Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: AYLA
— Você está falando da mordida que me deu… logo depois de me beijar? — Falei com sarcasmo, afastando sua a mão com um tapa, cedendo um passo largo para trás. — Vem cá… você é algum tipo de maluco? Não é normal sair por aí mordendo as pessoas. Principalmente alguém que acabou de tentar salvar a sua vida!
Ele não respondeu de imediato.
Ao invés disso, semicerrou os olhos, farejando em minha direção como se pudesse captar pelo meu cheiro cada sentimento.
— Você parecia estar gostando bastante daquele beijo. — Deu de ombros, quase preguiçoso. — Diria até que... Bem mais do que gostaria de admitir!
E então avançou.
Um passo lento, deliberado.
Recuei outro institivamente, o coração martelando tão forte que parecia querer romper minhas costelas. Bati as costas contra parede, encurralada.
— Não se aproxima! — Avisei, olhando em volta por puro instinto, procurando qualquer fuga. — Estou te avisando...
Quando voltei o olhar para ele, já estava perto demais, a poucos centímetros, o hálito quente roçava contra minha face, arrancando um arrepio involuntário.
— Ou o que, pequena? — Rosnou sombrio, seu peito subia e descia com a respiração pesada. — O que uma simples humana como você, fará?
A mão enorme se apoiou na parede ao lado da minha cabeça, me prendendo ali. Com a outra, tocou meu queixo com dois dedos, firme, erguendo meu rosto até alinhar nossos olhares. Havia algo feroz ali. Contido. Perigoso.
— Você não deveria ter correspondido o beijo daquela forma… — sua voz saiu baixa, carregada de algo perigoso — Não na lua cheia!
— Foi você que me agarrou e me beijou… Se lembra? — Retruquei audaciosa. — E qual o problema em ser lua cheia? É supersticioso?
Tentei desviar o olhar, mas seus dedos em meu queixo mantiveram meu rosto erguido, exposto.
— Você não faz ideia da encrenca em que se meteu. — Suas pupilas se dilataram lentamente, escuras, intensas. Deslizou a ponta da língua pelos lábios, umedecendo. — Faz, humana?
— Por que fica me chamando assim? — ergui mais o queixo, firme, sustentando o olhar dele sem recuar. — Do que está falando? Eu não fiz...
Ele me interrompeu.
O polegar pressionou meu lábio inferior, firme o bastante para me calar, suave o suficiente para arrepiar minha pele. Meu fôlego falhou.
— Por causa desses belos lábios doces… — murmurou, a voz descendo para um tom rouco, denso, arregado de uma ameaça que fez minha pele arrepiar.
Seus lábios pairavam a milímetros dos meus, mesclando nossa respiração no mesmo ritmo, dominante.
— Meu lobo a marcou por engano… em um vínculo irrevogável. — continuou, os olhos presos aos meus. — Selando o seu destino ao meu, humana!
Pisquei algumas vezes, processando suas palavras, rindo em seguida, incrédula.
— Qual a graça? — Ele se afastou sutilmente, a voz baixa, intrigado, mas com um traço de irritação.
— “Selou seu destino ao meu?” — repeti entre gargalhadas, secando o canto dos olhos com os dedos. — Sério?
Limpei a garganta, tentando me recompor, mas o riso ainda tremia nos ombros. Encontrei os olhos dele: sérios, uma sobrancelha arqueada, o maxilar travado em uma linha dura.
— Me desculpe… — murmurei, ainda sorrindo torto. — Mas quem fala assim para uma garota que acabou de conhecer?
Ele inclinou a cabeça de lado, me estudando com atenção excessiva, sem responder.
Aproveitei o silêncio.
Passei por debaixo de seus braços fortes, rápido, quase escorregando, me afastando dois passos largos.
— Olha, nós somos completamente estranhos um para o outro… e nos beijamos. — Respirei fundo, tentando organizar o caos dentro de mim. — E tá, eu admito… foi bom.
Ergui as mãos em um gesto quase rendido, meu olhar permaneceu preso ao dele, enquanto dava um passo para trás, depois outro, girando o corpo devagar.
— Mas foi só um beijo. — Reforcei, tentando convencer mais a mim mesma do que a ele. — Aconteceu no calor do momento. Sem importância. Nada demais.
Cada palavra soava menor do que o que eu tinha sentido.
Alcancei a maçaneta. Meus dedos envolveram o metal frio, pronta para girá-la e sair dali antes que minhas próprias certezas desmoronassem.
— Então… eu vou indo e…
Abri a porta, olhando por cima do ombro uma última vez, ele deslizou as mãos para o bolso, inclinando a cabeça de lado, me encarando com intensidade predatória.
— Obrigada… por não morrer. — Um quase sorriso escapou. — E por salvar a minha vida.
Assim que abri a porta, não ousei olhar para trás. Corri. Desci as escadas quase tropeçando nos próprios passos, o coração disparado, e vi a porta principal aberta. Arrisquei um olhar rápido para o andar de cima, ele não parecia me seguir.
Cruzei a saída sem hesitar.
E então meu corpo colidiu contra algo grande, firme, sólido como uma parede. O impacto roubou o ar dos meus pulmões, minhas pernas vacilaram, quase fui ao chão. Mas braços fortes me agarraram antes da queda, envolvendo minha cintura com força e me puxando contra um peito quente e rígido. Senti a vibração grave de um rosnado contido atravessar o tecido da roupa e ecoar contra minha pele, como um aviso baixo, perigoso… próximo demais.
— Tentando fugir de mim, pequena? — Estalando a língua, a pergunta veio rouca quase um aviso.
— Me solta! Co-como…? Como é possível? — ergui os olhos, arregalados, o ar preso na garganta enquanto tentava empurrá-lo. Meus dedos mal conseguiam mover aquele corpo sólido. — Como você chegou aqui tão rápido? Quando foi que…?
Eu não tinha ouvido passos.
Não tinha visto movimento algum.
— Isso não importa… — sua voz saiu rouca, quase um rosnado, enquanto seus olhos terrosos subiam para o céu escuro. — Por mais que eu adore uma boa caçada, não temos tempo para isso agora.
Ele praguejou algo baixo e gutural.
— Na hora de quê? — Minha voz saiu mais fraca do que eu queria, o coração martelando contra as costelas.
Sem aviso, braços fortes me envolveram pela cintura. Em um piscar de olhos, o mundo girou e eu fui erguida como se não pesasse nada. Meu estômago deu um looping quando ele me jogou sobre o ombro largo, o impacto contra seu corpo duro me arrancando o ar dos pulmões.
— Espera! Me põe no chão! — Gritei, batendo em suas costas com os punhos cerrados, mas era como bater em pedra quente. — O que você tá fazendo? O que vai fazer comigo? Me larga agora!
Ele nem diminuiu o passo. Cada passada fazia meu corpo balançar contra o dele, senti os músculos das costas dele se flexionarem sob meus dedos, não era só força bruta, era controle feroz, como se ele estivesse se segurando para não me devorar ali mesmo.
— Cala a boca, pequena — grunhiu, a voz vibrando direto no meu corpo. — Se eu te soltar agora, você sairá correndo, e se correr… — Ele parou por meio segundo, o ar ficando mais pesado. — Meu lobo não vai pedir permissão para te caçar!







