguém tinha me despido, secado e vestido.

Tampei a boca com a mão, olhos arregalado, a respiração disparando.

— Ele me viu nua?

— Se te consola saber, eu não a toquei impropriamente enquanto estava desmaiada. — A voz rouca e grave veio do canto mais escuro do quarto, baixa, mas pesada o suficiente para fazer o ar vibrar.

Meu corpo congelou, dei um passo instintivo para trás, com os batimentos disparados tão forte que senti as costelas doerem de novo.

Então ele saiu das sombras.

Seus olhos terrosos brilharam primeiro, com a linha vertical vermelha, selvagem, cortando as íris como uma lâmina de sangue, o resto se revelou quando deu um passo lento à frente, o chão rangeu sob o seu peso.

— Como se sente?

De pé, ele parecia ainda maior, uma parede viva de músculos e ameaça. A luz fraca que entrava pela fresta da janela cortava seu torso nu, iluminando cada detalhe que eu não queria notar…, mas notei.

Meu olhar desceu sem permissão: peito largo, pele bronzeada, tatuagens pretas que começavam logo abaixo da clavícula e desciam em linhas brutas, tribais, selvagens, serpenteando pelos gominhos do abdômen perfeito até desaparecerem dentro da calça de moletom baixa. Tão baixa que eu podia ver o V profundo marcando o caminho para onde eu definitivamente não devia olhar.

Merda.

— Terminou de me devorar com os olhos? —  Sua voz veio rouca, divertido e perigoso.

Ergui o rosto em um estalo. Seus olhos terrosos com aquela faixa vermelha brilhavam, predatórios, fixos em mim, o canto da boca subiu em um meio-sorriso lento, arrogante, quase cruel.

— Gostou do que viu, companheira?

A palavra “companheira” saiu com um rosnado baixo, possessivo, que fez meu ventre contrair contra a minha vontade.

Senti o sangue subir pelo pescoço, queimando as bochechas. Cruzei os braços com força sobre o peito, como se isso pudesse esconder o quanto a camisola fina me traía.

— Do que você me chamou?

Ele rompeu a distância entre nós em um passo lento, deliberado, parando a centímetros do meu rosto. A ponta de seu dedo se ergueu, afastando uma mecha de cabelo do meu rosto, a deslizando devagar para trás da orelha. Seu toque era leve, mas carregado de posse, meu corpo inteiro arrepiou.

— Você ouviu muito bem… — murmurou, rouco, baixo, quase um ronronar.

Seus olhos brilharam mais forte, a faixa vermelha se alargando. Vi as presas despontarem quando ele abriu um sorriso lento, perigoso.

A mão desceu por meu pescoço, dedos quentes roçando a pele sensível, traçando a linha da veia que pulsava rápido. Ele brincou com a alça fina da camisola, a empurrando sutilmente para o lado. O tecido escorregou devagar pela curva do ombro, expondo a marca que ainda latejava.

Contornando a ferida com a ponta do dedo, devagar, reverente, como se estivesse admirando sua própria obra. A dor se misturou a um calor traiçoeiro que subiu pela minha espinha.

— É isso que você se tornou — disse ele, se inclinando mais perto, seus lábios quase roçando os meus. — Quando eu te marquei como minha!

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App