Pouco antes da minha transferência, a empresa resolveu organizar um evento.
O supervisor mandou os requisitos no grupo de mensagens.
Dei uma olhada rápida e perdi a vontade de ir na hora. Eu estava prestes a enviar uma desculpa para não comparecer. No entanto, o supervisor me marcou antes e revelou que aquela era a minha festa de despedida.
Depois de ouvir isso, eu não tinha mais como recusar.
Não tive escolha a não ser ligar para Álvaro.
— Tem um evento da empresa e é obrigatório levar um acompanhante. Se eu não levar, a empresa vai escolher alguém aleatório. Você tem tempo livre hoje à noite?
Havia muito barulho no fundo da ligação dele.
— Não estou conseguindo te ouvir direito. Espera um pouco...
Houve um som de passos e farfalhar de roupas.
— Pronto, pode falar.
— Onde você está? — perguntei.
— Estou acompanhando a Noemi em um show — ele respondeu.
Fez uma pausa e acrescentou em seguida:
— Ela estava louca para vir a esse show há meses. Até colocou alarme para conseguir comprar os ingressos, deu o maior trabalho. Mas a amiga dela não pôde vir de última hora. Então eu vim no lugar.
Dei um sorriso amargo.
— Só perguntei por perguntar. Você não precisava me dar explicações.
A respiração de Álvaro pareceu ficar um pouco mais pesada.
Repeti a pergunta que tinha feito sobre o evento da empresa. Ele não respondeu e desligou o telefone na minha cara.
À noite, fiquei parada na entrada da empresa esperando por Álvaro.
Uma hora se passou, e nem sinal dele.
Começou a ventar forte. Uma chuva fina e inclinada atingiu as minhas pernas, molhando a barra da minha calça. O tecido úmido grudou na minha pele, causando muito desconforto.
Não tive outra opção além de voltar para dentro do salão e trocar de roupa.
Quando saí novamente, Álvaro já estava sentado em seu lugar.
Porém, ele havia comparecido ao evento como o acompanhante de Noemi.
— Rosalía! Aqui! — Noemi acenou para mim com entusiasmo.
Todos naquela mesa já estavam em pares. Só eu havia sobrado sozinha. A situação era extremamente constrangedora.
Eu estava prestes a ir embora dali. No entanto, o supervisor me empurrou na direção deles.
— Rosalía, seu marido está bem ali! Vai lá com ele, rápido!
O supervisor me empurrou até eu parar bem na frente de Álvaro.
Ele ergueu as sobrancelhas para o meu marido e brincou:
— A sua acompanhante chegou. Levante-se logo para recebê-la.
Noemi se adiantou e agarrou o braço de Álvaro. Ela sorriu docemente e disparou:
— Ele é o meu acompanhante.
Álvaro confirmou com um leve murmúrio afirmativo.
O supervisor olhou para mim e depois para eles, visivelmente confuso. Ele me fez sentar na cadeira ao lado de Álvaro antes de tentar amenizar a situação.
— Sem problemas. Vou providenciar outro parceiro para você agora mesmo.
Olhei para Álvaro. Confesso que o meu coração se apertou de desgosto.
Afinal de contas, fui eu quem o convidou primeiro.
Por pura educação, ele deveria ter me dado uma resposta. Se não queria ser o meu acompanhante, no mínimo deveria ter me avisado com antecedência.
Ele não tinha o direito de me deixar esperando do lado de fora feita idiota.
Antes que eu pudesse perguntar, Álvaro se apressou em explicar:
— Tem muito homem mal-intencionado cercando a Noemi. Ela me chamou só para eu ajudá-la a afastar esse tipo de cara. Como todo mundo aqui sabe que você é casada, ninguém vai tentar nenhuma gracinha. Ela nunca namorou na vida e é inocente demais. É meu dever protegê-la um pouco, tanto pela razão quanto pelo afeto.
Mais uma vez, ele escolheu Noemi com firmeza.
Na primeira vez, essa escolha quase custou a minha vida.
Na segunda vez, me fez passar por uma enorme humilhação pública.
No fim das contas, o supervisor não conseguiu encontrar um acompanhante para mim.
Consegui escapar dos jogos em dupla e me esquivei da dança de salão. Fiquei sentada no canto mais isolado da festa. Dali, assisti ao meu próprio marido e à sua amantezinha se divertindo e aproveitando a noite.
A última dinâmica da noite era uma troca de confissões verdadeiras.
Quando Noemi puxou Álvaro para subir no palco, o salão ficou em um silêncio palpável.
Talvez todos tivessem se lembrado do famoso escândalo do desmoronamento.
As pessoas começaram a trocar olhares de canto de olho. Logo, percebi vários olhares caindo disfarçadamente sobre mim.
Pareciam agulhas afiadas, espetando o meu corpo e causando dor.
Aquela dor antiga e familiar que morava no meu peito também veio à tona.