Fui acordada pelo som da voz de Álvaro no telefone.
Ele estava na cozinha. Preparava uma refeição para gestantes seguindo um tutorial na internet. Ao mesmo tempo, cantava canções de ninar para ajudar Noemi, que sofria de insônia, a pegar no sono.
Ele era mesmo um homem muito ocupado.
Álvaro só desligou a chamada quando me viu se aproximando.
— Tem água morna em cima da mesa.
Eu o ignorei completamente.
Sentei-me à mesa de jantar. Finalmente o ambiente ficou silencioso, e eu consegui cochilar um pouco.
— Acorde, hora do café da manhã.
Álvaro arrumou os pratos de forma impecável.
Quando eu estava prestes a comer, ele esticou a mão e bateu na minha colher, derrubando-a.
— Espere, vou tirar uma foto.
Ele tirou a foto e enviou para Noemi.
Só então ele devolveu a colher para a minha mão e disse:
— Pode comer.
Meu apetite desapareceu de repente.
Encostei as costas na cadeira e perguntei:
— Para que mandar foto disso para ela?
— Ela quer ver — respondeu Álvaro, com indiferença. — Você sabe como essas menininhas são. Tudo é novidade para elas. Ela até perguntou sobre o pijama que eu comprei para você.
— E você tirou uma foto e mandou para ela de novo? — questionei.
Álvaro paralisou por um instante. Talvez ele tivesse notado o meu mau humor.
Por conta disso, ele preferiu não responder.
— Eu vi muito bem. Na foto que você tirou quando foi à casa dela, ela estava usando um pijama idêntico ao meu.
Era uma camisola de alcinha com renda, que deixava bastante pele à mostra.
Na imagem, a garota segurava o braço dele com muita intimidade. Bastava abaixar um pouco o olhar para ter uma visão bem reveladora do decote dela.
E essa não era a única situação do tipo.
Parecia que Noemi estava determinada a me superar em tudo.
Ela fez questão de cachear o cabelo igual ao meu.
Começou a usar exatamente o mesmo tom de batom.
Até mesmo a lembrança que Álvaro e eu havíamos feito à mão durante uma viagem virou alvo. Noemi cismou que queria uma igual.
É claro que isso era impossível.
Por isso, convencido pelas manhas da garotinha, Álvaro trocou os nossos souvenirs.
A lembrança que fizemos com as nossas próprias mãos foi parar na casa de outra pessoa.
— Eu não gosto disso — declarei.
— Não é para tanto — Álvaro rebateu, com uma expressão de total pouco caso. — Não seja tão mesquinha. Ela só elogiou o seu bom gosto e disse que admira você. Qual o problema em querer ter as mesmas coisas?
Fiquei sem palavras.
Eu pensei que deveria ficar com raiva. Deveria fazer um escândalo com Álvaro, como eu fazia no passado, e brigar com ele até não aguentarmos mais.
Mas meu coração parecia ter se transformado em um lago de águas paradas. Por mais forte que o vento soprasse, nenhuma onda se formava na superfície.
— Uhum. Você tem razão — concordei, acenando com a cabeça.