2 – MARCADA

POV: AYLA

A correnteza me arrastava com força, impiedosa, jogando meu corpo de um lado para o outro, batendo contra pedras escondidas. Tentei subir, chutando desesperadamente, os braços esticados em busca da superfície. Consegui romper por um instante, puxei o ar gélido, tossindo água suja misturada com lama, o peito queimando.

— So… co… rro…

O rio não me deu trégua. Me puxou de volta e afundei rápido, a água invadiu minha boca, a garganta, os pulmões. Tudo ardia por dentro, cada tentativa de respirar só fazia entrar mais água. O frio se infiltrava nos ossos, paralisando meus músculos.

Eu vou morrer aqui?

Meu peito apertou, esmagado. A visão começou a escurecer nas bordas, pontos pretos dançando diante dos olhos. Me debati sem coordenação, unhas arranhando o vazio, pernas chutando cada vez mais fracas.

A vida me poupou daquela vez só para me trazer de volta a esse destino?

As lembranças vieram átona: Eu pequena demais, tremendo, tentando acalmar Theo enquanto a água subia, fria, sufocante. Papai socando a janela do carro em desespero, tentando quebrar o vidro com as próprias mãos. Mamãe gritando por nós dois…

Depois, só o silêncio.

A escuridão.

E aquele rio maldito nos arrancando tudo.

Então foi assim que eles se sentiram? Aterrorizados. Impotentes.

— Por favor… — ofeguei quando minhas costelas bateram contra as pedras, arfei com a dor explodindo. — Alguém… me ajuda…

A água me puxou de novo, fria, pesada e implacável.

Não havia ninguém.

Nunca mais haveria.

Eu estava sozinha no mundo.

— Me perdoem — Afundei devagar, o corpo ficando pesado, rendido à escuridão, minhas mãos se abriram, soltas, aceitando o fim. — Eu fui fraca demais para continuar vivendo por nós.

O frio me engoliu, o silêncio era absoluto.

Minhas pálpebras começaram a pesar… Fraca, Estava me afogando, morrendo... quando uma sombra cortou a água em minha direção. Grande. Forte. Decidido.

Braços firmes me agarraram e me puxaram para cima. Meu corpo reagiu quando rompi a superfície, puxando ar com violência, engasgando, tossindo, enquanto ele lutava contra a correnteza, nos arrastando com esforço bruto até a margem.

Fui jogada sobre a lama fria, tossindo desesperadamente, vomitando a água que havia engolido, o peito ardia enquanto o ar entrava aos pedaços.

Ofegante, virei o rosto para o homem desconhecido, seu corpo estava metade dentro do rio, respirando pesado.

— Você me salvou!

— Se não sabe nadar… — ele respondeu rouco, exausto. — Por que tentou me salvar?

Antes que eu respondesse, um baque seco ecoou. O corpo dele tombou para frente, cedendo completamente.

— Ei… — minha voz saiu falha. — Você está bem?

Me arrastei até ele sem pensar, agarrando seus braços largos, tentando puxá-lo para mais longe da água gelada.

— Vamos… sai daí… argh… vamos…

Ele era pesado demais. O corpo encharcado escorregava entre meus dedos a cada tentativa, puxando meu equilíbrio junto.

— Merda! — gemi, apertando os lábios, firmando os pés na lama. Fiz força com tudo que tinha, as pernas tremendo, os dentes trincados enquanto puxava de novo. — Você é pesado demais… e… pelo amor de Deus… enorme…

Percorri seu corpo desacordado, ainda incrédula. Devia ter quase dois metros de altura. Grande de um jeito impossível de ignorar, músculos densos sob a roupa molhada, ombros largos demais para alguém comum.

— Eu não vou conseguir te mover… — murmurei, tentando girá-lo. — Você está respirando?

Seus cabelos caíam sobre o rosto. Afastei os fios com a ponta dos dedos… e congelei.

Os traços eram fortes, marcados. Lábios finos, sobrancelhas grossas, nariz bem desenhado. Havia imponência até ali, desacordado.

Ele era lindo de um jeito bruto.

