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Laços Rompidos

Laços RompidosPT

Cuento corto · Cuentos Cortos
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Resumen
Índice

Saí do hospital após fazer o aborto. Em seguida, enviei uma mensagem para o meu marido. [Eu abortei.] Álvaro: [OK.] Fiquei encarando aquela resposta. De repente, achei a situação um pouco engraçada. Durante todos esses anos, eu o avisava antes de realizar trabalhos de alto risco. A resposta que eu recebia era sempre [OK]. Quando eu pedia para ele me procurar se passasse vinte e quatro horas sem conseguir entrar em contato comigo, também recebia um [OK.]. Isso aconteceu até mesmo quando enfrentei um desmoronamento. Fiquei soterrada e incomunicável por setenta e duas horas. Em meio ao pânico extremo, enviei trezentas e nove mensagens de socorro para Álvaro. Ele respondeu a cada uma das trezentas e nove mensagens da mesma forma: [OK.] Foi então que percebi a verdade. O que eu recebia, durante todo esse tempo, era apenas uma resposta automática. Álvaro nunca lia as minhas mensagens. Naturalmente, ele também não sabia de nada. Não sabia que, há quinze dias, eu já tinha avisado que aceitaria a transferência de trabalho para o exterior. Muito menos que eu faria o aborto no dia de hoje. A energia e a vitalidade dele sempre pertenceram a uma única pessoa. Aquela mesma mulher que enchia o feed das suas redes sociais. [Comemorando nossos mil dias e o aniversário da Noemi.] A foto que acompanhava o texto era uma captura de tela da conversa dele com Noemi.

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Capítulo 1

Capítulo 1

Eram milhares de mensagens trocadas, um registro denso e contínuo.

Eu curti a publicação dele.

Deixei um comentário: [É um dia muito bom.]

Aquele era o dia em que escapei da morte no desmoronamento.

E, acima de tudo, era o dia em que decidi abandonar Álvaro para sempre.

......

Voltei para casa a passos lentos. Entrei no quarto e apaguei assim que deitei na cama.

Só quando acordei é que a dor na parte inferior do meu corpo aliviou um pouco.

Parecia que eu ainda não estava acostumada com aquilo.

A sensação de vazio era imensa, tanto no meu ventre quanto naquela casa escura.

Meu primeiro instinto foi enviar uma mensagem para Álvaro.

Queria perguntar o motivo de ele ainda não ter chegado em casa. Afinal, já eram três da manhã.

Desbloqueei o celular e encarei a tela cheia de [OK]. Minha mente finalmente voltou à realidade.

Ri de mim mesma. Já fazia quase dois anos, mas eu ainda não tinha conseguido digerir aquela resposta automática dele.

De repente, ouvi um barulho vindo do hall de entrada.

Saí do quarto e me deparei com Álvaro tirando a roupa. Ele jogou a camisa encharcada de lado e disse:

— Noemi disse que queria comer a comida que eu faço. Fui até lá entregar, mas peguei chuva na volta. A uma hora dessas, você ainda não foi dormir?

— Uhum — respondi, em um tom frio.

Ele caminhou em direção ao banheiro e perguntou de forma casual:

— O que você foi fazer no hospital hoje?

Ele pegou o secador de cabelo. Colocou na tomada e ligou o aparelho.

— Fui fazer um aborto. — A minha voz acabou totalmente abafada pelo barulho estridente do secador.

Ele sempre agia assim. Nunca me dava sequer o tempo necessário para falar.

Lancei um olhar de relance para o colar de Álvaro.

Era um cordão vermelho. A cor sempre transparecia por baixo do tecido quando ele vestia camisa branca.

Ele preferia usar um paletó a mais no auge do verão do que tirar o acessório. Mesmo sabendo que aquilo era apenas um brinde qualquer que Noemi ganhou ao fazer compras.

— Álvaro, cadê a sua aliança de casamento? — perguntei, encostada no batente da porta.

Ele desligou o secador e passou as mãos pelos cabelos com desdém.

— Eu tirei. Não gosto dessa sensação de estar preso.

— Então por que você usa esse colar? — perguntei, já sabendo a resposta.

— Isso é diferente — ele justificou. — O cordão é macio. A aliança machuca o dedo e atrapalha. Só você mesma para gostar de usar isso.

Abaixei a cabeça e olhei novamente para o anel no meu dedo anelar.

Seria mesmo uma aliança de casamento?

A aliança verdadeira eu já tinha tirado há muito tempo. Aquela ali eu comprei no centro comercial. Era muito barata, e até o diamante era obviamente falso.

Mas é claro que Álvaro não percebeu a diferença.

Ou melhor, ele não prestava atenção em mim há muito tempo. Fazia anos que ele não segurava a minha mão.

— Chega de papo, vá dormir logo.

Álvaro bagunçou o topo da minha cabeça com a mão. Em seguida, virou as costas e foi para o quarto de hóspedes.

Desde que eu engravidei, nós nunca mais dividimos a mesma cama.

A desculpa dele era que dormia tarde. Dizia que tinha medo de atrapalhar o meu descanso.

Porém, a realidade era que Álvaro ia buscar Noemi todos os dias após o turno da noite. Ele fazia companhia a ela durante o lanche da madrugada e a levava de volta para casa. Por isso, ele só chegava às duas ou três da manhã.

Na verdade, os dois continuavam se falando mesmo depois de chegarem em casa.

Uma vez, levantei às cinco da manhã para ir ao banheiro. Vi que a luz do quarto de hóspedes ainda estava acesa. Dava para ouvir o som das teclas do celular e algumas risadas abafadas vindo lá de dentro.

No passado, eu com certeza teria entrado lá. Teria exigido saber sobre o que eles conversavam tanto.

Será que existiam tantos assuntos assim no mundo para se debater?

Se sim, por que Álvaro agia como um mudo quando estava comigo?

Mas nada disso importava mais agora.

A tela do meu celular acendeu. Era o termo de acordo para a transferência de trabalho.

Cliquei no botão de confirmar e voltei para o quarto para dormir.

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