O tempo passou devagar na fazenda depois da música de Rafael ecoar pelo rádio. Os dias se arrastavam, como se o vento também tivesse perdido o ânimo de soprar. Isabella tentava manter a rotina — o leite, as plantações, os animais —, mas o silêncio se tornava mais pesado a cada manhã.
Era o tipo de silêncio que não vinha da falta de som, e sim da ausência de alguém. Ela caminhava pelo campo e lembrava do riso de Rafael, da teimosia dele em domar o cavalo que todos temiam, da forma como ele cantarolava baixinho enquanto trabalhava. Agora, o mesmo espaço parecia distante, quase intocável.
Seu Anselmo observava a neta com um misto de carinho e preocupação. Sabia que ela não era de falar sobre o que sentia, mas percebia nas mãos inquietas, no olhar vago, a saudade que ela tentava disfarçar.
— O gado tá bonito! — disse ele certa manhã, quebrando o silêncio.
— Tá sim, vô. — respondeu Isabella, sem tirar os olhos do horizonte.
— E você? Tá bem?
Ela demorou a responder.
— Tô tentando ficar.