Balancei a cabeça. Agora não.

— Foco, Ayla… ele acabou de salvar a sua vida… — murmurei. — Eu não posso passar por isso de novo, não posso carregar mais uma morte nas costas.

Coloquei o dedo sob seu nariz, sua respiração estava fraca, irregular.

O medo apertou meu peito.

Subi sobre ele, as mãos em seu peito largo, como lembrava vagamente de ter visto em filmes, pressionei uma, duas, três vezes. Meu coração martelava nos ouvidos.

Encostei a orelha em seu peito.

— Vamos… reage… por favor…

Pressionei de novo, a coordenação falhando, segurei seu rosto, dando tapinhas leves.

— Acorda… — implorei. — Não me diga que eu sobrevivi àquela ponte com você só para te ver morrer agora…

As lágrimas embaçaram minha visão.

— Eu não vou deixar você morrer aqui!

Puxei o queixo dele, entreabri os lábios e selei minha boca na dele, soprando ar com força, me afastei devagar, ofegante.

Seus olhos se abriram lentamente, as pupilas dilatadas demais, uma linha vertical rasgando o centro das íris terrosas, profundas, quase selvagens.

— Que bom… você está viv…

Não terminei.

O quê?

Seus lábios colidiram com os meus de forma abrupta, crua. O beijo veio feroz, descontrolado, faminto. Um rosnado baixo vibrou contra minha boca enquanto sua língua tomava a minha, dominando sem permissão.

Sua mão grande agarrou minha cintura em um aperto possessivo, forte o suficiente para arrancar um arrepio da pele, me puxando contra o corpo dele. A outra subiu lentamente por minhas costas, arranhando, marcando o caminho da espinha até alcançar minha nuca, se fechando em punho, puxando meus cabelos e me forçando ainda mais perto.

Não era um beijo gentil. Era rude, faminto, impiedoso.

Ele mordeu meus lábios sensíveis, sugou minha língua, roubou todo meu ar sem. Meu corpo reagia com ondas de choques desordenados, cada nervo respondia ao seu toque.

Então, de repente, ele interrompeu o beijo, os dentes capturaram meu queixo, descendo lentamente pelo meu pescoço, deixando um rastro de mordidas possessivas e beijos marcados, até alcançar a curva exposta do meu ombro.

— Espera... o que você está fazendo?

Mal terminei a frase quando uma dor lancinante explodiu em meu ombro. Uma mordida forte, precisa, como presas afiadas atravessando minha carne. Gemi alto, o corpo inteiro estremecendo enquanto o sangue quente escorria, contrastando cruelmente com o frio da minha pele.

— Vo… você… — tentei empurrá-lo. — Você me mordeu?

Sua língua deslizou lentamente sobre a marca, contornando a mordida com um cuidado perturbador, lambendo, sugando, como se reverenciasse aquilo que havia feito. Beijou a pele ferida antes de erguer o rosto.

Seu olhar encontrou o meu. Predatório. Desperto.

— Minha. Minha. — a voz saiu distorcida, profunda, carregada de algo feroz, inumano. — Você me pertence!

— O quê…? — consegui dizer ao me afastar, tentando me erguer, minhas pernas falharam, um torpor estranho tomou minha cabeça, o mundo girou. — O que você fez comigo?

A tontura aumentou. Meus olhos arderam, pesaram, a visão se dissolveu em manchas turvas. Dei mais um passo incerto antes de sentir o corpo ceder por completo.

Caí na lama, sem forças, sentindo o frio úmido atravessar a roupa enquanto a escuridão avançava. Abri os olhos por um instante, depois outro, lutando contra o apagão que me puxava para baixo sem piedade.

Abri os olhos uma última vez.

Fui erguida como se não pesasse nada, minha cabeça tombou contra um tórax sólido, seu hálito quente roçou contra meus cabelos.

— Droga… o que fizemos? — rosnou feroz, seguido por uma voz masculina poderosa, carregada de choque e fúria contida. — Nós a marcamos!

E antes que pudesse reagir, a escuridão finalmente me engoliu.

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